sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desierto Adentro


"De Rodrigo Plá, o mesmo realizador de Novia mía (1996); El ojo en la nuca (2001); La zona (2007) temos Desierto Adentro, um filme polémico que marca o regresso do mexicano às salas de cinema. Desierto Adentro é um filme que demorou quatro anos a produzir e foi filmado em 16 milímetros, o que lhe deu um realismo absoluto e incontestável. Rodrigo Plá é um nome que tem recebido o apoio da crítica internacional desde La Zona. E com Desierto Adentro arrecadou sete prémios no Festival Internacional de cinema em Guadalajara, incluindo melhor filme, melhor fotografia, melhor actor e melhor argumento. O filme é dividido em quatro capítulos narrados por Aureliano, o filho mais novo, sendo a narrativa intercalada e embelezada por pinturas em óleo sobre vidro. É a história de uma família predestinada a morrer por um pecado que o seu pai cometeu, esta película é ambientada nos anos 20 e 30, tendo a guerra cristã do México como pano de fundo. Plá faz-nos refletir acerca da transformação de um homem cuja obsessão por obter o perdão divino o faz perder o elo com a realidade, condenando os seus próprios filhos ao mais profundo isolamento. O filme não se cinge apenas ao fanatismo religioso, mas invoca um espelho de outro tipo fanático, como uma ideia que se destaca como a única razão de viver. Acontece isso com o pai desta família, que encontra o caminho da verdade isolando os seus entes do mundo, na morte e em Deus. Desierto Adentro é uma história dramática e profunda, acerca do conceito de fé e até onde esta nos pode levar, pondo em «check» as crenças e fanatismos por todo o mundo. Catastrófico, profundo e perturbante."
(texto colhido em http://uploadeventos.com/?p=2285)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

terça feira é carnaval

co ao
um jovem andarilho vive em solidão. não lê jornal. não sabe e não quer saber quantos foram os mortos nas enchetes de são paulo. o que é possível extrair dele e do seu silêncio e do seu percurso sobre trilhas de terra batida que o levam para um carnaval deserto? quem poderá ultrapassar seu caminho? quem poderá cruzar seus passos? quem poderá seguir por algum tempo ao seu lado? no fim, ou no começo, quando uma pequena vila se abre, há uma ponte. há um rio. nenhum homem adentra por duas vezes o mesmo rio, mas as lembranças sim, podem estar ali mergulhadas em águas, transparentes. niilismo, cinismo ou resignação, o que o faz caminhar? a sua trajetória será uma errância necessária, obrigatória ou portas a se abrir e a se fechar? ele vaga. ele acampa. ele cozinha seus alimentos tirando fogo do roçar das pedras. deseja uma moça. deseja outra, mas se fecha na cabana antes do pôr do sol. não bebe. não fuma. não toma banho na cachoeira, apenas a encara. no dia seguinte à sua chegada, uma marchinha de carnaval circula a única praça da pequena vila, com um punhado de gente, como num conto feliz. breves encontros. nunhuma esperança. o amor é algo natural? quem precisa de verdades? quem precisa de felicidades? a simplicidade do povo, a simplicidade da vila, a simplicidade do boteco de adobe, esta simplicidade pode ser mais do que um doce de jenipapo, um veneno para quem já não está acostumado com as pequenas delícias e nem sequer pensava ser ainda possível extrair mel desta sua seca flor.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

(museu da américa latina, sp)
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quando vem o cansaço e a saudade de casa...
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010


(klimt)

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só para loucos!,

(como o tratado do lobo da estepe)


fade in.

a luz do corredor está acesa, barulho de chuveiro e concentração de ar quente saindo do banheiro marcam passagem do tempo. ele sai do banheiro. voz em off: “ e diz preocupar-se com o mundo, quer que todo mundo pense bem de você, que todo mundo pense oh, ele é bacana, é inteligente, é politikamentecorreto!” corta para quarto, ele entra no quarto, bagunça na cama. som de egsberto gismonti no computador ligado em cima da cama. voz em off, “esse cara é bom mesmo, hein? eu não conhecia. (tom de chacote) ignorante, você...” folheia o que tem na escrivaninha para ler. plano detalhe de piauí e le monde. voz em off, com sarcasmo: “companhias de quarto de hotel... oh, inteligente, você!”, cara de tédio, larga as revistas e pega o computador, o corpo ainda embrulhado em toalhas. voz em off: “se quer tornar-se roteirista, menos cursos. escreva escreva escreva. esse egsberto, puxa vida – quero dançar isso.” aumenta o som. plano detalhe dos pés. voz em off. “um teorema não pode ser desfeito. mas klimt envolvia o corpo das mulheres com tinta. e hundertwasser jogava aquilo que klimt pintava na arquitetura que ele criava. magnífica, a sua arquitetura, magnífica. queria poder jogar isso nas paredes de todas as ruas. pós muro... fim da história... raio que o parta! se você fala só o português, vai mal, mas pelo menos leia também o que escrevem em portugal... se você fala espanhol, que bom, o mundo hispânico se abriu para você... agora se você fala o inglês, ah sim, aí você chegou ao infinito. puts, eu tô lascado com o meu tupiniquim. ok, ok apago a luz do corredor.” pára de dançar, caminha até o corredor e apaga a luz. fade out, tela negra. legenda: “aborto de personagem”. tela negra, voz em off do personagem. “mas peraí, o personagem já nasceu, ele tem direito de viver.” legenda: direito de viver? ponto de vista do personagem: plano detalhe – ele grita: “eu já nasci?...” legenda em tela negra: “ter um parto natural não é algo fácil.”


créditos:


roteiro é literatura?

não, roteiro não é literatura.

dramaturgia é literatura?

não, dramaturgia não é literatura.

shakespeare é o que, então?


fade out.
plano geral de são paulo debaixo de água.

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

(ibirapuera, sp)

Dias depois da noite-pesadelo, acharam o carro do meu amigo. Quem achou? Um outro seu amigo. Incrível as charadas do acaso a fazer-nos rir e respirar, como a Alice no Mundo das Maravilhas. Há dias não pensava outro pensamento, sonhos cruéis, com direito a metralhadora. Não resisti e comprei Arent, como quem busca através do conhecimento domar a impotência (vã jornada...). “Sobre a violência” é o título da sua obra, “a violência, no entanto, só tem sentido quando é uma reação e tem medida, como no caso da legítima defesa. Perde sua razão de ser quando se transforma numa estratégia ‘erga omnes’, ou seja, quando se racionaliza e se converte em princípio de ação”, mas comprei também Dom Quixote de La Mancha. Já é tempo, “desocupado leitor”, de ler Cervantes e apresentar-me a Sancho Pança, espero poder ser para ele personagem importante nesta nossa longa jornada. Os dias de São Paulo vão chegando ao fim. Sinto-me cansada de estar em túneis. E tenho pensado em alçar novos vôos, como se nada muito houvesse de sentido nesta breve escalada se não abrir os olhos em novos horizontes, deixando o Belo das Gerais, já conhecido, descansar. Cidades como esta que agora abriga meu pequeno ser tornam-me ainda mais introspectiva, sombria, melancólica. Não, não percorri a dita noite maravilhosa. Perdi o melhor, dirão. Sou das madrugadas solitárias, em quartos baratos e computador ligado, com música e álcool capaz de fazer-me escrever. Só. Vez ou outra, de tão rara quase nula, esparramo-me nas “baladas”, e destas poucas vezes, a cada cinco, talvez, em quatro mantenho-me estranha, ao canto, como olhar, apenas, a observar os corpos, os sons, os vultos, as fumaças. Por fim, na única que me sobra, creio saber degustar bem o tal sentido da palavra felicidade, me dissolvo inteira, danço, deixo-me olhar e seduzir, bebo, canto e transpiro, como uma mulher parece-nos ser ao perder o salto de cinderela. Não sei ainda o que induz ao movimento. Qual busca funda os passos e de qual raiz brota o princípio do desejo? É como se o princípio fosse secundário; como se a causa, necessária não fosse, apenas o ato em si, de ver-se em constante crise, capaz de levantar os pés e fazer colher novos passos. Passos novos ou eternamente retornados, sabe-se lá... Mas o que estranhamente é possível somar de toda essa subtração de dias é que, mesmo à exaustão cansado o corpo, há energia que empurra. Não necessariamente para frente, porque qual é mesmo o ponto-referência? O corpo se move. E quer ver o novo. E isso é tudo.

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domingo, 24 de janeiro de 2010

Continuo sem entender muito. E os dias somente parecem acumular mais peças deste estranho quebra-cabeça. Não tenho conseguido unir muitas delas. Há uma montanha de elementos aleatórios, um complexo sem unidade. Uma cidade-multidão se descortina com sua minhoca de ferro por dentro da terra. Estamos dentro da sua estrutura, talvez tenhamos sido transformados em aço, respirando sua umidade de fungos e ouvindo o seu assovio ácido enquanto recebemos mais notícias amargas sobre a violência, que acaba de atingir um amigo. Saramago não traduz melhor o que se passa, apenas torna-se um companheiro neste estranho caminhar. Tentamos compreender o que parece sem razão, como Caim, andarilho no velho mundo, buscando alguma lógica dentro do absurdo – conclui não haver. Ouço a voz de um amigo do outro lado da linha. A morte das centenas de meninos das favelas no Brasil é real, assim como a morte dos haitianos, porém ainda não tão tangível como aquela que toca o corpo de um ser em nós vivo pela força da afetividade. E a retórica some. Ainda ontem folheei Arendt numa estante e optei por não lê-la, na ilusão de estar em férias da violência. Antes disso Haiti já havia interrompido nosso sabat como óculos a descortinar não apenas o que há de anunciação para as catástrofes naturais por vir, mas como extrema miséria da humanidade inteira – não como exceção, mas como permanente realidade entre nós. Hoje, novamente, uma gotinha de sangue cai no colo. E quando ela aparece, na sua verdade de pele nua e crua, nada vem de Saramago, de Arendt, de Baratta, de Foucault, de Karam, de Soares a tornar mais fácil o percurso. A dor vence. O vazio. O silêncio. Apenas permanece uma vontade de abraçar e acolher o frágil corpo humano vilipendiado. O que será feito de tu, Caim, quando findar seu eterno percurso e suas coerentes indagações? E por que ainda esta sede de viver e escrever e fazer cinema e amar e viajar e correr e parar respirar sorrir e viver? E esta absurda e concreta força para querer poder contribuir para transformar o mundo, a cada dia, nos pequenos e necessários atos, buscando em Drummond o Tumulto capaz de escrever na pedra o que deve sobreviver e fazer-nos respirar.

sábado, 23 de janeiro de 2010

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"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo.

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Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objetivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contato com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.

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De fato, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ficou registro, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefasto de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira definição de um até aí ignorado pecado original, nunca ficou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer dificuldade em compreender que estar informado sempre será preferível a desconhecer, mormente em máterias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a àrvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparada em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos filhos, no fim de contas, são tão bons ou tão maus como os demais."

(Saramago, Caim)
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domingo, 17 de janeiro de 2010

o concreto sem poesia.
(foto colhida na net)

"E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti" (gil)
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sábado, 16 de janeiro de 2010

poesia concreta das tuas esquinas...


























quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


há vulto de um ser morador do lado oposto da rua, numa janela em contra-plano, como figura de fundo, imagem objeto, alter-ego de uma mulher sozinha que olha, espia, reflete, finge não ver. janela indiscreta. busca por um abrigo barato. aqui, a tudo chamam hotel, mesmo àqueles quartos que gemem no meio da enchente. e uma linha deserta a compor. tentativas de adaptação. enfim, estar presa num quarto impessoal de teto alto, de guarda roupa velho e álcool no frigobar. perder-se em anhangabaú, tentar se encontrar na liberdade, refletir as cores do que deve pulsar dentro, numa calçada repleta de corpos sujos de mendicantes e noiados. ilusão enobrecedora da escritura feliz. olhar a linha reta da são joão e procurar pela ipiranga. respirar a densidade do extra-texto. sonho da composição ideal que tome a forma de imagem. a busca por multidão. o que quer, moça? em que ainda acredita quando escreve e quer impor um texto seco a personagens quaisquer, que tomem a forma de boca, que tomem a forma de pulso, que tornem-se cor? a trajetória da cor, a trajetória da luz, a trajetória do texto é o lugar aonde os fracos não têm vez. stalker. um estranho no ninho. qual é o referencial das convenções? o que é um sonho ruim? camadas sonoras, sons específicos, objetos que ajudem a narrar sussurram o plano detalhe, o tom, o ritmo, a pulsação, o insite. dispositivo. forma. mas o personagem é apenas um estado, uma trajetória de estados, uma função da ação. síntese. ela precisa de um escalímetro capaz de medir o tamanho da saudade. e a infinidade de sonhos. sabe-se apenas que o ano novo já adentrou por esta janela. ela já deveria ter-se tornado outra, mas ainda se sente a mesma. 22:54. e se chover demais? tenho fome. um sanduíche de pão de sal com queijo, tomates, azeite e orégano substitui perfeitamente a pizza. mas nada faz cessar a saudade. estar viva é bom, neste fim de dia. (a saudade não é apenas falta. é combustível. tanto quanto queima, faz caminhar.)