domingo, 2 de junho de 2013

último tango


o impulso, analfabeto,
ao reger-se por um sopro, um eco,
se ajeita como um germe
mínimo de tempo
para um zeus criança

dentro tudo claro
como um e um são sóis

esse repentino querer
se toma forma de nome
cria reino escuro de reter
dito e certo saber, lugar comum

o certo é deixar sem escrito
esse desencontro súbito 
de nós dois

se ventas, por que vacila?
se nuvem, por que inventas?
se sopro, por que tormenta?

propósito:
corpo e corpo ocos
num quarto vazio

promessa
livre de gramáticas



segunda-feira, 20 de maio de 2013

rasgacielos



Pressente e aceita no ato
o que antes desse instante rasgar
já rangia na calmaria de um vento:
cada afeto abarca um teto,
cada sentido adentra manso
e toma o mundo ao seu tempo.

domingo, 5 de maio de 2013



estou farto
desse sem sentido fardo
de crer em metáforas e pardais

dose extra de sentido  
tomo um comprimido
e acordo sem saber
onde e porque

ponho o léxico pra fora
desligo a tv num soco
quebro um ovo goro 
estou só gordo 
e deitado num sofá
 
um jornal aberto ao acaso
tem um meu retrato antigo
vestido de smoking
estampado 

que putaria é essa?
tento dormir

Babel esmurra a porta
em trinta segundos disformes
caverna sem fundo
silêncio profundo
enlance sem freio
de nós dois

tento calar no peito essa dor
vou morrer tarde e sem cor
preso como a um enredo fétido
de bukowski
ó velho, 
que festa grande



sexta-feira, 26 de abril de 2013

FOTOGRAFIA



Minha nova casa: 
para visitinha, clique aqui.




quarta-feira, 10 de abril de 2013

Onde mora a saudade?



Curta que realizei compõe o catálago de Cannes Court Métrage 2013. Clique aqui.



quarta-feira, 13 de março de 2013

CARNAVAL BH 2013





Meu ensaio fotográfico do carnaval de BH, aqui.







segunda-feira, 11 de março de 2013

belo horizonte


confirma-se a suspeita no peito:
pode ser que a felicidade seja isso mesmo,
o tempo das folhas

sim, dói um pouco ser tão pequena
mas às vezes é bom, pois caibo nos pequenos cantos
- me enrosco nos troncos sem que me percebas

só o coração quase não suporta
uma cidade deixando morrer suas sombras

penso, penso.
haverá saída para el hombre?

o outono somente agora se descortina
e a primavera,
drummond, e a primavera?

domingo, 23 de dezembro de 2012

entre o ser e o nada


Se o poema morde a isca vira peixe,
se é você quem morde vira jornal
pra embrulhar sardinha em dia santo
e chatos em noite de carnaval.

A notícia de ontem era verdade?
Sim ou não de velha jaz morta
e nem por hora deixou saudade.

Já o verso inverte o instante
e quando expressa um grito no mundo 
te lança feito feixe de luz, adiante.



domingo, 9 de dezembro de 2012

emergência


O juízo foi tomar
um banho de mar
e mandou pastar
toda a monotonia.

Não se cura uma febre
com cobertor
e nem é pela porta
que se sai de um grande amor.

Nascemos lendas
e morremos saudade

enquanto
os olhares conspiram paisagens
em metades nunca percorridas
insinuando entre fagulhas
acasos com menos verdades.

Alegria é presente
nadando contra a corrente,
lição de vontades.

Quem sabe

se o certo é certo,
se o que nasceu vingou
e se pra cada cura
vale-nos deus
um novo ardor?


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Em tempo



Ao lado do caminho, percalço
Acima do deserto, solstício
Abaixo da multidão, um poço
A cinco metros de todos, um passo
Que se estenderá por ruas desertas
Até se apagar num indefinido adeus

De dentro dessa quinta-feira, sentido
De estar acordada, madrugada
Ao te saber no palco, enterneço
Meu avô morreu de velho
E eu nem sei se amanheço

De quando em quando, um gozo
Quando não corpo, verso
Se falta prosa, contorno
Se falta em dobro
desconverso



domingo, 25 de novembro de 2012

terceira margem




já é quase outro dia

e eu ainda sem dormir
presa moribunda 
de uma insônia sem fim

ouço lá fora

uns primeiros passos
na rua coberta de neblina

me levanto ligeiro

e pela fresta da janela
avisto definidos
tornozelos

reconheço Zefa

com a mesma saia retalhada
onde inda ontem
enfiei meus gloriosos
dedos

mas onde vai tão cedo

e nessa pressa?
certamente pulou
dos fundos a cerca

não me aguento e saio

sorrateiro ao seu encalço
me escondendo à distância
na névoa gelada da madrugada

meia calça rasgada

puta que pariu!
como pode tão cedo?

ela desconfia e olha pra trás

eu me escondo num poste
porém sabendo descoberto
me revelo

ela grita e corre

eu estático permaneço

dou trégua de uns minutos

mas vencido pelo mesmo ímpeto
cego a me tirar de casa
sigo adiante encoberto
pela cúmplice fumaça branca
do tempo

ela vira a direita

e pega a viela que dá no Chico

Nhô Joaquim me cruza a rua

"Mordida de formiga
na cama, Juca Dido?"
eu sem responder sigo
ele se vai sem tino

desço o beco e

do espanto uivo um grito

Zefa se lança do mirante

mas antes me olha penetrante
com a cara inchada do murro de ontem
bem quando toda a neblina
por um sopro do diabo
se desfez

ela surge das águas

após o mergulho
e nada pra outra margem
lutando em fúria selvagem
nunca a vi assim tão brava
contra as correntezas do rio

do outro lado 

um barquinho de pescadora
com uma velha senhora
a resgata

agora já não mais me olha

vai-se embora
e eu de cá a gritar feroz
até o barco se perder de vista
volta aqui Zefa volta aqui

na beira do rio sem passos 

ficamos eu e seus longos e
vermelhos 
saltos altos.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

modo de usar





Essa é a hora mais fria na cidade,
a hora em que na roça os galos cantam
e aqui de tão deserto
nem tanto já mais
se ouve.

Assunta isso, quando o dia nasceu chovendo
não trouxe junto a tristeza como chumbo
a sufocar a aurora com sua iníqua
falta de sentido,

esse peso morto
é seu e não
do tempo.

O que palavra diz não é dito
é coisa outra sem sentido.

De cá se vê lá embaixo
os primeiros traços
de gentes tomando a rua em assalto
indiferentes ao seu modo e estado,

descem da Pedreira
pra dar à cidade sua lida
enquanto inda sonham
com o calor do amor
- acreditam que tudo possa melhorar
e traduzem esse desejo em ato.

Alguém já se levantou
no apartamento ao lado,
côa café e tudo pra trás
deixou de elixir
essa brisa inda fria
que atravessa a janela
e te inspira um langor,

cuidado! Talvez seja sono
não nostalgia, vá dormir
e aprende a ler a pele
sem fantasia.

Todos os muros se esfacelam
agora ao redor do corpo
quando toma a cama
e nesse rio branco
lembrança embrulha e embala
saudade.

Chegou a hora de se perder
e se achar num corpo novo
que reconheça seu
inventário de afetos
como prosas sem contrapesos.

Na torneira da cozinha
a água goteja
insistente

e só agora escutas,
quando um oceano se perdeu
indiferente.

Aprende a ser reverso,
junta os pedaços de concreto
e telha altivo o dia
com signos menos enrugados

de invernos.