sábado, 3 de maio de 2014

al despertar de la conciência.



És uma romântica, disse ele 
decifrando a mulher inteira

e ela sorriu, não pela descoberta alheia,
mas por abandono perpétuo à condição revelada,
vencida, enfim.

A sua barba descuidada era ruiva e cheirava a madeira.
Sua temperatura, morna e seu olhar, marítimo
like the sky.
Viajante latino. 

“Mañana viajo. 
Ven a mi casa conmigo.”





¿qué estás pensando?
                               (she is horny) 

Não havia no quarto sombra
de luz.
fizeram ver pelas mãos. sinapses.

un 
par 

de dedos 
dentro 
de ella

silêncio
  nos mares do caribe

sonhos úmidos
enquanto o cachorro da casa reclama uma
presença intrusa.

a mulher se foi en la oscuridade del sol, 
desconocidos hasta el final. 

Ahora sólo tenía la monotonía
del cielo negro
caminhando entre leões e elefantes 
antes del amanecer

tempos que convidam a revolução.

através dos teus olhos a mulher pôde ver,
libre como las hojas de otoño
sua alma {inda} viva
até a lua cheia.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

antepassado


Então vem essa lucidez
só, que a passagem traz e
a perda reconhece.

esta lucidez catatônica
de uma nova língua inaugurada
sobre os dentes opacos da morte.

noite sim,
noite não,
sonho com ela
como para não deixar-me
mutilar.

tivesse mais um dia,
nada talvez
[poderia?]
ter sido diferente.

por hora o presente ruiu
apesar de tudo aí,
sol lua capim
e até meu sorrir
tudo feito ingrediente

na mesma medida
e lugar. vou dormir e acordar
[a mesma e em paz?] ciente,

olhos teimando em querer ver
o que se posta além do visto,

fuga do círculo do sentido
anunciado,
afogamento.

[a objetividade de um corpo num túmulo
é uma falácia. o que há é um passarinho ao lado, a cantar]

assumi um novo rosto
que andava às margens
com tanta pressa.

não há mais pressa no mundo
e nem apavoramento.

a minha raiz
é o que não será
nem foi,

um nome guardado,
um olhar mareado,
um cheiro de mãe.


quarta-feira, 2 de abril de 2014

por que deus permite que as mães vão-se embora?



Na minha última viagem a Conquista, no Natal de 2013, resolvi fazer um simples registro em vídeo, um tipo de diário de família, iniciativa nunca antes realizada, muito inspirada em coisas que li, vi e me tocaram recentemente. Acabei filmando apenas a breve noite da minha chegada, porque logo percebi que havia esquecido o carregador e a bateria extra em Belo Horizonte, além de que, aquela mesma já se esgotava. Então a câmera havia ido comigo apenas para guardar um enlaço. Mal pensava (ou talvez sentia?), que o abraço materializado ali com a minha mãe, captado pelo meu irmão a pedido meu, seria o nosso último reencontro neste breve existir e estas imagens, ínfimos segundos, um bem precioso e sem fundo, mar onde já me perdi e achei, mergulhei profundo, vezes sem fim. (Nesta madrugada, às 02:40 do dia 02 de abril, faz um mês que a minha mãe partiu)


sexta-feira, 21 de março de 2014

alento


Tudo dentro está às tontas:
olhar lânguido,
peito febril,
palavra lenta,

desde quando o seu olhar,
feito uma centopeia
de um milhão de pés,
atravessou suave,
habitando de sentido novo

um dia
em que me faltava chão,
me tolhiam de céu,
e o mais elementar,
o elemento ar, me escapava.

Agora quanto mais capto,
menos penso.

O que te sai fortuito,
me rapta, intento.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

17 de junho



Este curta experimental fiz a partir dos registros realizados nas manifestações de junho em Belo Horizonte. Selecionado para o festival etnográfico Fórumdoc BH, dentro da Mostra "O inimigo e a câmera".


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

MANHÃ DE JANEIRO




Vídeo experimental, parceria minha com o amigo Renato Torres.



Manhã de janeiro

é por aquela centelha corredeira
estrela passageira, risco de alumiar
é desafio, novelo da sentença,
carcaça da poesia reluzindo no mar
corisco ardendo no ritmo do baque
no muque do requinte que toco pra cantar
cato regatos, igarapés, açudes
cascatas de altitude pra poder mergulhar

é por aquela vertigem que balança
estandarte na dança, folia de encantar
cabo de faca, miolo da semente
voagem do repentino sino que soar
soluço mole do desacontecido,
chocalho no vestido girando pra danar
que faço versos na manhã de janeiro,
no buliço ligeiro, cheiro de viajar.

letra de Renato Torres
música de Edir Gaya


vídeo e captura de áudio direto: Fabiana Leite
pós-produção de áudio/overdubs: Renato Torres - Guamundo Home Studio
gravado na Serra do Cipó-MG em julho de 2013


 



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

alfombra

 
Perscrutar Revolver
noite etérea, retorno
teu. sal
entra o corpo,
hálito ancestral.
                O mar, manso e morno,
velho hábito de nau, 
meu.

via con me



domingo, 5 de janeiro de 2014

etéreo


Põe no partir o passo em falso
a dobra o sonho acordado
o acidente.

Deixa ir e ficar seu legado

como um lugar sem nome,
um cão sem dono,
o parto inesperado de um filho
incontinente. 

Poema achado pra dar sentido

de tempo não perdido ao dia 
é aquele escrito mal dito
feito um rabisco em pedaço. 

O quanto disso é sério?, aceita austero

a paisagem deixada ao largo
da curva fechada desta
súbita viagem de barco.

Há sertão pra nunca ir

Ilíada inteira por ler
corpos cândidos vestígios
sabores de plantas colhidas
tudo virgem, cheiro de cru
pra jamais degustado.

A arte de reter é ser

e o seu espaço de ser
é para sempre se saber
devir.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013



superfície é onde o verbo
bóia de sem sentido,
asas pesadas, plumas molhadas
de uma vespa.

Despista o vazio
com o eco escancarado
de clássicos empoeirados,
urgências exotérmicas saciadas
com delírios marginais.

Funda é madrugada inteira acordada,
convulsões atônicas longe de casa,
inércia do sono em quarto de hotel.

dorme e acorda cem vezes
sem lugar em sonhos imbecis.

- de novo invadida por um poeta russo.





terça-feira, 24 de setembro de 2013

SHANTI


Entre sonhos inteligíveis
da última madrugada,
sentado numa calçada,
um menino de rua
me aparece austero.

Alguém que não vejo passa ao largo
e fogo sem haver porque atiça
nos membros miúdos 
da criança estirados.

Impávido permanece
o pequeno inerte.

Acolhe as chamas,
o dedo médio me lança
com olhar impassível
de foda-se a tudo,

e cruzando as pernas
se recolhe profundo 
à posição de lótus 
no mundo.

Pequeno ser preto 
de rua, singelo tibetano
com vestes em farrapos
e olhar de desapego.

Ele os olhos fecha
e sereno deixa 
em seu corpo 
se alastrar o fogo

frente à minha estática
contemplação.

O que quis dizer?

a mim,
este menino 
monge.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

DANDARA


Dandara comemora seus 4 anos de existência em 2013. Ocupação urbana com cerca de 6.000 moradores, esta comunidade se tornou referência nacional na luta pela moradia e teve sua história registrada em documentário do diretor argentino Carlos Pronzato, cineasta/ativista com mais de 30 obras realizadas, todas elas resgatando histórias de movimentos sociais e biografia de lutadores da América Latina. Assumi a fotografia still e imagens adicionais no filme. Acima, o link para o filme completo. E para conferir o meu registro como still, clique aqui.





quarta-feira, 21 de agosto de 2013

d e s i n f e s t o


nem tudo termina
na palavra

manifesto


antes o silêncio 

pousado numa letra
do alfabeto

ao vazio de um discurso 

escancarado

[vida longa ao olhar 
à espreita de um abraço]

Nana Boroquê,

Oyá, Oyá.