12.7.09

.
há uma dor na felicidade, um estrangulamento, uma percepção da transcendência que oprime o corpo miúdo. é mais fácil permanecer na solidão do que no amor. na solidão o refúgio em alcoóis torna mais brando os dias, menos reais, mais fáceis de serem empurrados na ostração. no amor não. o amor traz a realidade da lua. e ela está ainda imensa no amanhecer da noite, cúmplice dos lençóis, ao lado das nuvens. e oprime um coração pequeno. o amor, encarnado no corpo, exige o ato de amar. amar dói. dor muscular, de coração, dor circular, de coração, dor rubra, de coração. é verdade manifestada no reflexo do olhar alheio. e a verdade redefine a pele. quer acordar consubstanciada no oceano encarnado nas águas do outro. um outro metade. um outro duplo de si. o amor quer viver debaixo d'água, sem respirar os dias, viver de forma líquida, mergulhada em pele horizontal. exige criação. faz os olhos acesos brilharem, as mãos fechadas se abrirem, as pernas cruzadas cederem, a boca faminta embebecer-se, os poros florescerem. o amor toma a forma do ar e se incorpora no vácuo, traz a dimensão da integralidade do espaço, não resta ocaso. é batida de bossa nova, orquestra de sensações. o corpo faz-se corda de violão p'ros dedos comporem sons. o amor parece menor quando não existe. e ser parece infinito depois do amor firmar-se. agora a eternidade existe. a alma existe. até deus pode voltar a existir: ele está perdoado! o amor é a negação do que não existe. a imanência. a extensão em fá, é o ser mais um. sinal de multiplicar. prato na mesa em dobro. e o medo da morte, infindável, parece até sumir. toma a forma dos olhos. abre-se o mundo. há redefinição do tempo. negação do tempo. não há mais tempo. só sucessão de estalos no peito, em tons aleatórios, susto contínuo para quem tem o músculo central exposto. uma noite inteira de olhar basta para renascer. depois, um domingo de febre. o olhar sem voz, o olhar silêncio, estendendo-se pela longa madrugada até transmutar-se em sol. depois, um domingo de febre. como deixar os olhos pra trás? um domingo em febre. o mundo espera quinze dias para reencontrar-se. e os olhos surgem novamente, agora muito próximos da retórica da sedução, da extensão do corpo nu. mas o olhar continua lá, como ponte de conforto, reflexo do primeiro toque, como potes de mel. pronto. não há mais ninguém na noite. não há mais noite. não há mais qualquer mais. apenas um outro que elimina a possibilidade de isolamento. um outro que suga a individualidade. a vestimenta. o universo confirma-se redondo na dialética do ato amar. sim, de novo a dialética aparece, meu caro geo! a dialética presente na geografia do amor. amar deixa o que é meu tornar-se theu. o outro é a negação das paredes. elas eram altas, torres de ilha grande. lábios nos olhos rasgaram os segredos. agora já não há mais parede nem solidão. o amor tomou a forma da vida. chegou vestido de chapéu e sobretudo. a porta escancara-se. o amor conforta as crises das madrugadas e vigia os movimentos noturnos. é ser literário. e quando canta abafa qualquer entendimento. não resta mais razão. somente olhos cantantes. tem a forma de árvore. será plantada, regada, cuidada. há grande chance de que o amor seja este pedacinho de terra simples, surgida para abrigar esteiras pra sentar e contemplar estrelas. há desejo de compartilhar um céu. este desejo é novo. é potente. desejo de comunidade e solitude.
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6.7.09

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ser-tão debaixo d'água:
solitude a dois...

[ainda bem que Aristóteles inventou a alma!]
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2.7.09

tupi or not tupi that is the question oswald de andrade

1.7.09

1.7.09. uma lógica para o caos, por favor... um sete zero nove comprimidos para conter o sonho. sim, pode ser. dois? um sete zero nove. vermelhos. antiácido e antifebril porque a loucura tomou o corpo dessa pequena moça. vive agora sonhando com árvores, sombras e ipês, é só nisso que essa pobre tola pensa. hum. 1.7.09. e se tiver também algum que faça o coração mais manso, menos rebelde, bota logo três. um sete zero nove. porque parece que o peito de tal danada anda pulando e torcido. é bom ficar prevenido. tá formado um tufão de sentimento. ela bebe água pra espantar o calor, mas no sol dessa terra deus abana o que o diabo ferve. 1.7.09. ela tá com os miolos quentes. dê-lhe logo um sete zero nove banhos de água corrente e tira esse pano do pescoço dela, que só anda embrulhada - neste calor! - essa tal menina. parece que agora crê no que não existe! dá um chá de realidade nela! 1.7.09! pra vê se acorda e vai trabalhar. dê logo, antes que este fogo tudo queime. voltou assim, pobre coitada, desse são joão. e só pensa agora em voltar pro sertão. e fazer cinema.

26.6.09

o eterno retorno presente nesta cidade, mais do que em qualquer outro ponto do planeta. por ser uma cratera aberta? por ser um vulcão em repouso milenar? por ter este céu de estrela que cospe ondas do caos? está aí, esta mesma noite lenta, fria, melancólica, poética de quintal. estava lá, nos corpos, na coletividade, no trânsito morno dos membros, na pulsação dos olhares, no infinito de possibilidades, na película que aqui e ali se produzia, na música que se compunha. em momento de tensão a velha retórica da verdade aparece e assombra, assusta, constrange. a palavra pode ser de morte, então não fale. noves fora zero, o olhar permanece como melhor instrumento, o instrumento da sutileza, da delicadeza, do afeto. no silêncio o retorno se completa, no silêncio talvez haja alguma salvação. na palavra não. só na poesia. na palavra não. cinema mudo, sim, cinema mudo - papalo e carlitos bem o sabem e anunciam. além do bem e do mal, o caos fecha os olhos e sorri, "quão bobas são essas crianças"... enquanto num quartinho negro dois palhaços compartilham confidências. não reconheço quem poderia categoricamente afirmar qualquer coisa. atitude mais autêntica? o niilismo serve? severidades... é possível salvar-se? o barco estende-se no mar deste sertão e à bordo as vozes se tocam. se roçam. sexo? ainda não. é cedo para nós. é tarde para os outros. e enquanto as pernas dão passos em qualquer direção, um céu, repito, o céu, ou melhor, este mesmo céu, que já no primeiro encontro do universo com o ser se fez e vingou acima e abaixo deste pequeno grupo que formado na eternidade, nesta noite se estendeu, esta mesma noite projeta o que poderá, a partir dali, se firmar. e enquanto eu não te alcanço, enquanto eu não te alcanço, dentro do peito arde em febre a dialética do amor.
amanhece o dia na cidade cheia de céu e em cada plano do olhar uma gota de desejo [dia de fogos, de festa, de seu joão] tanta trama por um gesto... e o dia do fim vir pode antes do re-começo. então chega em silêncio, para que não se sinta, para que não se perceba este contemplar perdido no salão, esta noite imensa, este passo torto, este xote lento, peito sem ar, garoa fina e fria de solidão. não há pressa, mas sopra o vento e nenhuma vida nova trará esta mesma forma de ser, então chega devagar [mas chega], que é p'ro peito não transbordar porque esta sua maneira de estar e esta minha forma de querer podem se perder, não são de se repetir. olha com olhos de deserto e silêncio tumultuado do pacífico, tira do náufrago corpo esta roupa molhada, envelhecida de si [se liberte de todo sal] pousa aqui, neste sertão e acende uma fogueira sobre esta terra de urucu. permita. porque o fim pode raiar e tomar jeito de cinzas. então deixa [vir] este estado de amanhecer.

15.5.09

pensei hoje, num intervalo de sentir,
na prosa da forma como a uso

gramática?

diagnosticando-me, à tardinha,
concluo: o meu sentido não está no estilo,
mas no princípio.

a vontade, pervertida.
ou melhor, a verdade.

a verdade pervertida ou
a vontade verdade?

xi, complicou.

enfim, analisando-me profundamente, adentrei os vales da noite.

14.5.09

video

curto-cotidiano


5.5.09

Los senderos

Si estás en México,
toma el camión

Si estás en Argentina,
toma el colectivo

Si estás en Peru,
toma la góndola

Si estás en España,
coge el autobus

26.4.09

.
los días de la semana

Lunes,
día de la luna

Martes,
día de Marte,
- Dios de la guerra

Miércoles,
día de Mercurio,
- Dios del comercio

Jueves,
día de Jupiter,
- Dios del rayo y del trueno

Viernes,
día de Vênus,
- Diosa del amor

Sábado,
Sabat.
Dia santo de los judíos

Domingo,
día festivo de los cristianos
.

20.4.09

.
estrangeiro

pareceu-lhe uma boca e eu sou cega, uma coisa, uma telenovela, uma arara, ao mesmo tempo guanabara. passará o que começo, tentando o pão de açucar. arestas. luz. branco. aurora. um velho nas costas e uma menina linda. não olho pr'atrás mas vejo o que desejo. o teto. Os dentes. impressionista, essa coisa. surrealista. duplo som. é chegada a hora do pai, amém. eletrochoque (eletrochoque, eletrochoque). o macho. e o resto, resto, o sexo e eu. contra o vento. o centro. essa coisa, é dente. as vozes. hora da reeducação. o certo é saber o macho adulto branco e o resto é riscar os índios e os pretos. menos estrangeiro. contra o vento, o que estão dizendo. mas eu desperto, o amor é cego. o albino não enxerga muito bem. passa passará. Pesadelo. pense. é o desmascaro, o azul e o púrpura. amarelo.
.

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O menino e o pirulito

http://www.youtube.com/watch?v=ctyLKn1Pc2k

19.4.09

"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade
Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã." (chico buarque)

5.4.09

Estante de menina
m
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m
m
m
m
m

“Sábado, 2 de janeiro de 1915. Hoje é um daqueles dias que havia de selecionar se fosse possível escolher uma amostra perfeitamente mediana do que é a nossa vida.” (Virginia Woolf, Diário)

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"Poucas pessoas conseguem ver
o que já não está dentro da sua cabeça”

(Susan Sontag, O amante do vulcão)

..........

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“- Pare de escrever.
- Quando escrevo, não amo mais você”

(Marguerite Duras, Emile L.)
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..

4.4.09

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A Dona-faixa


atravessa
e se sente impotente...

(mas ela adora lantejoulas vermelhas!)








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/
.
amor cibernehtico

envio mensagem.
, email.

talvez ousando demais.

queria te mais.

deixa-me estranha,
sem mecanismos,
- Boca de rosa,

mas eh (sem acentos, desculpe!)
tudo
novo.

signos em arquivos.
construir sentido, significado
- para equilibrar o pulso,
antes que ele se desmache no ar, vermelho.

eh tudo soh ventania, agora.

soh ventania agora...
.

26.3.09

.
EL SOPLO
.
I. Explicacion para la poesia
.
La soledad circular de la multitud,
el yo florido de asfalto,
la durmiente en las islas desiertas
de los bares repletos,
la que queria fugarse en día de partido
y no volver por toda la eternidad;
.
la descontenta,
la escurridiza,
la introspectiva,
la andariega que toma
el camino de la lombriz de tierra
y se cierra siempre en túneles oscuros
.
para hacer del alma
uno río que se ha desbordado
y há inundado los campos vencidos;
.
la que no quiso tomar asiento
y casi naufragó en el mar
y casi fue atropellada por un tren
y casi murió de sufrir afecto;
.
la que no cabe en la soledad
y ni cabe en la palabra;
.
que no és un ser estático
y se encuentra en un estado de mutación;
.
la que padece por que no entiende,
retorna siempre en las mismas cuestiones complejas!
.
(com leves soplos para paliar)
.
.
II. La poesia misma: El soplo
.
como cuando ve en una ciudad pequeña una casita bonita
como cuando, paraguas
como cuando llora,
como cuando, colores
como cuando canta,
como cuando, leve, un soplito en el pie del olvido, hummm
.como cuando , leve, un soplido en el pie del olvido
para paliar
.

25.3.09

.
"Pacto entre derrotados"
.
.
"siempre me han preocupado estos jóvenes
cuyos ojos están destinados a la belleza,
pero también al infortunio porque,
qué más desventurado que
un sediento buscador de absolutos?"
.
um impulso. como se só houvesse ontem no mundo. pronunciei o seu nome sem saber se escutava. pronunciei e recebi o silêncio que me habitará por toda a eternidade.

tenho um sentimento de emergência, como se não houvesse amanhã. isso dilui qualquer sonolência e adaptação. Com Sábato, em Antes del fin, minhas angústias, ao contrário de se diluírem, tomam a forma de letra. pacto entre derrotados - este é o epílogo do seu livro, escrito quando "o tempo de sua vida se quebrou" com a morte do seu filho, depois de uma bela trajetória humanitária e literária.

não sei porque o busquei. entendi somente hoje, quando o avião arremeteu de dentro de uma tempestade, em BH. de novo no céu, voando por nuvens à caminho do Rio, onde fui pousar num plano seco, mais uma vez a abrupta certeza de que o fim é tão certo quanto estúpido. me punha a perguntar o que resta a fazer.

.

"después,

el tiempo fue acelerándose,

y yo sentí que debía resignarme

y abandonar tantos proyectos"

.

em quantas mansardas, Pessoa, nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando, como eu? tantos projetos ainda vivos, uivando nos poros feito lobos... outros tantos perecidos para nunca mais... e um pouco de vida que se vai com cada um desses desejos profundos que abandonamos pelo caminho.

.

"una suave llubia de otoño

cae sobre el jardín,

y también sobre pájaros y árboles que,

quién podrá saberlo,

quizá meditan igual que nosotros."

.

23.3.09

.
no sé por qué no cierras el paraguas si ya no llueve
.
.
el vacío es tamaño
que no hay con quien relacionarse
alla afuera
.
y no hay afuera
.
solamente uno aquí
infinito de soledad
,

21.3.09



experimentos

























.

6.3.09

.. .
- Quero falar com você.
- Não posso te atender agora. Estou muito chata.
- Compreendo. Mas prometa falar comigo assim que puder.
- Talvez eu não possa enquanto a chuva cair.
- Tengo un lindo paraguas que te puedo prestar.
- É transparente? Gosto de ver o mundo molhar-se.
.
.

15.2.09

.
Aquela que não quis tomar assento
e quase naufragou no mar
e quase foi atropelada
e quase morreu de dor de amor,
passeia na solidão redonda da multidão
e no eu florido de asfalto.

A sem-lugar nas ilhas desertas dos bares abarrotados,
aquela que queria fugir em dia de jogo
e não voltar nunca mais,

a descontente, a escorregadia, a introspectiva,
a ensimesmada,
aquela que foge sempre em busca de buracos,
que se tranca no quarto
no escuro,
cortinas cerradas e música
pra inundar o espaço da alma.

Aquela que não cabe na solidão
e nem cabe na palavra,
que não é um ser,
mas um estado de desfazer-se contínuo,
com leves sopros pra aliviar,
como quando o olhar mudo de um andarilho lhe desmascara um conceito.

Aquela que sofre porque não entende
e retorna sempre às mesmas questões complexas

com leves sopros pra aliviar.
.
.

3.2.09

ficar junto é melhor
do que ficar só
depois de ficar só

ou

ficar junto
depois de ficar só
é melhor

e depois de ficar junto?
ficar só

ficar só entre nós
depois de ficar junto entre outros

1.2.09

Tiradentes








20.1.09

"Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser." (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

13.1.09

como querer moldar a chuva?

1.1.09

3. Matchu Pichu





cantando la cigarra, com os pés na montanha sagrada, matchu pichu, e o olhar para o horizonte a perder-me e inundar-me, adentrei o novo ano. renovada.

La cigarra
Tantas veces me mataron,
tantas veces me morí,
Sin embargo estoy aquí resucitando.
Pero si estoy a la desgracia
y la mano con puñal
por qué mató tan mal,
y seguí cantando.

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

Tantas veces me borraron,
tantas desparecí,
ami propio entierro fuisola y llorando;
hice un nudo en el pañuelo
pero me olvidé después
que no era la única vez
y seguí cantando.

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra.

Tantas veces te mataron,
tantas resucitarás,
cuántas noches pasarás desesperando.
Y a la hora del naufragio
y la de la oscuridad
alguien te rescatará para ir cantando.

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente que vuelve de la guerra.

(música de Maria Elena Walsh interpretada por Mercedes Sosa!)

28.12.08

2. Copacabana, Lago Titicaca, Ilha do Sol...

Balneário às margens do Lago Titicaca, lago navegável mais alto do mundo, 3.812 m acima do nível do mar, com 8,3 Km de água. Fronteira dos estados da Bolívia e do Perú, porta del sol - entrada ao império inca.

Isla del Sol. Segundo os incas, o lugar escolhido por Inti, o Deus Sol, para deitar os primeiros raios que iluminaram o mundo.

















Viagem rumo a Machu Pichu.

1. La Paz.

Capital mais alta do mundo, 3.600 m acima do nível do mar. A cidade é densa, diferente de qualquer outra que eu tenha conhecido. Impossível desvendá-la assim, num caminhar. Uma luta se trava através do olhar, desputado pelo povo andino, pela arquitetura espanhola, pela vida pulsante, frenética, caótica do lugar.

As chollas me fascinam, mulheres pequeninas, gordinhas e coloridas, com seus xales bordados e chapéus a enfeita mais do que a proteger.

O cemitério de La Paz. Indescritível labirinto formado por gaveteiros de túmulos que formam longas e altas paredes que deixam a vista, de forma simétrica, inscriçoes de mortos e objetos postos e cultivados pelos vivos.

Sinto muito frio aqui. Acordei numa madrugada com membros cogelando, caibras, sangrei pelo nariz, senti tontura, tive que medicar-me e masco folha de coca desde lá, melhor agora.

Comprei um pano e já me abrigo nele, querendo incorporar no meu corpo a estética dos andes.

Em La Paz fui rejeitada. Minha pele branca? A evidência de ser uma turista? Penso que talvez odeiam o que a minha figura representa. Quase fiz xixi na roupa por me faltar 50 centavos de bolivianos e a cholla se negou veementemente a solidarizar-se comigo. Ofereci 1 dólar, o que, creio, foi pior - talvez lhe pareceu mais arrogante. E meu portunhol nao ajuda muito...

Evo está presente nas ruas.























5.12.08

Conto incompleto de um amor incompleto.

Da noite sobraram reflexos inteiros. Lembro-me que toquei seus cabelos em um certo momento ainda na rua. Os seus cabelos, para mim, tanto quanto os meus, para ele, foram desde sempre determinantes, esta atração pelos corpos que tolamente fantasiamos, que tolamente enfeitamos, este primeiro impulso pelo território do outro. Os cabelos pareceram-me sempre panos que enfeitam, talvez por isso mais tarde quis minha nuca vazia, queria desde logo, ao perceber o quanto os meus me escondiam, despir-me.

Seguimos por ruas desertas que uivavam, em certo momento ele abrigou meus braços, silencioso por longos passos, não havia muito o que dizer, os seus amigos cantavam baixinho, eu tentava me integrar, desajeitada, acabei percebendo esta característica quase intrínseca e não uma reação momentânea. Eles seguiam por uma rua extensa, não sabia onde pretendiam ir e a cada passo meu batimento cardíaco aproximava-se ao pulo de um bicho em perigo, era necessário retornar, disse isso, ele sequer ponderou, gritou um tchau aos amigos e viramos os corpos para recuar pelo mesmo caminho, sem que houvesse qualquer reação daqueles que continuaram seu canto.

Agora os pés eram quatro, olhávamos para eles como equilibristas que dependem do outro para seguir pelos ares. Sorriu, o que você está pensando, perguntou, respondi ser aquela a pergunta mais tola que alguém poderia fazer-me, ele disse que não, que era importante para ele entender o que se passava comigo, que tudo o mais dependia dos meus pensamentos, disse que pensava se ele não sentia frio nos pés. Ele parou, olhou-me, disse sim, sentia, nem percebera, num impulso sentou-se no chão e retirou da mochila uma meia que vestiu fazendo-me rir e nunca me esqueci o ridículo daquelas meias amarelo-ovo pulando para fora de suas sapatilhas trançadas. Sentei-me à sua frente, ali mesmo, no passeio deserto da madrugada, ele retirou da mochila uma manta vermelha com estampa quadriculada me fazendo lembrar dos meus vestidos de são-joão, colocou sobre os meus ombros. Pegou também um cigarro, acendeu e o tragou de forma tão intensa com os olhos fechados que me fizeram curiosa por experimentar o êxtase de quando os abriu novamente, voltando sei lá de qual paraíso. Tornei-me uma fumante compulsiva desde então, sem nunca ter conseguido encontrar aquele lugar que ele percorria sempre em sua primeira tragada.

Foi neste momento que toquei seus cabelos, quando ele abriu os olhos e os teve longamente em mim, à minha frente, em silêncio. Percebi-me molhada, foi esta a sensação que mais me surpreendeu ali, meu corpo inteiro molhado, queria beijá-lo, mas me contive com um toque em seus cabelos. Ele trouxe uma boca semi aberta vista por mim até o momento em que já se distorcia pela proximidade, fechei as pálpebras e senti seus lábios úmidos, cheios de saliva. Pela primeira vez uma boca vinha abrigar-se na minha, possuía uma língua morna, macia, deixei-me conduzir por ele até o momento em que retirou-se para percorrer cada fatia da minha face, eu me sentia estriada, carne moída que despencava em pedaços, queria apenas um lugar fechado para derreter-me em paz.

29.11.08

. diário de viagem. eterno retorno...

Dia 1. Conquista. chuvosa,

nublada
como sempre a deixo,
como sempre a encontro...

Na madrugada, ensinam-me xadrez. papalo, sempre doce!

.

26.11.08

os pássaros elegem.
vôam em bando.
menos ainda.
vôam em par.
só eu vôo ímpar.
.

16.11.08

.
Nova publicação em

http://www.palavrasobrecoisas.blogspot.com/
..
.

9.11.08

.
De tanto que observo me toma uma visão
em que o ipê da Liberdade,
despido, magricelo, carrancudo,
tendo como fundo Niemeyer
curvo, preamar, arco-íris
esconde olhos
de janelas recém acesas do entardecer
– íris de voyeur reticente
. .
Me toma cobiça aquela vida de olhar de cima
tão classe-média, contemplativa, literária
ao contrário de mim,
transeunte da praça, de olhar
baixo, sonhador, proletário.
..
A cidade, olhando daqui, com o Palácio à direita
e a Bahia à esquerda, dói de bela e me enterra.
Agora moro nesta pequena Bahia, rua mar de asfalto
e não desço floresta
– tranca o choro, Fabiana!
, .
O meu coração parece grande, mas é líquido
e derrama fácil fácil
quando vai em favela, beco, morro, comunidade
e quando, ainda,
qualquer um diz que me ama
– eu me apaixono como água.
. .
Vejo agora, deste ponto, da mesma praça,
debaixo da árvore sem nome,
o moço-negro-da-flauta tocar bossa nova
enquanto um casal se beija e me mata de inveja
– vou até o Rio nos tempos da centelha vermelha,
– vou até o Prado nos braços do ser amado,
.
a bossa nova é sempre nova é sempre nova tanto quanto o rio continua lindo continua lindo
..
Quase sempre e quase sempre é todo dia
desejo imprimir e distribuir poesia.
Quando quero quietar o coração,
só aí (quase sempre)
venho à praça.
.
Acredito que posso reter este céu
lilás estrelado de palmeiras
e dizê-lo a qualquer um
com qualquer palavra
– retenho o que vejo para que vejas através de mim.
Olho infinitas vezes para Niemeyer
e ele é sempre belo.
isso mesmo: a utopia existe e se renova
..
Então não é por muito que me deixo,
mas pelo ínfimo _ quase me atropelam.
Dú sempre diz pr'eu olhar p'ro lado
– “vais morrer atropelada!”
Estou com má digestão do mundo
Mas como fazer, Maiakovski,
na falta da primavera?
,
Fabinho diz que vou surtar,
pra ele ando pisando em nuvens.
– como deve ser o caminhar?
..
Enquanto não sei,
soletro:
ô vida besta, meu deus.
..