Houve de repente o desprendimento e o corpo inteiro se dilatando, para fazer correr por si todo o sangue num só segundo. O organismo transformado em veia, se abrindo como um rio às portas do oceano. A descoberta tão abrupta que temerosa. E aquela dor no peito, porque era muito oxigênio de uma só vez, quase um pulo no abismo, o peito podia estourar. Lembrou-se do pulo na cachoeira, seu corpo entregue à queda, a tensão de se jogar, de ver-se livre do chão, livre da visão, vazia de pensamento, o embate com a água, o estrondo da colisão, descer, descer e depois ressurgir, perceber o sol e segui-lo em busca de ar, sabendo-se viva ainda. Depois aquele sorriso infantil pelos seus limites ainda tão pueris. O choro na cama, o fim do dia num ócio absoluto, observando a luz fazer-se e desfazer-se através da cortina. Assumir o cansaço que dá descobrir-se, a loucura quase sem retorno. Deixar a febre ferir até que surja a palavra que desvende a dor, a espessura da dor, o peso da dor, o sabor da dor, para então degustá-la. Daí experimentar o silêncio do mundo, a ruptura com o mundo. A moral trancada do lado de fora da casa, da cama, do corpo. E o corpo num canto da cama, eufórico, mas ainda encolhido.
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