fotos produzidas com iPhone em sessão de cinema, no Indie BH 2011 - Festival de Cinema Internacional. Documentário "Daquele instante em diante", sobre o poeta, músico e compositor Itamar Assunpção.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
sábado, 3 de setembro de 2011
mulher de escamas
ele deve entender
antes de tomar pra si:
a literatura é um molde.
pura fantasia
de uma mulherzinha
que quer dar o bote.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
domingo, 28 de agosto de 2011
antes de amanhã ser
ela está despida e observa os restos. sobraram as roupas espalhadas no pequeno quarto onde se apresentam por pseudônimos. o homem se vira pra parede e dorme, mas se surpreende quando a vê indo embora antes do amanhecer. é indiferente, mas não o suficiente para deixá-la sair por aquela porta. o conhaque, pare de beber! ele toma o copo da boca sedenta a perguntar sobre o poço. escuta sem responder e se lembra de outras circunstâncias, mais felizes e nunca existentes. os mesmos quartos vazios cheios de futuro com ele a retendo em paredes cheirosas. braços rijos e mãos largas agora encolhidos: não comportam quase nada do outro. pede que tire novamente a roupa. ela tenta resistir. deite-se. a mulher beija a face do homem e é com ternura que o faz. nele, secura nos lábios de florestas interditadas. mas ainda assim insiste e a retém, fazendo-a pensar que o fim anunciado possa ser desimportante. “talvez sobrevivamos". "sim, talvez”. o sexo traz sempre uma certa suspensão do mundo. dormem silenciosos. não são de longos diálogos. a mulher o abraça por traz e o beija a nuca. fica assim, grudada nas costas dele. acredita que os corpos sustentam um pouco mais do nós. a noite traz um miúdo de vida. mas ele não a quer patética, mulherzinha. "se toca, garota!" um deles se põe de pé. “vou sair um pouco, você vem comigo?” “não, acho melhor não”. bate a porta e deixa o outro de lado.
repouso num deja vu
mínimos gestos. prepondera o oco e o medo expresso de que o corpo, entrega latente, reste inundado. a distância das camas, as pedras vermelhas arrancadas da veia do segundo sexo, as meias despidas dos pés gelados, a gota caída das horas da madrugada sobre os paralelepípedos, os nãos. dorme e acorda. o quarto continua ali, guardando o sono profundo do outro - não é pesadelo. quer fumar, quer se embriagar, mas a sobriedade é exigida - para fazer ver o descabido ato? quem é capaz de se lançar sabendo ao inferno acorda em chamas e ainda clama fogo. sabe? embate incógnito. náusea de corpo anestesiado de repente desperto. manhã de música de mágoa de máscara de manhas enquanto atravessa vales. o caldo servido na boca enquanto dita as regras da noite, as trevas da espera, o dia clarear sozinho. o desejo foi desviado e morreu em outra antes de nela ser saciado. ele é assim. quer entrar para tomar um café? e diz com voz mansa, de quem prepara a ceia enquanto degusta um vinho. vaga feito frases feitas. fora do eixo. mar de anas. sabe-se lá, momentos vultos, até os criados para fazer repousar. deita sobre o peito do outro mas não ouve o coração bater. o que representa o nada ali? se lembra de um deserto. mas o que busca, há de abismo nele. um poente jogado no mundo e sóbrio. cru feito a fome. e come. e verbo e tantos. a rua, o gueto, uma viagem, um furo incerto. flor de estufa, a sós e em bando. luta feito um poeta russo.
e ela de tudo coa
uma garapa de texto
um caldo de experimento para uma prosa depois do ato
abóbora com cebolinha
desafio para o fundo de uma artesã
tolas justificações para o instintivo sem plexo.
borda
trans borda
afunda bóia
tudo há de passar indo
mas enquanto ainda durante,
anda roendo o que concebia
por final e estanque:
o instante
tudo ar
de passarinho
(e quando ela cessar de escrever?)
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
despendida
Várias luas se passaram desde o dia em que ele, num tom seco ao telefone, disse para deixá-lo em paz. Desde então, o silêncio e a lembrança fina da noite em que sentados no passeio e pressentindo a longa separação que sucederia, viram o dia amanhecer, tendo ambos a cabeça pendida, como uma barda frouxa deixa à vista o desmoronamento. A luz, também frouxa, do dia que não quis se atrasar, impôs o último sorriso, fixado no portão da casa dele, quando a deixou entrever, tal qual uma vela num túnel escuro, um sopro de calor logo eclipsado pelo olhar morto.
Não era possível retornar lá onde o desejo a reteve nos primeiros passos porque todo o sentimento, dito mais puro, trazia o peso de um fim sentido, sem mesmo ter sido desde o início anunciado. O peso de um fim presente desde os seus mais jovens olhares, desde os seus mais virgens afetos, desde os seus mais crus sentimentos. O fim estava lá desde o prelúdio e estar ela abraçada à raiz só tornou mais profunda e sufocante cada partida.
Ela não sabia agir no torpor, apesar de tentar feito cega tateando a superfície, criar uma forma que a mantive de pé. A sensação era nova e estranha e trazia uma felicidade que sabia falsa, ilusória, irreal. Reticente e temerosa, se fechava como as flores se escondem do sol. Isso a tornava contraditória, porque havia um brilho novo no olhar, além de deixar escapar suspiros de alegria e abraçar com suas pernas a cintura dele, feito bicho que da plena inconsciência de não se saber nu, está nu.
No momento anterior à despedida, quando ao pedir uma última noite, um último encontro, ergueram o último olhar, ele prolongou o silêncio até vê-la em desespero, para somente aí, neste ponto em que se encontrava, ir tê-la em seus braços, com uma força que a sufocou. Por que faz isso comigo, perguntou? Alguns longos minutos se passaram assim, com o mundo paralisado no peito deles, retido, suspenso, prostrado com os cílios cerrados, para deixá-los tal qual uma estrela no universo, na solidão do último beijo.
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