Tive o privilégio de filmar essa peça teatral, no dia em que a ZAP 18 generosamente se abriu para receber o público do Programa Fica Vivo! A peça toca fundo nas questões da violência urbana marcada pelo homicídio dentre os jovens. É uma peça ética e esteticamente primorosa, com artistas muito talentosos e vigorosos e o mais bacana é estar instaurada na proposta de teatro de galpão e de "periferia", ou seja, radicaliza numa praxis que busca incorporar-se e interferir na dinâmica da cidade, a partir de um encontro simbiótico com o público. Essa noite mãe coragem é uma peça do dramaturgo Bertold Brecht e narra a história de uma mulher que sobrevive e cria seus filhos tirando pequenas vantagens da guerra do tráfico, até que um dia aquela violência que parecia apenas um produto a ser consumido, chega perto demais da sua própria prole...
domingo, 12 de junho de 2011
ESSA NOITE MÃE CORAGEM - ZAP 18
Tive o privilégio de filmar essa peça teatral, no dia em que a ZAP 18 generosamente se abriu para receber o público do Programa Fica Vivo! A peça toca fundo nas questões da violência urbana marcada pelo homicídio dentre os jovens. É uma peça ética e esteticamente primorosa, com artistas muito talentosos e vigorosos e o mais bacana é estar instaurada na proposta de teatro de galpão e de "periferia", ou seja, radicaliza numa praxis que busca incorporar-se e interferir na dinâmica da cidade, a partir de um encontro simbiótico com o público. Essa noite mãe coragem é uma peça do dramaturgo Bertold Brecht e narra a história de uma mulher que sobrevive e cria seus filhos tirando pequenas vantagens da guerra do tráfico, até que um dia aquela violência que parecia apenas um produto a ser consumido, chega perto demais da sua própria prole...
segunda-feira, 6 de junho de 2011
tem vontade de pessoas. quer sê-las, quando a encantam. há uma certa atração, quase romântica, leve, fluida, um ímpeto de aproximação, um jeito de ser um pouco o outro, de respirar seus ares, deixar entrar sua voz, perceber o movimento do corpo, o ritmo do passo, a inclinação do sorriso, a permanência do olhar... há pessoas que quer apreender, escrever, fica assim, numa certa paixão, que já não assombra. movimenta, impulsiona, exige representação. uma paixão não necessariamente erótica, talvez mais literária e musical (o literário é musical), de quem vive um êxtase que exige letra ou nota. nada do que vive pode ser verdade, senão o desejo pelo irreal. quem sabe ainda está aprendendo como entender... quando se corre com os dedos em busca de um novo som, há necessariamente que se abrir para a composição, para a possibilidade.
como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
tudo se combina, não há plano secundário, impressões múltiplas sobre sentidos e desejos, como se o tempo antevisto por deleuze agora fosse mais pleno para ela.
Delfos...
ou
um pequeno odisseu.
sem sono, a noite pede para escrevê-la. ligeiro temor causa esta vontade repentina. dar um nome para a sensação... sim, estilicídio! perceber com mais intensidade as relações de ser com tudo o que já é quando se deixa perceber – nisso talvez um pouco de Tao
primeiro pela retina, imediatamente pelos tímpanos, arrepio na epiderme, pulsação no peito esquerdo. depois do corpo, sabe-se lá por onde anda.
espera que [não] o tenha atado direitinho...
e sem saber para onde olhar
que também o canto
e o que dizer
que também a boca
e se choro ou rio
que também o mar.
"Ainda é cedo, ou quem sabe cedo é acordar...
quem sabe ainda é medo(...)
(...) Quem sabe se ainda é morna a água desse rio,
Se dele saindo sinto frio.
(...)Minh´alma afunda,
meu corpo flutua nestas águas
Como se o rio me dera asas...
_Sou argonauta sem mapas nem destinos.
Quem sabe sou ave(...)
Ou quem sabe Sou apenas
uma dúvida a naufragar poemas(...)" j.
retorna às pautas...
(já não tão bem atadas as mãos...) começar um novo fluxo, depois de novas impressões, que são também as mesmas já vividas. te encontra ali onde apesar de buscar palavras, elas faltam e resta um tempo ínfimo de silêncio que a suspende no ar, como folhas que voam sorridentes no seu pulo suicida, embaladas pelo vento e contentes quando um olhar encontra a dança na atemporalidade da queda. será que haverá uma mão logo ali embaixo para abrigar a flor? a (sua) mão terá sido um presente (a gratuidade dos gestos despretenciosos), porque a queda vale por si. segue em passos miudos, minueto... Em queda livre, em calmaria... Por que vieste? Mas a vida já estava... Por que apareceste? A vida já me olhava... dúvidas às vezes tanto sobre o acaso, quanto sobre o dever-ser dos acontecimentos... será mesmo acaso ou o desejo que lê e fuça? será mesmo a ordem natural das cousas ou a ação mediante a vontade? o movimento é suave... e tem seu tempo, como há o das águas, o das chuvas. a moça ouve o ritmo do pulsar e vai.
a música cessa quando queremos deixar de ouvi-la.
a distância... distancia?...
confirma-se a suspeita no peito:
pode ser que a felicidade seja isso mesmo
o tempo das folhas
e dói um pouco ser tão pequena
mas às vezes é bom, que cabe nos pequenos cantos
- se esconde em ti sem que percebas
hoje nada mais sabe...
decreta por fim a liberdade...
és livre, e o coração se desdobra mais em ser asas...
pensa no ser que disse ter sido criado, um ser indefinido, às vezes nublado, incorpóreo, assexuado... pensa se ainda não o envolveu com as linhas que borda desde o momento em que se sentou ao seu lado... pretendia um belo cobertor para envolver faíscas. não sabe ver este terceiro ser, sabe reconhecer apenas dois, sabe ver o ser que é e o ser que busca através do outro, e pede corpo.
mas o corpo também é literário.
não se assuste com as letras. pode ser objeto de pesquisa, de análise, apenas. tentar explorar ao máximo a sua resistência – ou o seu alheamento?... quem mandou compartilhar uma arma tão poderosa?
e o que escrever, se tudo pode ser considerado apenas objeto de estudo para futuras narrativas?
sexta-feira, 3 de junho de 2011
arranca a raiz e cai na profundidade da vastidão de tudo. o tempo está virando mas vê um filme de quando em vez. correm os dias, as noites parecem grandes para reter o seu nome - ela acorda antes do dia e presencia o nascer das horas correrem, como para testemunhar a passagem de tudo, para precipitar, enfim, o dia que guarda dentro, grávida de asas. ciúme. e pensa como será. como será se ver sem pés? uma mensagem, um pé de página. me deixa caminhar p'ro tempo, me deixa carregar o tempo. me deixa nunca descansar.
algum motivo para seguir.
não foi feita pra se estender na seca tipo rachadura. há muito deixou de querer dormir para maldizer o sono pouco. frio redentor de outono torna o deserto mais acolhedor. agora que se sabe remexida, sacudida, nada serve para estancar a neblina. mulher gaivota criou ondas. o que quer, bugigangas, apocalípse, marcha da liberdade na praia da estação. faz algazarras quando nada de novo haverá, senão... reconhecer a transição. nada é interior, iracema. casa de chá, banho de mar, canto lírico. grãos, teto, espaço. legião de famintos deve deixar um rastro, um sentido, uma ruptura, um desatino. nunca na vida fostes meu. mantra rogado em versos.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
NINA SIMONE
volto sempre neste video. nina simone está linda! há harmonia entre formas e cores. as curvas de prata acima dos ombros redondos, os arcos de borboleta sobre os cabelos, as bolinhas negras do vestido mergulhadas ao sol... a fotografia... as formas geométricas e coloridas ao fundo, os traços suaves do piano... a força radiante do cântico...
ela canta meu estado de muitas vezes... como hoje, como agora. o apartamento ficou grande. e é o mesmo silêncio de amanhã.
Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no faith, ain't got no beard
Ain't got no mind
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no faith, ain't got no beard
Ain't got no mind
What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood
I've got life, I've got my freedom
I've got the life
I've got the life
domingo, 29 de maio de 2011
DESVELAR O ESTADO DE SER
Ártemis parece se indispor
e lutar com essa
que já domina há década,
Atena.
Afrodite,
em luto por três amores,
se debruça no leito de
Perséfone
e toma do seu chá
curador.
curador.
Deméter é a mais distante,
alheia,
adormecida.
Certamente de todas,
a que menos exige,
cansada deve estar
de parir por séculos,
tanto quanto
Hera.
Essa aí, será que existe?
domingo, 22 de maio de 2011
de dentro da cachola
a moça jamais saberá por que ao homem era próprio as interjeições que a mantinha em suspensão, aprisionada na possibilidade de uma letra, de um nome, de um beijo, de uma mão, de um gesto. jamais saberá porque a anunciação dos lábios sempre esteve retida na reticência dos ruídos, nos desafinos das distâncias, nas prisões das esperas. o gesto puro, soube existir e quase o tocou quando do último encontro, mas se perdeu no leito do rio para o silêncio. curvado restou o desejo, ante a força da ausência, do vai e vem dos dias, da imaginação frustrada. as páginas em branco eram cheias de possibilidades - viagens de trem ao mar. saberá reconhecer o cheiro das páginas guardadas há muito num sebo? reconhecerá as palavras, mesmo aquelas já vazias de sentido? desassossego. o bom é ler um livro novo. achou O Amante do Vulcão de Sontag na estante. vai ler pra aliviar as idéias, que andam fracas. o céu é o mesmo e talvez tenha havido só uma ligeira coincidência, mas essa brincadeira do caos corrompe toda a lógica que tenta ela imprimir aos fatos - não é possível ser razoável deste lado do espelho? ele anda distante. é noite de domingo, há um silêncio na rua, um frio na cama, um bem estar de solitude com esse chapéu novo. um excesso de confiança no que virá, uma força que a empurra além - reconfiguração do que se pensava em desarmonia, reposicionamento dos signos, reorientação de sentidos e afetos - que sejam antropomórficos e absurdos, desde que imprimam o mágico, o lúdico, o verso. quando a vida parece (de)codificada, é hora de escolher uma chave nova, alice.
terça-feira, 17 de maio de 2011
CONDESCENDÊNCIA
quando me debruço sobre os (seus) escritos,
quase surto.
e me enterneço.
o mesmo céu.
quase surto.
e me enterneço.
o mesmo céu.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
POEIRAS
de repente silêncio. a casa está quase deserta. o chão branco sustenta a poeira da inércia e as roupas e pratos espalhados pelo quarto, o estado mental - "sente-se livre para fracassar". sucumbe ao turbilhão do movimento, desiste de fingir querer estabilidade e tudo se mostra frágil ou há a mesma força desconhecida e já uma dezena de vezes proclamada que a move - talvez haja perversão, destrutivismo, patologia, mas paga pra ver. expõe o olhar ao sol, até quase cegar o tato. a dor não está na ausência do outro, nem na solidão do corpo caído colérico no colchão de ar da noite. nem há dor, só movimento. e depois do último passo, um desejo profundo de dormir por dias, pra não ter que pensar, pra não ter que escrever, pra não se propor a entender nada, porque entender não torna menor a responsabilidade, mais a expõe, mais a compromete, mais a molda em estruturas. quando o essencial não pode ser transformado, ou porque não se quer, ou porque se finge não poder, as ondas ofuscam o essencial, tornam o que se pensava mais importante, menor, talvez porque ali se possa mexer mantendo-se de pé, ou porque só seja possível mexer naquilo que não a torne vulnerável à capacidade de auto-determinação. o pavor é estar à mercer das horas. o trabalho quase sempre a mantém conecta com o mundo, com as mazelas do mundo e se debruçar sobre o mundo é uma maneira de tentar compreender a si como parte de um corpo e não como essência de tudo. saber-se pequena. a dor já não faz sentido. desapega-se dos pesos, como se à deriva num barco, tendo que despejar sobre as águas do mar os objetos mais amados, porque disso depende poder contemplar por mais tempo e com lucidez o mundo. é um dizer sim à vida, é um desafogar-se das paranóias, dos vícios mentais, das tragédias afetivas que só alimentam despontência. é preciso aprender a viver sem dor. sem culpa. é preciso desconectar-se dos pensamentos viciados, das obsessões, dos purgatórios, das condenações ao inferno, dos diabos. deixar de morrer todos os dias para dormir em paz, dizendo um sim ao próximo dia. permitir-se dormir. permitir-se amar de novo. permitir-se ficar bem e só, mesmo amando amando amando. varrer a poeira da casa, ser capaz de arrumar o quarto, viver um outro sem matar-se no outro. é preciso integridade para não ser o que não se quer ser, para não se ferir por temer ferir o outro. porque os dias são breves. e há uma curva logo ali em frente.
sábado, 30 de abril de 2011
MORRE SABATO
"la muerte de uno de esos ancianos es lo que para ustedes sería el incendio de una biblioteca de pensadores y poetas."Antes del fin
sábado, 23 de abril de 2011
ESTAR À MARGEM
fim de sábado. um sol se põe além da janela e estende-se em amarelo para dentro de casa. Ana me emprestou a cópia de um diário raro de ser achado, "Hospício é Deus", de Maura Lopes Cançado, uma filha da "tradicional família mineira" que SE (Vontade Própria?) interna em várias clínicas psiquiátricas e tem sua obra recolhida das prateleiras pela família, depois de lançada. ela foi uma das primeiras "safras" de pacientes a serem voluntariamente atendidas a partir da abordagem de Nise de Oliveira. Nise sempre me remete a Bispo do Rosário. e este me conciliou com os Leites - e sua (também minha?) mania de juntar quinquilharias (materiais e mentais...). somente depois de conhecer a obra de Arthur Bispo passei a sentir nostalgia do meu quintal de infância, com cômodos abarrotados de entulhos, onde dia e noite me sujava com a renca de amigos, eu feito moleque no meio deles, como numa masmorra perdida. hoje percebo o forte e raro senso de reaproveitamento presente em seu Jeovane, tio Gildásio e tio Grimaldo (amados e "esquisitos")... mas esta nem chega a ser a mais estranha característica possível de ser detectada nessa família de mamíferos...
estou com vários livros abertos, mas bastou espiar a primeira página e tibuf. Você tem razão, Ana.
idéias novas para novos contos. já não bastam os interrompidos... universo feminino. patologias. patologias? uma lucidez facilmente (facilmente?) detectável ou classificável por teorias psicanalíticas. as personagens não se cruzarão. e a voz será sempre em off, pois serão todas fortemente marcadas pela escrita e auto-análise.
"Estou de novo aqui, e isto é __________ Por que não dizer? Dói. Será por isto que venho? _ Estou no Hospício, deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos: trêmulo, exangue - e sempre outro. Hospício são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro - como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde - paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensuráveis: Hospício é não se sabe o que, porque Hospício é deus."
segunda-feira, 18 de abril de 2011
ZAP 18
"Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem." (Brecht)
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Coletivo Ser-Tão em Cannes
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