domingo, 29 de janeiro de 2012

purgatório



Na madrugada o etéreo de um outro 
desconhecido toma a forma de abrigo
enquanto tenta expulsar do corpo onírico 
retalho de dor pretérito inda sentido 

A tarde deixa esvair chuvosa estúpida espera 
e embora preferisse se desvencilhar 
desse vicio opressor por um ser distante 
quase como um princípio insosso de não, ressente 

Pois pode a mulher pagã, desnuda 
de joelhos um sacrifício rogar a Hera
para ver livre a carne de infortúnio jugo? 

Clama do tempo além da paciência, cura  
de dentro da redoma auto infligida
onde em pés descalços adentra chamas.

mas eis que o passaro


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

deitada na madeira fria




Suzana,

 
Inicio esta carta antes refletindo se não deveria deixá-la esperar por alguns meses, para talvez fazê-la experimentar o tempo como eu o fiz, ao sabor acerbo da erva espera. Crueldade, minha cara, crueldade manter-me assim perdido sem notícias suas e quando estas chegam preciso abrir as janelas para fazê-la respirar um ar menos ácido de ressentimentos. Deixo a carta sobre a mesa enquanto ainda tento findar o café da manhã interrompido. Sabia que era você ao avistar o carteiro pois não há quem ainda me poste cartas e quase já acreditava que mesmo você não mais o faria. Eis que aí está, deitada na madeira fria, inspirando o aroma do café por tantas e tantas manhãs compartilhado contigo. Aceita uma xícara? E desculpe-me a bagunça da casa, não esperava por ti neste início de dia. Ouço Ry Cooder, “Paris, Texas”. Qualquer aparência é mesmo proposital. 

Da janela, Suzana, que abri para recebê-la avisto a copa da nossa árvore, lembra? Depois que partiu me neguei a sentar-me à sua sombra, mas agora contigo em minhas mãos penso em ir ler ali, o que de imediato me agrada. Então coloco um short, troco os chinelos e caminhamos de mãos dadas rumo à praça. Falo de dentro de uma manhã calma de outono. A rua está quieta, posto que quase todos foram para o trabalho. Poucos vagabundos, como eu, se mantêm em casa, outros desempregados e mulheres que às vezes passam com suas pequenas crias. Acaba de cruzar-me Dona Teresinha, que sorri e pergunta por ti, digo que tenho uma carta sua em mãos, ela te manda um beijo e segue arrastando sua bunda enorme vestida com uma bermuda vermelha, parece um besouro gordo com as nádegas acesas.

Ao ler suas palavras tenho uma felicidade egoísta, penso que talvez você não suportará por muito tempo e voltará a viver aqui, comigo. Compartilho esta idéia para que desde já se arme contra o meu niilismo. No fundo sempre soube que as suas sensações sobre a metrópole seriam exatamente estas e com ainda mais certeza sei que jamais voltará para a nossa pequenina cidade, tão tola e jovem é ainda para agir de forma coerente à compreensão que já obteve em gotas insignificantes do tempo. Só intuo e temo o seu completo distanciamento.

Talvez queira saber um pouco de mim, apesar de não me ter provocado nesta direção, mas aproveito a oportunidade das ondas para desviar um pouco o curso do rio. A sua partida, não pensei que a sentiria tanto, mas um vazio abriu-se abaixo dos meus pés e foi preciso muita energia para sustentar-me. A nossa singela amizade me devolveu uma certa luz e me senti novamente no escuro após a sua retirada. Sei que o seu silêncio foi estratégico para fazer-me perceber esta ruptura como definitiva. Agora, somente, volto a respirar e há nisso um sentido novo – talvez eu nunca mais a veja e esta perspectiva me liberta e me aprisiona. A sua amizade, Suzana, bem sabes, bem sabes...

Em mim o problema da próstata se agrava. Aos poucos vou temendo e me preparando para o pior, se vier. Talvez uma cirurgia dê conta de me manter vivo para mais além, mas quando se chega aos cinquenta qualquer arranhão na pele ameaça e faz voltarem as infinitas divagações sobre a falta de sentido que há em tudo e para estes momentos de angústia não existem bares, cafés, livrarias, apenas uma solidão que abarca o mundo e me remete para a possibilidade de deixar de ser. Sinto-me um velho Kafka, minha cara amiga, escondido do mundo e querendo queimar todas as minhas palavras.

Penso como tem feito para sobreviver aí, pois nada falou sobre isso. A sua tia conseguiu empregá-la? Conseguiu matricular-se no curso? Deixa-me preocupado. Caso necessite de ajuda posso compartilhar esta miserável aposentadoria de inválido contigo, não seja prepotente. Fui atrás de notícias suas, mas Adriana nada soube me dizer e se mostrou áspera, também aflita com o seu alheamento.  Entendo querer desvencilhar-se de tudo e todos, mas Adriana, como eu, pensava não fazer parte deste universo de que você se destitui. Ela estava bonita, quis beijá-la, quis trazê-la para a minha cama, mas me contive pensando em ti.

Minha vida, caríssima, vai como nuvens, como vês. Tenho uma nova amiga para brincar um pouco vez por outra, o que me faz esquecer de mim e ainda perceber-me alegre como um cão alienado. Dela escrevo em breve, quando voltar a me visitar. Não será desta vez, que o sol já levou a sombra para o meio da rua e por lá, por mais doido que já esteja, não ouso sentar por ainda querer viver.

Espero chegar até você em poucos dias e encontrá-la feliz. Aguardarei o carteiro a cada dia, só assim ainda me resta um pouco de riqueza em perceber o tempo. Apesar deste corpo de homem, minha querida, há muito desisti de sê-lo. Uma flor nascida num asteróide distante, eis o que sou. 

Nossa correspondência, que já faz aniversário, me aproxima ao Visconde de Valmont escrevendo à sua Marquesa de Merteuil, relação menos perigosa, a nossa, mas a esta altura tive que recorrer ao mestre Laclos porque ele diz melhor parte do que penso expressar neste pequeno pedaço de papel. Verá que cabe citá-lo e me perdoará a pouca originalidade em escrever eu mesmo o que penso. Concordarás que não poderia dizer o mesmo em melhor forma. 

"Conhecer-vos sem vos amar, amar-vos sem ser constante, são coisas igualmente impossíveis; e, apesar da modéstia que vos adorna, deve ser-vos mais fácil lastimardes os sentimentos que inspirais do que vos surpreenderdes com eles. Quanto a mim, cujo único mérito foi o de vos apreciar, não os quero perder; e, longe de consentir em vossos insidiosos oferecimentos, renovo a vossos pés o juramento de vos amar sempre.”

 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

abstinência



Ela persiste em agudos versos 
mas apodrece a rima em ruína espera 
se na tua carne essa armadura 
de ferro impede abrigo. 

Cansado, o peito se deixa afundar
em movediço fado 
e espalha pelos nervos nas noites 
quentes espasmos fulgentes. 

Solitárias horas se renovam alagadiças 
nas folhas virgens trepadeiras 
dos muros altos da prisão à vista.

O que pode de invento uma boca sedenta inda
tramar quando a garganta de silêncio inflama 
e lança em febre o corpo em cama?


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

como Marte, eu amante


Não há escuro no ocaso pra quem vem de Vênus
e essa luz em céu noturno de estrada sem rumo
é um convite em murmúrio à fome,
um breve estado em esquecimento.
De ter desnudo desejo nesse clarão de noite
depois de em tua boca um verso,
fábula de culpa alardeia templos
repletos de deuses que uivam viris, suculentos.

Mas esse canto de cisne novo
te deita em concha de pérola
mal a noite em espiral adentra.

Sua voz esse intento
cratera de fogo
em vulcânica superfície.

domingo, 8 de janeiro de 2012

o tempo que te tolhe




Quando o desejado se hospedou no mundo
como possível, um sono fez pender o corpo
em espanto e cansaço. Escárnio –
pois pode um caminho se abrir assim tão claro?

Escuta os primeiros passos do outro
ao contrário de erigir pilares sem aço
a desmoronar ao sabor de um vento
bêbado e enciumado. Cuidado!

Aprende a prender suas águas
antes de as despejar feito mar em fúria
como uma nascente de rio cumprido
que nasce na seca e nunca seca.

Cobre sua carne de espera,
pendura seu coração numa grua,
embrulha sua maciez numa pedra
e deixa o universo a represar.

Balela, quando o que se quer é sangrar.




quinta-feira, 5 de janeiro de 2012














quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

dom quixote

o céu acima está oco e repleto de ses debaixo dos corpos. o mesmo punhado de espinhos com as frases compostas de menos verdades. porque verdade, verdade mesmo, é bicho preguiça. anda lenta e sem memória palpando o nada. antes era só o desejo de se roçar na pele e agora esse amontoado de versos prosas que se acumulam, nada dizem nem amaciam. ela alcança seus verbos, mais reais e palpáveis que seus músculos de pedra. o mundo vira buscar seu corpo, sublime porque escasso e em função dele nasce uma mulher estranha. deslocamento da consciência para fora do ato. vê-se de fora e desconhece o olhar quando envolto no seu silêncio. a cidade parece a mesma mas ela está distante, difícil de laçar. as antigas dores deixaram de doer e mesmo o bicho estranho de duas letras já não a assusta mais. está em tudo, contudo. ela aos poucos se acostuma com esse ser autônomo que surge cada vez que você a provoca. agora entende a necessidade da distância, esse impulso para o longe. o ponto de referência do mundo se tornou o corpo do outro. e tudo restou pequeno, menor e suportável. lugar distante é onde ela quer estar para abrigar o outro. ficar longe de longe dói menos do que ficar longe de perto. pode ir morar no japão, logo ela que nunca havia querido sair dos livros. isso não é paixão nem queda. é ser. estamos em 1977. a mulher que em pouco tempo já não mais será senão poeira de memória pairando sobre o futuro. mas de cá agora dessa rede, esse céu. e você. basta você existir, com seus moinhos de vento.




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

piauí



problema de labirinto: cheguei até aqui.
e agora? Gauguin com seu exílio,
Van Gogh com sua loucura,
Rimbaud com sua renúncia e
eu com este canivete.
(lavrei seu nome num pé de carnaúba)

neste calor torno-me pastosa,
injustificável e contingente.

seu nome inda abarca tudo.

sou aquela que você escreve,
retirante mulher da vida,
mas com o coração um pouco mais mole
és incapaz de ler.

- só sei falar
         de mim.
      
torno-me ignorante a cada dia
quanto mais se expande a terra sob meus pés.
isso me cala de susto
mas não ouso silenciar-me
e passo ao pânico um segundo antes da escrita
como temendo uma revelação
(sou dada à transcendência?)

um dia
talvez possa expressar o necessário.

minha angústia se prostra
ante a liberdade com kierkegaard
ante o nada com Heidegger
e com Sartre tenho tendência a fugir do meio termo:
indiferença ou dedicação maníaca
(mesmo em silêncio de longe te observo)

parece que quando mudamos de vida
como uma serpente
urge contemplar esta troca de pele morta,
quebradiça,
que já não é.
estar no mundo é tudo.

é preciso ser de barro,
mas minha concepção é vento.

quando eu morrer será só mais um não-lugar
múltipla sem original
uma escolha e um chamado para o longe.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O CORREDOR DA MORTE


 
"Auto-ajuda não, que isso não é para o meu bico. Mas talvez hetero-ajuda, essa que se constitui na alteridade, não no ganho e apropriação mas no jogo e mistério identitário"

Enquanto Drummond é lembrado por dias com suas poesias aparecendo a cada hora nas redes sociais, tornando menores as pedras, outro homem toma a minha recordação, o biógrafo do poeta, que conheci em carne e osso num corredor de hospital quando ainda lutava para fazer seu novo coração transplantado aceita-lo como casa.
No dia que conheci José Maria Cançado eu havia recebido a confirmação do câncer da minha mãe e me sentia oprimida diante da possibilidade da sua morte e das dores que sabia ter que enfrentar ao seu lado, sem fraquejar. Obviamente fraquejei várias vezes no percurso. Como poderia eu enfrentar um desconhecido tão poderoso? O que sabia era ter que adiar em mim a manifestação da dor, para exercer o Cuidado. O que sentia ali parecia menos importante do que deveria externar. Mas isso tudo sucumbia à vontade de chorar, ao sentimento de revolta e ao pavor diante da morte, que se manifestava como possibilidade latente no corpo de um outro amado. A morte continua inconcebível, porque não é o que sentimos com a finitude de um outro e nunca será registrada como experiência inteligível por aquele que a vivencia, porque o eu deixa de ser no momento em que ela é.
Eu trazia o diagnóstico na bolsa e ainda tentava me acalmar do choque primeiro da anunciação, quando o meu companheiro recebeu um telefonema. O seu sobrinho havia quebrado a perna e seria imediatamente submetido a uma cirurgia. Fomos visitá-lo no Felício Rocho e com isso eu adiava por algumas horas o reencontro com dona Marlene, que me aguardava em casa como mensageira. Seguir com o meu namorado para o hospital era suspender o encontro com a dor ou buscar um atalho que me redimisse com a coragem. A caminho do quarto, os infindáveis passos pelo vazio do hospital me pareciam inaugurar um longo percurso através do corredor da morte.
Eis que surge o poeta, que eu sequer conhecia, pequenino, na outra ponta do grande túnel, vestido em túnica branca. Ele não parecia doente. Doente parecia eu, calada, amedrontada, com a palavra câncer devorando tudo. O poeta fala dos anos vividos em quartos de hospitais, das cirurgias incansáveis, dos tubos, das enfermeiras. O ouço dizer que não teria sobrevivido, não fosse o SUS. Fala do seu livro, “O transplante é um baião-de-dois”, que ele compôs ali mesmo, no confronto com a experiência.
Anos depois li seu baião de dois, alguns versos declamados no corredor. Um Dom Quixote caído de um campo de batalha desconhecido, tentando me convencer a encarar a árdua luta a que fui convocada, sem meios de poder recuar.
"Pois o que se entreouve aqui
nesse leito, velha UTI, lugar donde estoy,
normativo não é. É a ponderação
misteriosa, e que é assim
com relação ao que longamente já é
e com relação ao que longamente não foi.

Espero. Minha condição agora é pastoral."



E quem falou que não é
também esta condição
a nossa?
Por isso
vou escrever sobre tudo
o que aperta o peito,
de uma vez só,
porque como em Maiakovski,
a anatomia em mim
ficou louca
e sou toda hoje.
 
 
ps. os versos em itálico são de Cançado em seu O transplante é um baião de dois. Vale a pena ler, pois a quem escapa o corredor?
 
 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SOMOS TODOS DANDARA


Comunidade Dandara, em Belo Horizonte, com cerca de 1.000 famílias, está ameaçada de despejo. Mas há um movimento em luta pela sua permanência. Porque somos todos Dandara!