Meninas
Chuva late e Pedro olha pela janela do segundo andar. É Sofia que chega com Eleonora. Sofia vem à frente. É possível ficar ali filmando sua passagem pela existência. Acha-a linda e cheia de si, sempre. Queria mesmo tê-la, com todo aquele preenchimento, aquela vivacidade, aquela cor que lambuza o dia branco de chocolate. Ela está sempre de saias longas e camisetas sem sutiã e é admirável este seu desprendimento que vem mesmo da revolução feminista e está ali nela incorporada. Voz grave, mas cheia de aconchego que faz qualquer discussão filosófica parecer sempre uma conversa de bar. Eleonora entra como sempre, já cheia de intimidade e sem bater na porta. Ela o agarra pela cintura, gargalhando e balançando o quadril com uma música que exala inteira do seu corpo, dança com sua roupa e seus pés esparramados em sandálias de couro cru. Admira quase tudo nela: o jeito como se relaciona com o mundo, a sua disponibilidade para acontecimentos inusitados e a sua opção por estudar História.
Pedro anda para o quarto trocar de roupa e atrás lhe seguem as duas. Sente atrás de si a respiração de Eleonora, que vem trazendo o corpo quente para perto do seu, com sua pele eriçada. Sente que um sinal seria suficiente para uma brincadeira a três. Admira o desprendimento delas, a disponibilidade descompromissada, a abertura para as múltiplas possibilidades e a simplicidade com que tudo se resolve depois. Pensa que retém o pior peso, que é o do sentimento, esta mania de ter sempre o amor no meio, estragando tudo, mutilando o desejo, limitando o lúdico. O corpo santo, o corpo como território sagrado, o corpo como pecado original, está farto deste peso transcendental, quer mesmo estar disponível para o abismo. Sabe que nelas não existe esta carga, que elas realizam seus pequenos delírios sem peso, sem dor, então o travamento é seu e é possível romper. Ir além, sim, mas hoje está com preguiça de enfrentar seus fantasmas – prefere ficar do lado de cá, onde ainda é possível saber como agir. Entra no quarto e com ele seguem as meninas, cantarolantes.
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