quarta-feira, 25 de outubro de 2006



mulheres que me fundamentam: na sequência, textos de marguerite duras e hilda hilst (imagens e linguagens)



_ Por que fala assim que tem vontade de me trair?
_ Não sei - respondeu Sara. - De vez em quando sinto desejos de lhe dizer a verdade.
Ela o viu sorrir.
Quem era eu, quem tomara por mim até então? Não chegava a me alojar na imagem que acabava de surpreender. Flutuava em torno dela, bem pertinho, mas entre nós existia uma espécie de impossibilidade de nos assemelharmos. Eu me achava ligada a ela por uma tênue lembrança, um fio que podia se partir a qualquer instante, e aí eu me precipitaria na loucura.



D. vira-se para ela: ? "Eles o deixaram há dois dias, estava vivo.". Ela desiste de arrancar o telefone. Caiu no chão. Algo se rompeu àquelas palavras: há dois dias ele estava vivo. Ela se abnadona. Algo se rompe, sai pela boca, pelo nariz, pelos olhos. Precisa sair. D. desliga o aparelho. Pronuncia o nome dela: "Minha pequena, minha pequena Marguerite." Não se aproxima, não tenta levantá-la, sabe que ela é intocável. Está ocupada. Deixem-na em paz. Jorra como se fosse água, sai por todos os poros. Vivo. Vivo.


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