sábado, 12 de dezembro de 2009
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otra vez despierto al amanecer y miro el cielo tomarse poco a poco por nubes de color negro, como un hongo oculto entre las hojas secas en una playa desierta. por encima de las nubes me parece que sea más tranquilo que sobre la tierra, pero todavía no aprendí a volar… las nubes, como una película refleja el deslumbramiento de mis sueños - sucede en mi vida el eterno retorno de Nietzsche... del mismo modo que hay ciclos de las mareas, transcurre las emociones humanas… los momentos de dolor siguen ciertas leyes y ritmos, obedecen a un cierto número, tal vez en mi vida es un ciclo de 21, 22 y cuándo el día fatal llega, una sombra, como esta nube negro que ahora lleva puesto el cielo, cubre el mundo y toda felicidad suena a falso. pero entre las piedras nacen pequeñas flores y también los ciclos de serenidad ven cuando la tormenta pase… saber leer la sucesión de las olas me hace consciente pero no convierte menos intensas las sensaciones. sin embargo, los sentimientos no son un reflejo del mundo, pero de yo mismo y soy parte del mundo... entonces lo que siento es también una perforación de la unidad cósmica o una fracción del entero... hoy estoy en transición de uno estado para otro. el amanecer parece suave, ya que una línea recta del electrocardiograma... una pausa, uno suspiro, uno gozo…
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
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queria poder negar toda e qualquer metafísica, mas uma flor, um sorriso, uma mensagem, extrapolam a carne. hoje tive um dia ruim. ressaca de feriado bom, prostrada em lençois de chuvas e películas. difícil acabar a tarde. entro num sebo ao meio dia, para encantar o dia feio. caminho direto na direção de uma certa estante e colho um livro qualquer, de olhos fechados, como quem elege um amigo oculto. Herman Hesse, Caminhada, pula em minhas mãos. sorrio, óbvio. me lembro de guarapari e os encontros súbitos, bons, nas estantes com cheiro de poeira e mofo. o cheiro das páginas amarelas, as traças que as habitam, as cartas nelas esquecidas, os velhinhos exóticos que as guardam.... morrerei amando percorrer as estantes de literatura e filosofia... e achar, sempre achar, uma nova obra de hesse (quantos livros terá ele publicado?), marguerite (amada, amiga, fiel escritora das minhas cavernas - compro tudo o que acho dela, mesmo aquelas obras já companheiras das minhas gavetas, para presentear amigos, um belo presente sempre). enquanto percorro a fila do elevador, uma oração: Caminhada - dirão que blasfemo!, perdoem-me, hoje estou assim, querendo acreditar que toda a música e toda a poesia, e o vinho nosso de cada dia; essa melancolia que faz do meu corpo sua moradia constante, já ali presente e mesmo agora, com um amor-menino, mesmo agora... este nó no peito... não sei o que fazer com tanta luz e essa infinita magia que nasce, cresce e morre em cada dia, em cada árvore, em cada lua, em cada mendigo nas esquinas, acrobata dos sinais, menino morto nos guetos. não sei o que fazer com as dezenas de reuniões. enquanto um céu azul convida mais de mim e de ti na chuva, nos becos, nas escadarias e desertos da madrugada. que haja tempo para os reencontros, as novas vivências, o degustar de todas as cores e a ausência delas, o mundo em sépia, em preto em branco, molhado e seco. não sei o que fazer com todo o afeto hospedeiro dos corpos que nos circundam. não sei entender a miséria, a desigualdade e o ódio. a vida me assusta em sua mágica cotidiana. e o nó aperta o peito. como numa máquina registradora, tento reter os dias em letras, signos proféticos que me elegeram. mesmo as dores, tento reter. páginas virtuais de tumultos, que me concebem e encerram. não sei ser de outra forma. tumulto leve e calmo. cheiro de café. já passa da meia noite, mas a mente não quer se fazer dormir. tem dia que a madrugada, com esse céu apocalíptico, cinza e nublado, me elege como deusa - impossível fechar os olhos: sou guardiã da noite.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Quando morre, é duro e insensível
(Stalker, filme de Tarkovsky)
sábado, 5 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
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Soneto de amor imperfeito ou
O que terá sido feito do amor
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Depois de tantos passos percorridos
De ti distante em tempos e espaços
Hei de confessar faltar abraços
Onde possam os afetos ser derretidos
É um acalanto lembrar-me que tive
Os teus braços, o teu canto
E já não há lugar de pranto
- nada levar, nada deixar de onde estive
Nenhuma lembrança, nenhuma esperança
Nada cabe como herança
Deste amor que projetei.
Nem alma, nem canto, nem beijos
Deste amor devolverei
Pois deles serão feitos os versos
que porventura inda criarei.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
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a garganta arranha
= a palavra não dita vira pus.
um menino pode morrer,
dois meninos também podem,
mas um elefante incomoda muita gente.
o silêncio reza uma ladainha por mais silêncio
e os olhos do outro são o seu próprio,
se te olham quando você os vê.
os olhos do outro lado da linha,
a palavra calvário,
a palavra bomba,
a palavra mórbida
- a palavra tem o dom da seca,
a palavra poder.
por isso o silêncio reza uma ladainha.
enquanto os homens exercem seus podres poderes,
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sábado, 28 de novembro de 2009
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se algum dia você qualquer coisa assim
um movimento, um verbo, uma valsa,
uma palavra errada,
quase nada
qualquer coisa,
se algum dia você assim,
Hein?
nenhuma importância para a polis, etc e tal (?)
o futuro do mundo, a preservação do planeta, a floresta amazônica... (mentira!)
não é você quem vem, nem sou eu quem vai,
são os ponteiros que não cessam de correr, nem as estrelas de cair
- uma acaba de tombar do caos, obscena. (menos luz para o infinito)
o sono começa a embaralhar toda a órbita
e amanhã talvez já não exista tempo.
(será tão difícil entender?)
o trânsito silencia no meio da zero hora – por favor,
não diga mais nunca mais nada. dor de cabeça. hora do chá.
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temo a falta de linguagem,
o silêncio mudo.
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não temo o silêncio ruptura,
o silêncio olhar,.
o silêncio solidão.
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as palavras,
melhor tê-las como âncoras,
não como verdades.
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na noite,
ditas ao sabor do vinho,
docemente pervertem,
corrompem.
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se guardadas na pupila,
apenas,
potencialidades...
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sábado, 21 de novembro de 2009
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terá sido você? ou terei sido eu?
e quem dentre nós sobreviverá à amendoeira?
sinto saudade de viver no mar
eu, que não o vi nascer neste amanhecer.
tudo, além disso, tudo o que não coube e
talvez nunca caberá
me esvazia
sou assim mesmo, tumultuada,
às vezes verena,
às vezes inverno,
tal qual esta música de caetano,
que aperta o peito, arde, fere
apressa o dia de amanhã
e lembra qualquer coisa
que poderia ter sido
não foi e nunca será
e mesmo o que não será,
por ter sido foi é e
nunca mais nunca mais jamais.
tudo isso me enche de melancolia
oh, quão lindo, amor, a madrugada!
o mundo ora me encerra,
ora me esconde, ora me clarice,
ora me canoas, ora me alagoas,
sempre me virginia, sempre me emanuela.
não consigo compor um samba, nem uma bossa,
tenho mais o que fazer.
desculpe a correria,
mas antes de amanhã ainda é 22. 32.
eu só queria amor, amor e mais nada
(não, não... são os versos de caetano)
o piano está quieto, no canto esquerdo
não sei bem o que querer, salve jorge!
meu coração trincou,
não, eu não creio n’alma,
só na melancolia.
não reze por mim*
cante uma cantiga, toque uma melodia,
*mainha rezou uma missa
pra ver se me salva`lma
me deixe passar pelos dias, pelo mundo,
pelo cansaço das horas
- eu não sei amar direito, só amo torto,
só amo torto.
enquanto você aí,
de longe, me observa.
não quero linha reta,
- teias, uma mulher é sempre uma mulher,
assim como existe o escuro.
comecei o dia lendo pessoa,
ele nunca me consola, mais me desterra e
um dia acordo com os pés no teto,
mas você, não sei o que dizer
não sei, terra do nunca.
há um crescendo ao redor da rosa. fique.
o escritório está deserto.
drummond não mais trabalha nele.
só eu na burocracia,
até que a eternidade me hospede,
ou antes disso, uma película me alcance
(talvez eu venda sanduíche)
não tenha pena de mim, me dê asas
porque não cabe mais felicidade no mundo.
saudade de comer farinha
tudo o que der pra trazer, põe na mala
– carne seca também é bom
e uma idéia na cabeça.
drume negrita, drume
até mais tarde
[feliz completaños, f.]
não há trânsito na cama, desencana,
não tem funk na bahia.
sou preguiçosa,
debaixo do meu cobertor de lã,
mas hoje tá calor,
vou despir o verbo e adormecer.
antes, escovar os dentes!
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!
Juan Ramón Jiménez
domingo, 15 de novembro de 2009
reifico a idéia da madrugada e ela toma a forma de tempo. mas tempo não é matéria, é também invento. o tempo está do lado de lá do pingüim. gosto do pingüim encarnando o piegas e quebrando o gelo de uma geladeira politicamente correta, com imãs de gandhi e glauber. política e cinema são uma coisa só. dentro, alguns ovos e goiabada. as polpas estão congeladas, o que produzirá um suco cremoso. mas um escritor, digníssimo cortázar, deveria sofrer o privilégio de uma imaginação nas encruzilhadas lunares? não ouso uma volta ao caos em 80 verbos. essa nossa cumplicidade, meu caro leitor, é constrangedora! pois fique sabendo que não escrevo para que me compreendas, escrevo para que me hospede! falta casa pra abrigar meus espinhos e nem esta geladeira, com chaplin de bengala, me pertence. mesmo o lote que comprei, a prefeitura se nega a assinar. ó infinita grandeza, há túmulo depois da metafísica? raskólnikof, responda! o ser e o tempo o ser fora do tempo o ser nada sem o tempo. em novembro o tempo chega nos meus anos e faz-me percorrer os algarismos. numa fração qualquer de futuro só existirá a Pergunta Fundamental, o que requererá o guia dos mochileiros das galáxias. mas enquanto esta brisa da janela insiste em apalpar minha tez, permaneço mulher de balzac. às suas costas um paredão de cegos avista e avança. para eles, o instituto dos cegos. para você a glória. ok, ok, não digo coisa com coisa, já sei, já sei, mas desde que o verbo fez-se carne, não resta muito mais a fazer, apenas brincar de escorregador. meus companheiros hastearam bandeira. mas ela não é mais vermelha. e cantaram o hino nacional. veja bem meu bem: o brasil é bric!
sábado, 7 de novembro de 2009
acabo de descobrir e deliciar-me com a poesia sonora de Hilda Hist, por Zeca, na voz de Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria. Belíssimo, issimo, issimo, issimo...
http://www.youtube.com/watch?v=8fWgQK-h2Ew
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
"Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego - às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles. Ah, você participa com palavras? Sua escrita - por hipótese - transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação. Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel. E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando... Então hoje não tem crônica."
domingo, 1 de novembro de 2009
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
a voz de drummond
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
cinema
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
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A moça observa o bar. Está na mesa com alguns amigos, olha ao redor, conhece poucas pessoas ali, como bem poucas em qualquer lugar do planeta. Pensa nas suas relações, na sua intimidade com os outros, sabe-se só. Relaciona-se de forma superficial com as pessoas, poucas entram nela; é um ser estranho no mundo, gosta mais da solidão, uma opção pelos livros - tem gente que veio ao mundo para viver, outros vieram para ler, pensa. Esta pouca disposição vem também da dificuldade em encontrar palavras, talvez o hábito de escrever tenha lhe condicionado a certa dificuldade em escolhê-las, por entender difícil dizê-las, por entendê-las tantas vezes inadequadas, inexatas, inexpressivas, por não querer banalizá-las, por querer guardá-las; acha as conversas superficiais e egocêntricas, se indispõe facilmente num diálogo por sentir deparar-se com limites e vaidades de entendimento; pensa que somente conversas despretensiosas são válidas, assim, prefere o silêncio, prefere o percurso solitário às pontes que conduzem às prisões; por isso tem e alimenta poucas relações, por isso sabe-se e gosta de sentir-se arredia, pouco percebida; assim escuta, grava e guarda os acontecimentos com o distanciamento necessário para uma percepção que, se jamais neutra, um pouco menos integrada à sua pele. Sente haver uma redoma entre si e o mundo, poucos são os acontecimentos que a absorvem e a derretem, poucas são as pessoas com a capacidade de fazê-la dissolver. Mas olha o bar, olha o homem e pensa querer um pouco disso agora, um pouco de pertencimento, um pouco de entrega despretensiosa, um pouco de alienação de si no mundo, no outro. Há certo instante da noite eles se integram à mesma mesa, compartilhando amigos. A mesa entre eles, muro horizontal, impõe uma distância plana, um rio emadeirado que permite, contudo, ao olhar navegar pelo espaço invisível e desabrochar-se em travessia. Existem terceiros ao redor, mas os dois têm o olhar do outro. E aos poucos surgem os primeiros grunhidos na busca da firmação de uma língua.
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009
transparência, talvez?
escondida no verbo
ou ela mesma verbo?
(ela = eu + v ou v = eu + c)
v=verbo, c=carne
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PRIMEIRA POESIA – XOTE DA PALAVRA
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Um bom tempo se perdeu
até que retornasse aqui,
como se houvesse rompido cosigo
negando o que pode existir de bom em si.
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Um bom tempo
um bom tempo se perdeu
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agora uma salsa preenche de musica o que escreve
mariposa de lindos colores
e uma tela de luz branca – olho de frente aos seus olhos
se estende como um tapete persa às suas mãos.
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Enquanto seus pés dançam salsa
suas mãos desfilam com o vermelho estendido aos dedos
sangrando de negro a folha branca.
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Enquanto seus pés dançam e desfilam
pés que não são pés
são mãos
são mãos,
como são dedos,
como são palavras
caminando por las calles
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poesia 2. DO ENTENDIMENTO
Entendo
que a poesia,
poesia poesia poesia
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POESIA 3. DO DESENTENDIMENTO
- ele te deixou.
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o mundo passou rodopiando, quase estrebuchou. é preciso que não o habitemos para que ele sobreviva? o mundo ou nós, nós em parte dele, o fim de nós ou fim do mundo. e daniela do edifício máster? me pergunto o mundo, o mundo, o que faz d’ela, em seu quarto em copacabana? copacabana, bacana, mas nós do edifício máster... copacabana dos corredores escuros.
.quinta-feira, 8 de outubro de 2009
“Donne dizia que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere ao patíbulo, e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: depertar o homem que viaja rumo ao patíbulo.” (Ernesto Sábato)
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“Seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressa-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscar até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo, e jamais se contentar com o aproximativo, nem jamais recorrer a fraudes, mesmo felizes, a palhaçadas de linguagem para evitar a dificuldade.” (Maupassant)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009

morre mercedes. e um pedaço de mim chora. e outra parte canta. desde quando sua voz pela primeira vez me arrebatou, ela vive em mim. me acompanha desde a adolescência, expressando em melodia minhas angústias de militante em movimentos políticos e sociais. ouvi-la, desde sempre, já era vivenciar a utopia, como se sua voz não cantasse um lugar no futuro - ouvir sua voz já é vivenciar o horizonte. quando estive com os pés em Machu Picchu, la cigarra tocou em meus ouvidos com o olhar perdido no vale de montanhas, e ouvi-la dentro de mim, ali, fez-me reviver o massacre dos incas, mas além, um canto oníssono de toda latinidade, de forma atemporal. tornei-me um pouco niilista com a militância, mas um pouquinho mais sensível à música - minha paixão pela luta que ela convoca, cantando a poesia de poetas e poetisas espalhados pelas terras deste lado de cá das américas, segue sempre como um batismo novo. nunca me canso de ouvi-la, mercedes. você é parte de mim. abaixo, cancion con todos, letra de Tejada Gomes, que me faz chorar muitas vezes, ao vê-la cantar. salve, salve, salve, querida mercedes, amada mercedes, companheira mercedes... um soluço no mundo, em saudação à sua partida. não acredito em paraíso, mas no fato de ter você contribuído de forma viceral para fazer-nos um pouco melhores, mais próximos ao projeto de humanidade. então é aqui, entre nós, que viverá para sempre, entre os imortais.
www.youtube.com/watch?v=icrCSlBGkl0
Salgo a caminar
por la cintura cósmica del sur,
piso en la región,
mas vegetal del viento y de la luz;
siento al caminar
toda la piel de América en mi piel
y anda en mi sangre un río
que libera en mi voz su caudal.
Sol de Alto Perú,
rostro, Bolivia, estaño y soledad,
un verde Brasil,
besa mi Chile, cobre y mineral;
subo desde el sur
hacia la entraña América y total,
pura raíz de un grito
destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces todas,
todas las manos todas,
toda la sangre puede
ser canción en el viento;
canta conmigo canta,
hermano americano,
libera tu esperanza
con un grito en la voz.
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domingo, 4 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
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ver se vê nos poros
não nos olhos
que os poros são mais postos
a sentidos
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um corpo vazio
ocupa um lugar
o lugar do ar
o lugar da água
o lugar do horizonte
a dor é um lugar
sombrio
vazio
e cheio de ar
dá para respirar
o ar vazio de um corpo
está cheio de horizonte
aquilo que no ar ocupa um lugar,
aquilo,
a dor,
está cheio de vazio
o vazio ocupa o lugar do ar.
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o rio leva
o galho, o rio leva
a folha, o rio leva
o bicho, o rio leva
tudo que é leve, leva, leva
a nuvem, o rio leva?
a água - da chuva, da fonte, do balde, do cuspe, da lágrima, do gozo
o rio leva ou já é rio a água que não era e lá caiu?
chia brando um chhhiado de chuva
chama o sono, chama o canto
chama chanchã, chama, chama
o rio que chama e que leva, quando passa, passa?
o rio que passa, se é que passa
embora sempre sempre
leve a nuvem, leve o galho, leve a folha, leve o cuspe, leve o leve,
o rio doce até à foz,
quando fica salgado, deixa de ser rio?
E em qual gota terá deixado de ser doce, o rio?
o rio que se foi deixando,
se deitando
se deitando
se deixando a(o) mar
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
o sonho de ser literatura, de viver literatura, de respirar literatura e de a partir da literatura criar um novo mundo, de amores e utopias, faz refletir o que há de humano no cosmo, as frustrações sentidas e dissipadas no ar e no outro [uma camada de gazes circunda a existência e aos poucos dissipa todo o oxigênio das marés] enquanto ainda essas palavras tocam uma meia dúzia de eus, divago só, ou em forma de dois, desta pequena montanha de tijolos disposta como habitat para alguns quilos de idéias e projetos que são arquitetatos, rabiscados e compartilhados a partir de fios imaginários que cruzam os ares, para ir te encontrar aí, em outro qualquer ponto da circunferência enquanto o silêncio persiste em ser a nossa forma máxima de comunicação. tudo o que é escrito é ponte e deste percurso, um rio cruza em octogonal. mas há lembrança para além do silêncio. a memória finda cada átomo de ser e difine o corpo, o gesto, o suspiro e este olhar lacrimejado com gosto de mar. amar é bom, mas dói. viver é bom, mas dói. morrer dói. mas é bom? o que melhor define o momento em que seu peito se descobriu nu e só? paronomásia? eu que passo, penso e peço? ordenamento de estética? edificação de um novo eu? paisagismo eletromagnético? não: só o estado das cousas. ou um cão que ama trens. você é um ser que acredita no amor na justiça e no inferno? você consegue se ver sem deus? você se dispõe à solidão? está exausto ou ama muito tudo isso? mas não há com que se preocupar: cavaleiros teutônicos virão te salvar! não há velho, não há novo, a mesma repetição de sistemas. mas existe a literatura. todas as paredes estão em branco, para serem escritas. a tinta secou, mas há sangue em todas as extremidades dos membros dos mamíferos! não somos equídeos nem rinocerontes - temos cinco dedos, então avante! faça sangrar seu poema em vermelho. ou não.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
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Da noite sobraram reflexos inteiros. Lembro-me que toquei seus cabelos em um certo momento ainda na rua. Os seus cabelos, para mim, tanto quanto os meus, para ele, foram desde sempre determinantes, esta atração pelos corpos que tolamente fantasiamos, que tolamente enfeitamos, este primeiro impulso pelo território do outro. Os cabelos pareceram-me sempre panos que enfeitam, talvez por isso mais tarde quiz minha nuca vazia, queria desde logo, ao perceber o quanto os meus me escondiam, despir-me.
Seguimos por ruas desertas que uivavam, em certo momento ele abrigou meus braços, silencioso por longos passos, não havia muito que dizer, os seus amigos cantavam baixinho, eu tentava me integrar, desajeitada, acabei percebendo esta característica quase intrínseca e não uma reação momentânea. Eles seguiam por uma rua extensa, não sabia onde pretendiam ir e a cada passo meu batimento cardíaco aproximava-se ao pulo de um bicho em perigo, era necessário retornar, disse isso, ele sequer ponderou, gritou um tchau aos amigos e viramos os corpos para recuar pelo mesmo caminho, sem que houvesse qualquer reação daqueles que continuaram seu canto.
Agora os pés eram quatro, olhávamos para eles como equilibristas que dependem do outro para seguir pelos ares. Sorriu, o que você está pensando, perguntou, respondi ser aquela a pergunta mais tola que alguém poderia fazer-me, ele disse que não, que era importante para ele entender o que se passava comigo, que tudo o mais dependia dos meus pensamentos, disse que pensava se ele não sentia frio nos pés. Ele parou, olhou-me, disse sim, sentia, nem percebera, num impulso sentou-se no chão e retirou da mochila uma meia que vestiu fazendo-me rir e nunca me esqueci o ridículo daquelas meias amarelo-ovo pulando para fora de suas sapatilhas trançadas.
Sentei-me à sua frente, ali mesmo, no passeio deserto da madrugada, ele retirou da mochila uma manta vermelha com estampa quadriculada me fazendo lembrar os meus vestidos de são-joão, colocou sobre os meus ombros. Pegou também um cigarro, acendeu e o tragou de forma tão intensa com os olhos fechados que me fizeram curiosa por experimentar o êxtase de quando os abriu novamente, voltando sei lá de qual paraíso. Tornei-me uma fumante compulsiva desde então, sem nunca ter conseguido encontrar aquele lugar que ele percorria sempre em sua primeira tragada.
Foi neste momento que toquei seus cabelos, quando ele abriu os olhos e os teve longamente em mim, à minha frente, em silêncio. Percebi-me molhada, foi esta a sensação que mais me surpreendeu ali, meu corpo inteiro molhado, queria beijá-lo, mas me contive com um toque em seus cabelos. Ele trouxe uma boca semi aberta vista por mim até o momento em que já se distorcia pela proximidade, fechei as pálpebras e senti seus lábios úmidos, cheios de saliva. Pela primeira vez uma boca vinha abrigar-se na minha, possuía uma língua morna, macia, deixei-me conduzir por ele até o momento em que se retirou para percorrer cada fatia da minha face, eu me sentia estriada, carne moída que despencava em pedaços, queria apenas um lugar fechado para derreter-me em paz. Pedi a ele, venha comigo.
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domingo, 20 de setembro de 2009

dia de ir embora, ele a leva nos eucaliptos. têm apenas quinze minutos. caminham pelo bosque. ele diz num suspiro que é melhor não se tocarem. está parada de frente a ele e espera algum som novo, enquanto tenta entender o estranhamento da noite. talvez esteja acostumada a um só corpo, talvez sinta-se culpada por estar ali, talvez não sinta reciprocidade para deixar-se conduzir, talvez, mas não compartilha as dúvidas, apenas o quer abraçar. o que ele dizia para além do dito? qual sentido tirar das pedras? caminham por entre troncos. ela tenta respirar, está confusa, mas não pensa como ele. dá um tempo. olha para o alto e respira o cheiro dos eucaliptos, o sol entra até ofuscar a visão. não quer pensar, quer sentir. andam rumo a lugar nenhum. à vista, centenas de traços longos de troncos em tons de terra se estendem numa vasta dimensão, bosque de haya, de Klimt. no chão, imensas formigas carregam cones. folhas formam tapetes, algumas caem lentamente, secas de existir. há silêncio bom entre o diálogo deles. tempo de cada um se voltar a si. "mas entenda que eu não vim aqui para te reter. vim para alçar vôo. não exijo definições". faltam elementos - ainda não se conhecem. ainda não sabem apreender o não dito do dito. ainda precisam de sinais exatos para que compreendam, mas eles não sabem sê-lo ou não querem sê-lo. palavras vagas, cifradas, infladas, cantadas, como os corpos que dançam livres no mundo. sim, houve estranhamento. pensa na construção enganosa do seu imaginário. agora é necessário pisar a terra e descer do céu, reter-se ao tronco para não voar. ele a abraça por trás, como fez no dia anterior e solta letras pelos ouvidos, nela, que descem feito neblina molhando a grama sedenta do peito. de olhos fechados, sente as mãos balançarem, tal qual as árvores. falta música para tanto vento. mesmo o sol compareceu, mas falta. o mundo inteiro cabe no tamanho de um eucalipto. tudo se reduz ao eucalipto. ele a conduz ao eucalipto. voltam ao carro, ele brinca no volante, vagarosamente conduz o veículo em zigzags por entre as árvores. parece um cavaleiro errante. falta ar no mundo para respirar. ad eterno.
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domingo, 13 de setembro de 2009
"Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Estou limitado ao norte pelos sentidos,
ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo,
a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando,
sou um fluído,
depois chego à consciência da terra,
ando como os outros,
me pregam numa cruz,
numa única vida. Colégio.
Indignado, me chamam pelo número.
Detesto hierarquia.
Me usaram o rótulo de homem, vou rindo,
vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui,
estou ali, desarticulado,
Gosto de todos, não gosto de ninguém,
batalho com os espíritos do ar,
Alguém da terra me faz sinais,
não sei mais o que é bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía,
estou suspenso, angustiado, no éter,




