Cogito
A existência de um ser criador do mundo impõe o tempo como marco de fundamento de algo no espaço. Antes, apenas o nada. E deus. Um homem está à frente, encostado na pilastra com a perna dobrada em quatro, deixando ver, num quadro recortado em triângulo, uma flor lilás emoldurada pelas suas pernas. Mas se sempre existiu deus, o nada não existe. Ele olhava em direção ao céu, desligado do corredor, com os lábios entreabertos, como se gesticulasse palavras, tendo em uma das mãos uma maça mordida e na outra, um livro de capa laranja de onde era possível à mulher ler, dobrando ligeiramente a cabeça, 'Fenomenologia da percepção'. Sempre houve, então, ao menos um elemento, o que nega o início e impõe a eternidade, uma vez que a idéia de deus traz em si a concepção de ser atemporal. O movimento lento de uma mecha dos longos cabelos do homem trazida ao seu nariz o fez espirrar, expulsando pingos de saliva sentidos no braço direito da mulher. Se há eternidade, dentro da qual deus sempre existiu, já existia alguma dimensão existencial, dentro da qual o próprio deus existia e que, portanto, não foi por ele mesmo criado, já que ele já é dentro da própria eternidade. Ela seguiu em frente sem olhar para o lado para não ter suas reflexões interrompidas, mas ouviu o homem chamar-lhe pelo nome, o que a fez ditar rápido a cadeia seguinte da análise, para não perdê-la por aquela interrupção. Deus, portanto, não existe como conceito criador primário-absoluto. Há alguma dimensão de existência – mesmo a existência de um grande vácuo cheio de nada (o nada que é deus, já que este para sempre existiu), porque numa construção lógica a existência de um deus eterno nega por princípio um marco de criação do mundo. Ela olhou para trás, viu sua mão balançar na altura da cabeça em direção ao homem, estranhou o próprio movimento e retornou o corpo em direção ao corredor do campus, que continuava longo e, agora, deserto, à sua frente. Mas o marco da criação de deus não é a criação de algo (aqui entendido como qualquer coisa para além de si) num sentido lato, porque algo já existia e se confirmava na percepção de deus enquanto elemento primário – deus é existente[?]. Assustou-se com um grito atrás de si e olhou automaticamente para o homem que agora estava no centro do campo de visão da mulher e dava passos em sua direção. Assim, o marco da criação de deus não é a criação do espaço, mas sim a criação de 'coisas' no mundo (considerando que o único elemento que existia era deus e este deve ser entendido como ser-não-matéria (por quê?). Ele tinha um corpo engraçado, agora, visto em trânsito, com um peitoral de primata musculoso. Não existia 'coisa' antes da invenção de deus? Ele mordeu a maçã enquanto caminhava e no ato da mordida fechou os olhos, abrindo-os em seguida, juntamente com um sorriso que se embaralhava com os movimentos de mastigação. Além-de-deus não existia nada no mundo? O homem tomava uma forma mais volumosa a cada passo, e mais colorida. Somente é concebível um deus criador se este inventa algo que não existia fora dele, independente dele, exterior a ele. A mulher não queria sair de si e fechou os olhos. Mas este princípio é também incoerente, porque a criação é necessariamente parte do criador e, portanto, já existe em si, mesmo que ainda não fora-de-si. Sentiu, abruptamente, uma sensação de calor tomar-lhe a mão. E se já existia em qualquer-que-seja o plano, não foi criado, mas exposto, materializado, consubstanciado.
“_Mas, o que é primeiro? É possível criar do nada?”
“_ O quê, Thaís?”
“_A criação já parte de um princípio já criado, deus?”
“_Hã?”
“_O que vem a partir dele surge da sua Idéia, do Verbo?”
“_...?!”
“_O Verbo imagem, o Verbo pensamento, o Verbo conceito, o Verbo a-matéria?”
“_Thaíis?”
“_O Verbo pode parir pedra?”
“_Tha-ís”
“_O Verbo pode parir barro?”
“_Você pirou.”
“_O verbo pode parir peixe?”
2 comentários:
"...saulo ficou cego e nada viu..."
Putz!
Que loucura!!!!!!
Agora pirei de vez...
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