O ambiente num tom calmo meio rubro, reflexo do lençol na janela. Lençol laranja já de tanto sol vermelho. 08:40. Cedo para um dia de não-trabalho. De novo sugada pelo breu do olho inerte. Cama até tarde. O quarto de cabeça para baixo. ‘Qual é mesmo o lado de baixo do quadrado?’ Uma claridade lhe puxa o olhar, o buraco da porta lhe tira do quarto.
Fora da cama, banheiro, xixi. Pára diante do espelho, um segundo de entranheza pelo pertencimento àquela imagem. Do corredor adentra o escritório, volta ao quarto, puxa Caros Amigos da prateleira e lê-la toda. Mais do dez horas, vontade de nada, só de escrever. O corpo anda assustado com o silêncio da casa. O silêncio não é tranqüilo sempre, às vezes ele arrepia, quer palavra e é preciso se desintoxicar, então, para depois, passarinho....
Pega o binóculo e senta na varanda. Pouco movimento na rua, perfeito para o inusitado que recompensa a espera. Fica ali um tempo, anseia por uma cena de Almodóvar, mas a sua rua parece agora despida de pulso. O espetáculo não se enquadra.
Entra na sala, “música!”. Liga em Dido, senta no sofá branco e espera. É preciso deixar a melodia entrar pelos poros. Tira o chinelo e pisa o tapete colorido, que alça vôo. De olhos fechados, a cor não entra enquadrada e material, ela pulsa louca, dançante e informal no infinito negro das pálpebras cerradas. Apenas a batida do som penetra o corpo, os braços em descompasso, cada qual dono de si e os pés, pisando brasa, querem o ar, o ar... O corpo habita a música até o último compasso da nota que silencia. Mas o coração agora está frenético, quer sair, quer voar, empurra o peito.
Abre os olhos e um branco quase amarelo inunda seu corpo, lhe puxa uma careta, pinta a sala inteira, invade o mundo, lhe engole. O mundo volta aos poucos, com seu formato de normalidade. Pela porta de vidro da sala avista um dia claro e suave. Acabou o inverno, tá tudo ipê. Pousa o corpo para estancar a energia. Abre um livro enquanto outra música se inicia. Ficará pelo livro enquanto na música. A música, interlúnio quando ela livro. O livro, interlúdio quando ela música.
Um comentário:
Texto bacana, querida!
Postar um comentário