domingo, 9 de dezembro de 2012
emergência
O juízo foi tomar
um banho de mar
e mandou pastar
toda a monotonia.
Não se cura uma febre
com cobertor
e nem é pela porta
que se sai de um grande amor.
Nascemos lendas
e morremos saudade
enquanto
os olhares conspiram paisagens
em metades nunca percorridas
insinuando entre fagulhas
acasos com menos verdades.
Alegria é presente
nadando contra a corrente,
lição de vontades.
Quem sabe
se o certo é certo,
se o que nasceu vingou
e se pra cada cura
vale-nos deus
um novo ardor?
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Em tempo
Ao lado do caminho, percalço
Acima do deserto, solstício
Abaixo da multidão, um poço
A cinco metros de todos, um passo
Que se estenderá por ruas desertas
Até se apagar num indefinido adeus
De dentro dessa quinta-feira, sentido
De estar acordada, madrugada
Ao te saber no palco, enterneço
Meu avô morreu de velho
E eu nem sei se amanheço
De quando em quando, um gozo
Quando não corpo, verso
Se falta prosa, contorno
Se falta em dobro
desconverso
domingo, 25 de novembro de 2012
terceira margem
já é quase outro dia
e eu ainda sem dormir
presa moribunda
de uma insônia sem fim
ouço lá fora
uns primeiros passos
na rua coberta de neblina
me levanto ligeiro
e pela fresta da janela
avisto definidos
tornozelos
reconheço Zefa
com a mesma saia retalhada
onde inda ontem
enfiei meus gloriosos
dedos
mas onde vai tão cedo
e nessa pressa?
certamente pulou
dos fundos a cerca
não me aguento e saio
sorrateiro ao seu encalço
me escondendo à distância
na névoa gelada da madrugada
meia calça rasgada
puta que pariu!
como pode tão cedo?
ela desconfia e olha pra trás
eu me escondo num poste
porém sabendo descoberto
me revelo
ela grita e corre
eu estático permaneço
dou trégua de uns minutos
mas vencido pelo mesmo ímpeto
cego a me tirar de casa
sigo adiante encoberto
pela cúmplice fumaça branca
do tempo
ela vira a direita
e pega a viela que dá no Chico
Nhô Joaquim me cruza a rua
"Mordida de formiga
na cama, Juca Dido?"
eu sem responder sigo
ele se vai sem tino
desço o beco e
do espanto uivo um grito
Zefa se lança do mirante
mas antes me olha penetrante
com a cara inchada do murro de ontem
bem quando toda a neblina
por um sopro do diabo
se desfez
ela surge das águas
após o mergulho
e nada pra outra margem
lutando em fúria selvagem
nunca a vi assim tão brava
contra as correntezas do rio
do outro lado
um barquinho de pescadora
com uma velha senhora
a resgata
agora já não mais me olha
vai-se embora
e eu de cá a gritar feroz
até o barco se perder de vista
volta aqui Zefa volta aqui
na beira do rio sem passos
ficamos eu e seus longos e
vermelhos
saltos altos.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
modo de usar
Essa é a hora mais fria na cidade,
a hora em que na roça os galos cantam
e aqui de tão deserto
nem tanto já mais
se ouve.
Assunta isso, quando o dia nasceu chovendo
não trouxe junto a tristeza como chumbo
a sufocar a aurora com sua iníqua
falta de sentido,
esse peso morto
é seu e não
do tempo.
O que palavra diz não é dito
é coisa outra sem sentido.
De cá se vê lá embaixo
os primeiros traços
de gentes tomando a rua em assalto
indiferentes ao seu modo e estado,
descem da Pedreira
pra dar à cidade sua lida
enquanto inda sonham
com o calor do amor
- acreditam que tudo possa melhorar
e traduzem esse desejo em ato.
Alguém já se levantou
no apartamento ao lado,
côa café e tudo pra trás
deixou de elixir
essa brisa inda fria
que atravessa a janela
e te inspira um langor,
cuidado! Talvez seja sono
não nostalgia, vá dormir
e aprende a ler a pele
sem fantasia.
Todos os muros se esfacelam
agora ao redor do corpo
quando toma a cama
e nesse rio branco
lembrança embrulha e embala
saudade.
Chegou a hora de se perder
e se achar num corpo novo
que reconheça seu
inventário de afetos
como prosas sem contrapesos.
Na torneira da cozinha
a água goteja
insistente
e só agora escutas,
quando um oceano se perdeu
indiferente.
Aprende a ser reverso,
junta os pedaços de concreto
e telha altivo o dia
com signos menos enrugados
de invernos.
domingo, 7 de outubro de 2012
terra entre os dedos
O que quero digo o que sinto largo
não anseio fatos
nem acumulo acontecimentos
o que não faço escrevo
o que não cresço invento
emolduro línguas entre vozes e silêncios
Mas as vezes extrapolo e grito
faço o que não devo escancaro o dito
me desfaleço em verbo
desestruturo o vácuo
me lanço nua e vazo
digo o que pede o intento
Moro na pedreira e nem por isso, pedro
pensar é estar sendo
enquanto atravesso o centro
Por gastar palavras mil poetas cairão
Meu estado é de ouvinte,
condição de mendicante
mas um dia acerto o lixo
e dele erijo melhor léxico
Não saber onde ir
indé melhor que certeza errada
se não há caminho certo
me doura a lua
e se todos me levam avante,
adiante
De querer ser coisa é que coisa
esquece de ir sendo o que não se sabe ainda
e enformiga a pele em delonga espera,
incapaz de um talvez no fogo
Prefiro estar entre tantos
do que entulhando esquecimentos
Essa vida está velha
e se não se pode conceber outra
senão nesse mesmo plano
peço licença para fundar um Ato
destemor
desmantelo
desespero
desmascaro
Estou viva!
inda essa boca de flores
inda essa cólera de sangue
Enquanto lá fora
um mundo que me espera
e já não reconheço
me oferece um cale-se
- recuso o copo e me oferendo
Já parti dez vezes desde antes daquele dia
e nenhum caminho dissolve a memória
apenas anuncia prelúdio distante
De passaporte na mão
para atravessar a próxima fronteira
Amo sempre com muita pressa
porque posso partir de manhã
como Ciça e pra nunca mais
para qualquer cais
mesmo dentro do infinito
onde me aguarde um porto novo
repleto de barcos e navegantes
Sou mulher de muitas vidas
retirante
Mas quando o velho desejo me toma
já não mais atendo
aprendi a discernir o canto
do um sopro tonto de um vício
lamento
terça-feira, 2 de outubro de 2012
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
CIDADES INVISÍVEIS
Filme produzido por mim e Rita Boechat, exibido em Belo Horizonte e em Buenos Aires via streaming no Projeto Cidades Invisíveis no dia 24 de setembro de 2012. Segundo o regulamento, o vídeo deveria conter até 3 min e ser produzido dentro das 24 horas seguintes à inscrição. Por integrarmos o Núcleo de Arte e Ativismo Espanca e lá desenvolvermos ações com a população de rua de Belo Horizonte, optamos por trazer este olhar para a Mostra.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
PORANDUBA TUPINIQUIM
A ATEBEMG – Associação de Teatro de Bonecos do Estado de Minas Gerais acaba de realizar o Projeto Poranduba – Roda de Contos Indígenas com Bonecos, que apoiado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2011, desenvolveu ao longo de dois meses oficinas de criação e confecção de bonecos e montagem de espetáculos baseado nas histórias indicadas pelas comunidades indígenas dos Guaranis, Tupiniquins, Pataxó, Caxixó e Hãhãhãe nos estados de Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo. Convidada pela ATEBEMG, eu estive em Pau Brasil, aldeia tupiniquim localizada no município de Aracruz/ES, fazendo o registro fotográfico da vivência dos grupos de teatro com a comunidade.
A publicação deste trabalho está postada na minha página "Palavras sobre Coisas". Para conferir, clique aqui.
domingo, 19 de agosto de 2012
VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO
...O sertão parece
um só de cabo a rabo, em suas dimensões geográficas, lingüísticas e
históricas,
do linguajar inventado pra dar conta das suas rachaduras ao tempo que
parece estacionado na hora mais quente do sol. Ali consigo respirar o
mesmo ar de Guimarães, de Graciliano, de
Euclides da Cunha, o mesmo sol abafado, terra trincada e trejeitos da
seca
impressos num desmascaro que eu deposito ainda como herdeiros do Cinema
Novo...
sábado, 18 de agosto de 2012
ÉLAN
o mais extremo pode ser o mais provável, uma desaparição em teias de significado tecidas à própria mão. por isso nem sempre retorno das minhas viagens, posso ficar por lá, pois o que vejo não está grifado no que borda a sua língua, mas na minha fome dela, sentido
unívoco em instinto antropológico prenho de lógica e realidade. um homem sentado a escrever absorve a
memória e o pensamento de uma mulher. a visão
se faz pelo fora e dentro deste quadrado um homem que escreve será
sempre um homem que escreve, uma projeção de luz na sombra em noite sem
lua, sem poética, sem metafísica, sem nada. um deus da criação. a mulher traz uma polaroid e
registra os tons de cinza do homem. quem come quem nessa
história? eles abdicam de toda filosofia ao negarem entender.
antropofágica, ela rasga suas letras, tritura em seu sexo a prosa concebida em etimologia de silêncios. fotografia de escuros.
não somos seres cartesianos e sim selvagens em mil possíveis nós, uma
categoria plena em carência sensorial, vazia de personagens mas cheia de
encenações. image made. em síntese, bípedes que amam tomar chuva mas
erguem templos ao Sol, narcisos e obsessivos pelo semelhante - por isso a
gênese do barro: bichos guerreiros e egoístas cavernosos, mas inventivos e imagéticos. o homem pára de escrever. a mulher está estendida na cama mas se levanta em recusa a uma posição meramente passiva. ela é índia meio branca meio afro. e ele leão escorpião sagitário.
milênios antes de tudo.
milênios antes de tudo.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
PERCURSO DE SERPENTE
Andei por
vertente de terra
com o peito
nu a furar
jorro bravo de
rio
contra a nascente.
Estava tu lá,
jagunço
destemeroso,
tal a força
das águas
desde longe a
cumprir sua sina
de travessia
na seca,
desdobrando
o longo corpo
em
afluentes.
Encurvei
meus braços em seu tronco
e nele
cravei meus dentes
amolados como um
facão enferrujado.
Rasquei sua
veia,
bebi sua
seiva
amarga
e deixei de lutar,
agora
entregue ao sabor
do vento,
ao caminho
do mar,
ao movimento
livre
de Opará.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
SER-TÃO FOTO VIDEO
Torno pública a minha mais nova página de fotografia, espaço compartilhado com Rayza Lelis, parceira de trampo.
Para conhecer clique aqui.
Assinar:
Postagens (Atom)
