segunda-feira, 13 de junho de 2011

MICHEL MELAMED


apesar de ter um link seu neste blog, nunca escrevi sobre ele, então me permito agora porque havia tempos eu não o visitava e o fiz há pouco - sempre me delicio com seus textinhos poéticos, e quase morro de inveja da sua sagacidade. eu o acompanho desde antes dele se tornar (mais) famoso como ator global, quando ainda era (apenas) um entrevistador da tv cultura. e eu custava a me manter acordada, e às vezes era cássio quem me sacudia do meu já profundo sono, porque sabia do meu prazer em assisti-lo. nem mais sei se ele continua por lá porque eu ando meio desligada da tv, mas enfim... eu gosto desse menino, artista múltiplo, chamado Michel Melamed, sua forma leve e inteligente de interagir com o mundo. o seu site, também, é uma viagem - queria saber programar o meu com tanta liberdade! vale a pena se aventurar pelas bandas de . veja sua última publicação. e vc, o que responderia?


O jornal me convidou pruma pergunta pro Caetano. Mea culpa: corr(o)ido que estava e como o horário do envio não ficasse claríssimo,  cabei formulando de sopetão dez perguntas para que o repórter, se ainda houvesse tempo, escolhesse dentrelas. Creio que desrolou-se-ê – não tive notícias do desfecho. Assim, segue o decálogo perguntício. O que o Caetano responderia? O que você responderá? Okê okê Oxossi?

1.    Todo mundo é ou poderia ser artista?
2.    Que canção sua imagina mais cinematrográfica, portanto propensa para uma adaptação?
3.    Já te vi falando sobre tantos assuntos… Difícil imaginar uma pergunta novidadista… Assim, por exemplo, o que você acha de mim?
4.    Qual o sentido da vida?
5.    Tesão sem alcool é amor?
6.    É possível estar carente, mas estar legal?
7.    O que será “looping lips”?
8.    Por onde começar?
9.    Quer fazer o público sonhar?
10. Pra que serve uma entrevista no jornal?

PS - o melhor é imaginar as respostas de caetano para essas perguntas...

OUTRO TEXTO DELE


domingo, 12 de junho de 2011

ESSA NOITE MÃE CORAGEM - ZAP 18



Tive o privilégio de filmar essa peça teatral, no dia em que a ZAP 18 generosamente se abriu para receber o público do Programa Fica Vivo! A peça toca fundo nas questões da violência urbana marcada pelo homicídio dentre os jovens. É uma peça ética e esteticamente primorosa, com artistas muito talentosos e vigorosos e o mais bacana é estar instaurada na proposta de teatro de galpão e de "periferia", ou seja, radicaliza numa praxis que busca incorporar-se e interferir na dinâmica da cidade, a partir de um encontro simbiótico com o público. Essa noite mãe coragem é uma peça do dramaturgo Bertold Brecht e narra a história de uma mulher que sobrevive e cria seus filhos tirando pequenas vantagens da guerra do tráfico, até que um dia aquela violência que parecia apenas um produto a ser consumido, chega perto demais da sua própria prole...



segunda-feira, 6 de junho de 2011


tem vontade de pessoas. quer sê-las, quando a encantam. há uma certa atração, quase romântica, leve, fluida, um ímpeto de aproximação, um jeito de ser um pouco o outro, de respirar seus ares, deixar entrar sua voz, perceber o movimento do corpo, o ritmo do passo, a inclinação do sorriso, a permanência do olhar... há pessoas que quer apreender, escrever, fica assim, numa certa paixão, que já não assombra. movimenta, impulsiona, exige representação. uma paixão não necessariamente erótica, talvez mais literária e musical (o literário é musical), de quem vive um êxtase que exige letra ou nota. nada do que vive pode ser verdade, senão o desejo pelo irreal. quem sabe ainda está aprendendo como entender... quando se corre com os dedos em busca de um novo som, há necessariamente que se abrir para a composição, para a possibilidade.

como é o lugar
quando ninguém passa por ele?

tudo se combina, não há plano secundário, impressões múltiplas sobre sentidos e desejos, como se o tempo antevisto por deleuze agora fosse mais pleno para ela.

Delfos...
ou
um pequeno odisseu.

sem sono, a noite pede para escrevê-la. ligeiro temor causa esta vontade repentina. dar um nome para a sensação... sim, estilicídio! perceber com mais intensidade as relações de ser com tudo o que já é quando se deixa perceber – nisso talvez um pouco de Tao

primeiro pela retina, imediatamente pelos tímpanos, arrepio na epiderme, pulsação no peito esquerdo. depois do corpo, sabe-se lá por onde anda.

espera que [não] o tenha atado direitinho...


e sem saber para onde olhar
que também o canto

e o que dizer
que também a boca

e se choro ou rio
que também o mar.


"Ainda é cedo, ou quem sabe cedo é acordar...
quem sabe ainda é medo(...)

(...) Quem sabe se ainda é morna a água desse rio,
Se dele saindo sinto frio.

(...)Minh´alma afunda,
meu corpo flutua nestas águas
Como se o rio me dera asas... 

_Sou argonauta sem mapas nem destinos.
Quem sabe sou ave(...)
Ou quem sabe Sou apenas
uma dúvida a naufragar poemas(...)" j.


retorna às pautas... 
(já não tão bem atadas as mãos...) começar um novo fluxo, depois de novas impressões, que são também as mesmas já vividas. te encontra ali onde apesar de buscar palavras, elas faltam e resta um tempo ínfimo de silêncio que a suspende no ar, como folhas que voam sorridentes no seu pulo suicida, embaladas pelo vento e contentes quando um olhar encontra a dança na atemporalidade da queda. será que haverá uma mão logo ali embaixo para abrigar a flor? a (sua) mão terá sido um presente (a gratuidade dos gestos despretenciosos), porque a queda vale por si. segue em passos miudos, minueto...  Em queda livre, em calmaria... Por que vieste? Mas a vida já estava... Por que apareceste? A vida já me olhava... dúvidas às vezes tanto sobre o acaso, quanto sobre o dever-ser dos acontecimentos... será mesmo acaso ou o desejo que lê e fuça? será mesmo a ordem natural das cousas ou a ação mediante a vontade? o movimento é suave... e tem seu tempo, como há o das águas, o das chuvas. a moça ouve o ritmo do pulsar e vai. 

a música cessa quando queremos deixar de ouvi-la. 


a distância... distancia?...


confirma-se a suspeita no peito:
pode ser que a felicidade seja isso mesmo
o tempo das folhas

e dói um pouco ser tão pequena
mas às vezes é bom, que cabe nos pequenos cantos
- se esconde em ti sem que percebas 

hoje nada mais sabe...

decreta por fim a liberdade...

és livre, e o coração se desdobra mais em ser asas...

pensa no ser que disse ter sido criado, um ser indefinido, às vezes nublado, incorpóreo, assexuado... pensa se ainda não o envolveu com as linhas que borda desde o momento em que se sentou ao seu lado... pretendia um belo cobertor para envolver faíscas. não sabe ver este terceiro ser, sabe reconhecer apenas dois, sabe ver o ser que é e o ser que busca através do outro, e pede corpo.
mas o corpo também é literário.

não se assuste com as letras. pode ser objeto de pesquisa, de análise, apenas. tentar explorar ao máximo a sua resistência – ou o seu alheamento?... quem mandou compartilhar uma arma tão poderosa?



e o que escrever, se tudo pode ser considerado apenas objeto de estudo para futuras narrativas?


sexta-feira, 3 de junho de 2011

arranca a raiz e cai na profundidade da vastidão de tudo. o tempo está virando mas vê um filme de quando em vez. correm os dias, as noites parecem grandes para reter o seu nome - ela acorda antes do dia e presencia o nascer das horas correrem, como para testemunhar a passagem de tudo, para precipitar, enfim, o dia que guarda dentro, grávida de asas. ciúme. e pensa como será. como será se ver sem pés? uma mensagem, um pé de página. me deixa caminhar p'ro tempo, me deixa carregar o tempo. me deixa nunca descansar.

algum motivo para seguir.

não foi feita pra se estender na seca tipo rachadura. há muito deixou de querer dormir para maldizer o sono pouco. frio redentor de outono torna o deserto mais acolhedor. agora que se sabe remexida, sacudida, nada serve para estancar a neblina. mulher gaivota criou ondas. o que quer, bugigangas, apocalípse, marcha da liberdade na praia da estação. faz algazarras quando nada de novo haverá, senão... reconhecer a transição. nada é interior, iracema. casa de chá, banho de mar, canto lírico. grãos, teto, espaço. legião de famintos deve deixar um rastro, um sentido, uma ruptura, um desatino. nunca na vida fostes meu. mantra rogado em versos.


quinta-feira, 2 de junho de 2011

NINA SIMONE



volto sempre neste video. nina simone está linda! há harmonia entre formas e cores. as curvas de prata acima dos ombros redondos,  os arcos de borboleta sobre os cabelos, as bolinhas negras do vestido mergulhadas ao sol... a fotografia... as formas geométricas e coloridas ao fundo, os traços suaves do piano... a força radiante do cântico...

ela canta meu estado de muitas vezes... como hoje, como agora. o apartamento ficou grande. e é o mesmo silêncio de amanhã.



Ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweaters
Ain't got no faith, ain't got no beard
Ain't got no mind

What have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got?
Nobody can take away

I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

domingo, 29 de maio de 2011

DESVELAR O ESTADO DE SER



Ártemis parece se indispor 
e lutar com essa
que já domina há década,

Atena.

Afrodite, 
em luto por três amores,
se debruça no leito de 

Perséfone 
e toma do seu chá
curador.

Deméter é a mais distante, 
alheia, 
adormecida.
Certamente de todas, 
a que menos exige, 
cansada deve estar 
de parir por séculos,
tanto quanto 

Hera.
Essa aí, será que existe?

domingo, 22 de maio de 2011

de dentro da cachola


a moça jamais saberá por que ao homem era próprio as interjeições que a mantinha em suspensão, aprisionada na possibilidade de uma letra, de um nome, de um beijo, de uma mão, de um gesto. jamais saberá porque a anunciação dos lábios sempre esteve retida na reticência dos ruídos, nos desafinos das distâncias, nas  prisões das esperas. o gesto puro, soube existir e quase o tocou quando do último encontro, mas se perdeu no leito do rio para o silêncio. curvado restou o desejo, ante a força da ausência, do vai e vem dos dias, da imaginação frustrada. as páginas em branco eram cheias de possibilidades - viagens de trem ao mar. saberá reconhecer o cheiro das páginas guardadas há muito num sebo? reconhecerá as palavras, mesmo aquelas já vazias de sentido? desassossego. o bom é ler um livro novo. achou O Amante do Vulcão de Sontag na estante. vai ler pra aliviar as idéias, que andam fracas. o céu é o mesmo e talvez tenha havido só uma ligeira coincidência, mas essa brincadeira do caos corrompe toda a lógica que tenta ela imprimir aos fatos - não é possível ser razoável deste lado do espelho? ele anda distante. é noite de domingo, há um silêncio na rua, um frio na cama, um bem estar de solitude com esse chapéu novo. um excesso de confiança no que virá, uma força que a empurra além - reconfiguração do que se pensava em desarmonia, reposicionamento dos signos, reorientação de sentidos e afetos - que sejam antropomórficos e absurdos, desde que imprimam o mágico, o lúdico, o verso. quando a vida parece (de)codificada, é hora de escolher uma chave nova, alice.



terça-feira, 17 de maio de 2011

CONDESCENDÊNCIA

quando me debruço sobre os (seus) escritos, 
quase surto. 
e me enterneço. 

o mesmo céu.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

POEIRAS

de repente silêncio. a casa está quase deserta. o chão branco sustenta a poeira da inércia e as roupas e pratos espalhados pelo quarto, o estado mental - "sente-se livre para fracassar". sucumbe ao turbilhão do movimento, desiste de fingir querer estabilidade e tudo se mostra frágil ou há a mesma força desconhecida e já uma dezena de vezes proclamada que a move - talvez haja perversão, destrutivismo, patologia, mas paga pra ver. expõe o olhar ao sol, até quase cegar o tato. a dor não está na ausência do outro, nem na solidão do corpo caído colérico no colchão de ar da noite. nem há dor, só movimento. e depois do último passo, um desejo profundo de dormir por dias, pra não ter que pensar, pra não ter que escrever, pra não se propor a entender nada, porque entender não torna menor a responsabilidade, mais a expõe, mais a compromete, mais a molda em estruturas. quando o essencial não pode ser transformado, ou porque não se quer, ou porque se finge não poder, as ondas ofuscam o essencial, tornam o que se pensava mais importante, menor, talvez porque ali se possa mexer mantendo-se de pé, ou porque só seja possível mexer naquilo que não a torne vulnerável à capacidade de auto-determinação. o pavor é estar à mercer das horas. o trabalho quase sempre a mantém conecta com o mundo, com as mazelas do mundo e se debruçar sobre o mundo é uma maneira de tentar compreender a si como parte de um corpo e não como essência de tudo. saber-se pequena. a dor já não faz sentido. desapega-se dos pesos, como se à deriva num barco, tendo que despejar sobre as águas do mar os objetos mais amados, porque disso depende poder contemplar por mais tempo e com lucidez o mundo. é um dizer sim à vida, é um desafogar-se das paranóias, dos vícios mentais, das tragédias afetivas que só alimentam despontência. é preciso aprender a viver sem dor. sem culpa. é preciso desconectar-se dos pensamentos viciados, das obsessões, dos purgatórios, das condenações ao inferno, dos diabos. deixar de morrer todos os dias para dormir em paz, dizendo um sim ao próximo dia. permitir-se dormir. permitir-se amar de novo. permitir-se ficar bem e só, mesmo amando amando amando. varrer a poeira da casa, ser capaz de arrumar o quarto, viver um outro sem matar-se no outro. é preciso integridade para não ser o que não se quer ser, para não se ferir por temer ferir o outro. porque os dias são breves. e há uma curva logo ali em frente.