sábado, 16 de julho de 2016


quem mandou você acontecer?

a minha escrita rasga o que vivo. desabotoa e grita.
dá sentido e mata o sentido.
é antes e depois.

uma hora vai cessar
mas você vê
tão bonito de lá
que me esqueço de parar
e prossigo

até te encontrar aqui
e me deixar aqui.

você aparece e escancara
o que já não tem mais jeito:
não tenho mesmo cura,
sou reflexo do que te leio,

cíclica, e em espiral.
abismo e labirinto.

você fala como quem tem visão e
o que vem antes de antes
de aparecer você?

queria ter algo seu pra ler.
na cama,
um caminhar sobre montanhas.
você me deixa grande
assim.

domingo, 8 de novembro de 2015

--> ESTE DESCONFORTO, Zé, de te saber longe tem hora que pesa mais do que pouco tem hora que se estica pro norte, procissão pras colheitas, penitência de chuvas. mas o tempo some quando o vício de querer despenca a dor – fico grande na sua boca. te tiro de ouvido. te rasgo em olhar. de quente me firo. você sabe o quanto cresceu de água em meu corpo desde a sua nascença? num era eu n’outro dia – era você-em-mim, querendo viver. não se cansa nunca, amor?, vem deitar. (aprendi a dormir respirando você) tudo morreu três quadrados quando suspendi o braço em adeus. no cosmo mais uma estrela jorra morta pra milênios de luz. empresta ao meu corpo sua rede, deixa eu dormir na tua boca? nunca mais tive sombra, tua falta esse desmantelo de sol. saí do meu campo claustro e me prostro gentil dentre suas coxas - consigo ser mais do que puta! bobagem. me lambe a boca, me impede pensar. Zé, apaga esse diabo de luz, vem deitar. sumiste há algumas eras mas vou te encontrar. agora esses pensamentos fora do corpo e sem salvação. no músculo ainda se veste um resto querer. nos dedos buracos. haverá tempo pra isso no mundo? o que pensa minha mãe oxum disso tudo? um desvario atravessa o ventre comedido prostrado. eu sou negra índia perdida nesse resto caatinga. você nada disse e eu fúria, em silêncio fiquei. só soube depois. os teus cheiros ainda me ofuscam. ontem senti sua falta na janta. comi só e à luz de vela, para me duplicar em sombra, neste apartamento cheio de fantasma e gemido. nossos corpos ainda uivam em ondas pela eternidade. quando te conheci um rio corria embaixo de nós. entorpecimento nos pés. ninguém passava ao largo escuro. havia uma ponte. e agora esse horizonte de concreto e cinza sem fim no céu e no seu fitar. e eu pensava que era preciso mas já agora não posso voltar. havia dor no mundo e inda agora e amanhã haverá. tento explicar, não consigo. quando você virá? a rede está vazia na sala. Zé, vem deitar.

quarta-feira, 1 de julho de 2015



há justa distância
ou ajustar a distância
entre olhos que se querem ver?


acolher de forma inventiva
este quadro aberto
em que um corpo
se lança n'outro
para em um movimento seguinte,
próprio ao ato de existir,
serem tornados hóspedes
de novas paisagens.


os afetos não se fecham em dispositivos.

não se trata de um plano delineado,
mas um tornar-se a partir da alteridade.


sentido transitivo e impessoal
deste ritual
instaurado
entre-corpos.


linhas in(di)visíveis de um território
sem
front eiras.





terça-feira, 23 de junho de 2015

minha nova casa




Há algum tempo este formato de blog já não comporta os múltiplos vôos.
Então resolvi criar uma página onde pudesse espelhar em um só lugar um pouco de quase tudo.
Acho que não chego a deletar esta casa, por puro afeto... e há textos aqui que não guardei em outros cantos. Mas te convido a fazer pouso também por lá...!

Para conhecer, clique aqui.






quinta-feira, 11 de junho de 2015

Não tem remédio



Se em cada canto de encontro
tecia um buraco sem fundo,
pensava um elo além deste poço,
mas não. Cada qual no seu mundo.

A noite é sempre essa imensidão
e o tempo exíguo do revés
não atenua essa vastidão.
Marés.

Nem por isso o que se pretende dito dita
silêncio. Ser tao é maior que a fome -
Terra em Transe, Raso de Catarina.
Pretexto sem fim era seu nome.

Se é distância que pede, toma
- sua palavra final, seu guia.

Nesta soma: nadou de sobra afasia
e se ausentou (desde quando?) Magia.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Fuga inautêntica



É claro que nenhuma mulher
pode pretender sem convalescer
estar em um lugar  além mar
além ser  do seu sexo.

Ela pode ser ou não ser transcendente,
dirigir navios, atravessar continentes
considerar um se depois de si
sem ser tomada como um Outro
imanente?

Em se opondo
é que se põe
em ser

sábado, 7 de fevereiro de 2015


o seu silêncio
diz. a minha palavra
está de passagem.

nem há tudo
que sirva mais do que
um pouco reter.

quando inda te tenho
com o corpo cravado
em mim,
te deixo partir.

o seu talvez
cega.

ou sou em mesma brasa
que se auto-inflama
incapaz de uma tal vez
em rubras chamas?

vou-me embora pra Pasárgada.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015


o imaginário carrega lama
na sola dos sapatos.

passo a vez,
passo ao largo,
passo fundo.

superfícies quase táteis corroídas feito aço
por sonhos de quem não sabe dar uma volta
sequer, sem tropeçar em pássaros.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

uma odisséia no espaço

os dias encharcados de verão e asfalto
na frivolidade e leveza
de quem acaba de chegar do mar
e inda soletra verbos molhados de sal.

mesmo quente, tempo nublado

desde um quando breve. o guerrilheiro partiu
levando consigo outubro e primavera
deixando ao largo, em febril
espera: o amor sabe ser rude.

estou mais esquiva do que antes,

mas, estirada na quermesse do seu braço,
quanto mais em tua carne me apego,
mais ardente e etéreo é o desejo.

minha tv em off,

atentado violento ao pudor. 
Je suis or not Je suis,
                eis a questão.

2 de fevereiro

jogarei preces a yemanjá
enquanto um deus e outro
segue sendo morto
mundo afora.
voltei a acreditar em um deus. menor.
em deuses pretos, orixás
e os que vem de longe no tempo,
ancestrais primevos e de origem hindu.

nenhum ritual ou abstração
deixa, contudo, esvair dos poros a luta.

a dor por pão não se esquiva.

novos junhos virão obstinados
por vândalos encapuzados
à espreita de promontórios 
de sonhos de liberdade.

o amor mais acende

o vermelho em mim

esse ano é de levante

e desapego. 

se te assalto
é porque te demoras,
              pássaro esquivo.

domingo, 28 de dezembro de 2014

2014



O que pende de maduro é fruto?
Palavra caída de árvore
rasga buraco profundo
no chão.

A vida segue e quem se lembra?
frase não, língua talvez,
verbo do mar de tao.

Morre o calor do colo da mãe,
morre o verso melhor de um amigo
e a alma de quem, é livro?

O que quis dizer, disse.
No amor ou no rancor,
não na lei.

O tempo passou
e eu estou. 

namastê. meu silêncio é sim.






veias abertas


 

a cabeça dói. pulsação forte do lado direito do cérebro, náusea, cegueira e sede. ir ao médico, pedir exames, olhar aérea ao desenho da tv da cadeira fria do hospital sem cor. o hospital, corredor de nostalgia. a voz do pai se perdeu numa sala de cirurgia. o caroço da mãe sugado numa longa tarde de espera. de volta ao quarto, ainda dopada, solta desconjunturas de uma mente insana - a loucura deve ser assim. sentada na poltrona, inventar histórias aos personagens que aguardam a sua vez. uma moça vê figurinhas. seria a mulher ali, se não estivesse aqui, presa neste coração estranho. tentar fraudar o horário de visita e permanecer ao lado do leito da mãe. dormir retorcida num encosto de aço gelado ao lado direito do lençol branco que tem o corpo do pai. o irmão, quando de mandíbula quebrada, geme de dor e insinua carência e medo. a doença cala. as projeções perdem o sentido e a falta de sentido consola e torna mais bonita a cidade cheia de pequenas luzes e o imenso breu que se vê da janela do hospital luxemburgo. o  poeta Cançado, inventor de drummond, de vestido longo e branco, empurra um suporte de soro e puxa uma prosa, personagem encontrado em uma dessas caminhadas por um desses longos corredores cinzas de espera. não parece doente. diz-se acostumado. trocou de coração, agora luta para que este aceite o novo lar. recusa, luta, estranha. o poeta faz poesia da dor. entende agora a importância do sus. traz pra rima palavras grandes e frias. eletrocardiograma. viver é de uma magia estranha. quem sabe o que trouxe cada um praqui? o hospital deixa cicatrizes. é um espaço de suspensão. fratura. um péssimo lugar que inventaram para curar a dor. chegar em casa, tirar a roupa, tomar um banho quente, deitar na cama com cobertor limpinho e cheiro da gente, dormir por longas horas. o corredor comprova a verdade contida nos pequenos prazeres. teve também a vó. como se esquecer da vó? seu beijo de despedida? seu corpo inchado querendo fazer xixi. sua vergonha de estar assim submetida ao outro, ela que durante toda a vida, até aos noventa anos fora independente e ativa. de todos que levaram a mulher ao imenso corredor, só a vó partiu. mentira. partiu o avô, que confessou a ela, deitado numa cama, ter perdido o gosto de viver. partiu a mãe, que confessou a ela, inúmeras vezes, ter perdido o gosto de viver. partiu papalo. que confessou a ela o mesmo gosto perdido. de viver. agora outro primo ontem ela fora visitar. novo corredor a colecionar. tiro perdido acertado no pescoço. entrou e saiu. o deixou com vida. a vida, esse estranho corredor. as dores e os momentos de náusea são intransferíveis, intransponíveis. incógnitas. a cabeça dói. a água ameniza. a amizade acalma. mãe e pai aquecem. irmão abriga. uma película suspende. o amor consola e deus também. um bom livro faz dormir e acordar. hoje. no ano novo e em quantos dias mais haverão p'ra frente e p'ra trás nesta tabuada nonsense ∞



sábado, 27 de dezembro de 2014


hoje faz um mês da sua passagem...
e nem sei se acredito ainda que te tenha perdido,
mesmo o tendo mirado deitado, com os olhos cerrados,
num jardim.


muitos sinais de despedidas vieram de ti
e eu a brincar de acreditar
e esperar,
como quem ingenuamente ignora o que não quer ver,
que pudéssemos ainda até o envelhecer
nos fitar.

você antes disso seguiu como um vulto
um vento um guerreiro austero e sem tempo
em seu dragão selado de altivo julgo.

à revelia dos deuses e de nós,
como um salteio de águas que jorram no ermo:
black out. o dado do vir-à-ser.

fez do viver, passo por passo, vã despedida.
Agora relendo seus versos é dado:
cada palavra uma elegia, sintonia pátria
com o devir.

http://www.paulotigo.blogspot.com.br