o homem está lá. ela o vê e o seu meio sorriso silencioso a confunde. não trocam palavras, mas zanzam pelo ambiente sentindo o corpo do outro. às vezes os olhos se encontram pelo segundo necessário ao reconhecimento. instala-se uma pausa e no instante imediato volta a pulsão comum dos ritmos e das formas. cada qual ao próprio ser. ele toma o seu lugar na noite. com a intimidade de um menino que desde os primeiros anos conhece a direção dos ventos, senta-se no banco com o corpo ereto e possui o instrumento com a lentidão de quem cuida do silêncio. instala o violoncelo dentre as pernas e impõe os dedos nas cordas com a cabeça ligeiramente inclinada para ouvir o primeiro som nascer, como as primeiras luzes do amanhecer que somente a poucos se anuncia. sorri para uma amiga à mesa. parece um pouco tímido. emite o segundo som, pausa, emite o terceiro e se mantém um pouco mais nele. enfim a música. o homem toma cada canto das cordas como quem já vasculhou cada palmo de moradia das notas. enquanto toca somente em momentos raros estende o olhar ao redor e o retém em certos pontos no espaço, para voltar imediatamente a pousá-lo no peito, onde labuta com os braços em asas. a cada intervalo, aplausos e silêncio. ele não fala nada. é um pássaro. não há lembrança das primeiras frases, como não das segundas e terceiras. há um silêncio instaurado e alongado até lá si dó, onde talvez devesse a conversa já ter construído os mais bem fundados ditos. ali ainda repousa um vazio que utiliza de pequenos gestos. desconcerto de braços, sons monossilábicos, possibilidades múltiplas de significados. ela despede-se quando já a noite a fura. o pensamento trilhando perdido pela imensidão do desejo, pulsando por entendimento. não há tempo para entendimento. tem agora um caos que custa a se manter firme dentro. treme ao pensar. não é capaz de dizê-lo, com medo de que atropele o mundo, extrapole a carne e se imponha. precisa ainda caminhar de pé, não cair até que possa cair. há antes disso, antes de tudo, uma vaga lembrança apenas, de um precipício. sabia do poder da retina, do choque causado pela visão, do potencial de fogo de uma sequência acolhida pelos olhos, da dialética e do irreversível dos acontecimentos, queda abissal. preguiça de ter a vida inteira novamente sacudida, preguiça. mas tudo era ato inconsciente da desarrumação necessária. vontade pelo inusitado do mundo para além de si.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
terça-feira, 9 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
sábado, 30 de julho de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
terça-feira, 26 de julho de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
sexta-feira, 22 de julho de 2011
quinta-feira, 21 de julho de 2011
deixe sair, para depois entrar...
chega o tempo da despedida.
um dia depois do outro tornado mais próximo.
foi numa noite de domingo que tudo restou claro. quando já não cabia a mesma e velha resposta. o passado apareceu à frente, sentou-se na mesa ao lado e na atualização das vidas, a palavra soou desnecessária, porque cacofônica. não foi possível formular a primeira sílaba. melhor o efeito que ela causou, interno. tudo estava claro. tudo estava decidido e pronto. um dia inteiro de cama para organizar a febre e ser capaz de. foi e disse. e pronto. não havia mais o que esperar. e hoje a palavra soa leve. sentir-se íntegra para a mudança. saber que pode transitar sabendo que tudo permanece lá. nada depende de si. leveza. não sabe do depois, apenas da necessidade de lançar seu corpo em novos fluxos. disposição para caminhar. potência para novas lutas. avante!
"liberdade caça jeitos"
domingo, 17 de julho de 2011
FOTOGRAFIA
(ilha grande/rj, julho de 2009)
(cuzco/peru, janeiro de 2009)
Novas fotos publicadas no Flickr.
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segunda-feira, 11 de julho de 2011
foge de si, apesar de frequentar os velhos ambientes. não espera mais e pronto, tudo nada. a vida volta a ser razoável. e a mesma(?). as vezes um colapso, um surto, uma avalanche cobre toda a razoabilidade. na noite anterior deixou de resistir. a mão se abre, descontrai os músculos. a dor se fecha. hora de cicatrizar. e pra onde dissipar todo o ideal, tanta força? a semente não brota. como as águas de um rio salgado não matam a sede, servem para contemplar e dourar a pele e salgar a carne. fecha as janelas do peito e se deita. como se a embriaguez cessasse. descer do sonho. serve pra que, tanta lucidez? o que podia haver ali que a tirou do chão? nunca se chega ao longe porque ele de fato não existe - por isso sempre eh dada ao impossível, quanto eh dada ao nada, quanto eh dada eh dada. mas existe uma pedra no centro do infinito. ela existe e foi lançada na sua cabeça por quem acredita na forca das pedras.
"tire o seu abismo do abismo
que eu quero passar com o meu
abismo"
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