quarta-feira, 6 de abril de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
imagem e ação
"é da experiência existencial, direta,
concreta, dramática, corporal
que nascem em conclusão
todos os meus discursos ideológicos."
(Pasolini)
de engajamento social e político, sensibilidade existencial,
ruptura com as formas, imagem disforme, anárquica, visionária,
não são apenas para serem vistos. à sua leitura, avante!
terça-feira, 29 de março de 2011
MUNDO PEQUENO
e
oscilam como se.
despejam
pequeno não é o mundo
mas o arame que o cerca
e torna a terra pouca
o pão farelo
a fome seca
os dedos exigem verbos
mas há quem aspire felicidade
e você, tem fome de quê?
a mulher submersa -
retornará?
ela sabe encontrar (mais) sentido fora do apreendido -
é mister fazer implodir o muro, dilacerar o asfalto
disseminar o vazio
suprimir o dado
lançar a mão na sombra
fazer vazar o jorro
exterminar o medo
dispensar o tédio
a hora
a norma
o pouco
o seu silêncio
ecoa como sino dentro.
grita
quando o sono não vem
sobra a madrugada
e a lembrança do outro -
porque a utopia não é apenas um horizonte
mas o movimento contínuo de corpos
há momentos em que tudo beira ao precipício
mas chega a voz de um cantador,
chega o olhar de um visionário,
chega a lucidez de um artesão
e te empurra para um pouco mais de sol,
menos de si.
há noites em que os sonhos atropelam o descanso
e tornam o acordar difícil -
atravessar os dias
pode ser um passo
já os gritos da força, uma jaula.
você acredita que haja liberdade,
você até ousa a liberdade.
e vai.
sabe que não há fim da história.
no máximo, o seu próprio se
e a angústia que a oprime é
o que terá feito desta ínfima passagem
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"Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar.
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos" (drummond)
domingo, 27 de março de 2011
PAU BRASIL, por Edgar Navarro
Entro na roda pra saudar o amigo cineasta Sílvio Tendler por sua
brilhante e esclarecedora entrevista publicada no último número da
revista caros amigos - matéria de capa.
Muito feliz também porque Sílvio cita PAU BRASIL, de Fernando Belens,
entre os melhores filmes brasileiros realizados nos últimos anos (ao
lado do filme de Vladimir de Carvalho sobre José Lins do Rego: "O
Engenho de Zé Lins").
Por ocasião do lançamento do PAU BRASIL escrevi um texto, ainda sob a
emoção da estreia do filme no Seminário Internacional de Cinema de
2009, no TCA. Tentei publicá-lo no JB, mas não tive a acolhida que
esperava. Filme baiano não é assunto em jornal do Rio, a menos que
tenha QI. Aliás, continuo pasmo com o fato de o filme ainda não ter
tido o destaque que merece. O silêncio é constrangedor. Talvez agora,
com o comentário tão elogioso de Sílvio, a imprensa e os
distribuidores comecem a perceber o potencial do filme no circuito de
arte, mercê de seu valor artístico e cultural, etc.
Aproveito o momento pra publicar aqui o texto que não consegui
publicar no jornal. Li-o com olhos de hoje e continua atualíssimo em
relação ao que sinto por ele.
Viva o Cinema de Fernando Belens! Aliás, também Anil foi elogiado por
Jean-Claude Bernadet ao comentar o boxe dos 100 anos do cinema baiano
em seu blog. E pra minha grande alegria, juntamente com o Superoutro.
E PRESTEM ATENÇÃO: PAU BRASIL é maior do que nossa rusga, nossa richa,
nossa mesquinhez, nossa farinha pouca meu pirão primeiro! Ele nos
nivela a todos num patamar de carências, virtudes e vícios, num canto
terno, viçoso e amoral, desbundante, cinematograficamente
irrepreensível. Somos diversos, paciência – o mundo é assim. Sejamos
mais generosos, compassivos. Não haverá cinematografia bahiana (com ou
sem h) se não formos capazes de olhar pra o que os outros estão
fazendo. Cada um tem seu recado e é importante que todos sejam ouvidos
. Uns mais bem urdidos, outros menos... Mas o silêncio é uma forma de
assassinato cultural. Não existe o tempo certo pra se fazer arte: uns
começam tarde, outros não ganham o mercado - ganham a eternidade;
outros nem mel nem cabaça, y asi es la cosa. Sei que muitos estão
pensando apenas em como se dar bem. Mas um filme que nem esse nos
toca, nos empurra prum lugar de transcendência... Que sei eu? Sei que
o silêncio é redondo, surdo, estúpido, cabal, miserável e covarde;
acima de tudo covarde.
Por enquanto, Fernando, vou dizer o que vc já está cansado de saber:
fiquei extremamente comovido naquele noite, quero ver o filme duas,
três vezes; acho-o belo, sensível, competente, maduro, digno de todas
as honras com que se brindam as grandes obras do trato humano.
Axé!
Edgard Navarro
(para ler a entrevista na caros amigos, com silvio tendler, clique aqui)
ODE A HILST
segunda-feira, 21 de março de 2011
areia areia areia e mar
ela pode se perder achando que está tudo certo,
pode morrer de mar, no deserto,
pode até querer mudar achando encontrar
o que sabe ter perdido ao ter.
ela pode se perder
ela pode se perder
sábado, 19 de março de 2011
extravio da razão ocidental
Atar as mãos ao mastro,
deixando livres os ouvidos.
Ah, minha cara,
erro grotesco!
Quando toma os ouvidos,
o som desata nós.
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tédio de Khayyam, por Pessoa:
"O amor agita e cansa,
a ação dispersa e falha,
ninguém sabe saber
e pensar embacia tudo."
segunda-feira, 14 de março de 2011
Que yo cambie no es extraño
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana"
sábado, 12 de março de 2011
meu nome é tumulto
queria ter forças para um pôr de sol no guaíba,
mas não cabe nada mais de bonito sobre
- a luz pode ofuscar a ínfima gota de lucidez.
quando se percebe haver possibilidades,
o que dita a escolha?
sim, prefiro um chá
em quarto escuro
e sua pele quente dentro.
uma escadaria separa o corpo do poço,
tudo o que precisa é se levantar e marchar
- adia a noite, sabendo-a sem fundo.
a utopia inda navega calma
nos olhos de quem silencia.
agora a noite chegou
- mergulhar.
em porto alegre algumas palavras
sobrevivem coletivas
- escritas em pedras
até parece que foi ontem
engolido por meu coração aflito
prepara-se para o encontro:
iminente"
sexta-feira, 11 de março de 2011
terça-feira, 8 de março de 2011
8 DE MARÇO
, que saía às sexta-feiras e só retornava às segundas e eu precisava educar a menina porque se eu não der jeito quem mais vai dar, e eu também acho que mais vale você que é a mãe bater do que depois apanhar de policia, minha filha falou para a polícia que eu bati nela de pau e eu não bati porque eu tenho três filhos e eu nunca encostei a mão neles só nela que dá muito trabalho porque muito pior é o que eu passava com o pai dessa menina porque eu sou separada, mas meus três filhos são filhos de um homem só e eu até quis voltar para ele, mas ninguém agüenta porque aquilo é que era apanhar ficar amarrada na cama enquanto ele ia trabalhar e eu dei um tapinha ó um tapa de mãe e a menina começou a gritar e os vizinhos chamaram a polícia
é porque eu sou muito é besta porque não coloco minha filha para fora mas tem o meu netinho que eu amo sou louca por ele e se ela for me leva o menino então eu deixo ela ficar mas o que eu queria era um pouco de sossego porque ela me bate eu sou fraca das pernas e ela tem 41 anos. E a senhora veio como vítima ou agressora? Como que é minha filha? A senhora veio como vítima ou agressora? Eu vim porque me mandaram, mas ela não veio não ela disse que não vem
eu deveria estar cuidando do meu filho porque é um absurdo eu estar aqui é por isso que eu não acredito na justiça
eu fiz e assumo porque eu calculei bem e não me arrependo porque eu não gosto de quem maltrata os meus bichos porque os bichos são a minha companhia eu gosto dos meus bichos eu alimento os meus bichos eu molho as minhas plantas e a minha casa é minha desde antes de eu nascer e é por isso que eu moro lá e meu pai não agüentou e foi embora mas eu fiquei por causa dos meus bichos e as pessoas precisam arrumar alguma coisa para fazer e eu sou uma guerreira porque ontem assinei minha primeira carteira de trabalho eu esqueci de dizer uma coisa importante sobre mim eu sou do candomblé e eu acho importante falar isso eu gosto de falar isso cada um com a sua religião
ele me deixava amarrada na cama todos os dias e eu sei que ele não fez isso com mais ninguém porque ele sofreu demais quando eu o deixei e mais de dez anos ele ficou atrás de mim e eu sei que ele não bateu em mais ninguém porque ele sofreu e se arrependeu e teve outras relações e não bateu em mais ninguém
narrativa de um sentimento no pretérito mais que perfeito. multiplicado, porque mesmo o rio não pisa duas vezes no mesmo sentimento...
era necessário sair do labirinto em que se enfiara e participar de algo além daquele olhar, que ele só aprofundava o caos. sabia o risco de faltar palavra, contudo faltava e sentindo-se alheia do mundo flutuava pelos dias beirando cair pelas pontas. andava pela corda bamba, perdida ante a possibilidade de se estender no outro. temia a sua desintegração, sorria tímida e virava o olhar, era melhor sobreviver no eu. temia, mas o olhar sempre escapulia, ia ter lá, onde mesmo se desconcentrava. e havia também o sorriso, sutil, quase talvez menos que um sorriso, um semi-sorriso, um estado ainda não definido de leve comunhão. um estado talvez onde a palavra delicadeza caiba. e era a soma então do silêncio, com o olhar, com o semi-sorriso de delicadeza e também o céu que ele define a profundidade, era a noite todas as noites e ele dentro do breu. e ela sem saber direito se ia, mas bastou seu gesto, simples gesto de sim para que ela fosse, gélida de medo, sem querer mudar de rumo, mas indo. houve um ligeiro toque de mãos, abertura das retinas, diálogo despretensioso com vozes mornas e o calor de nada ter acontecido. só a vontade. e o temor ante o desconhecido, a possibilidade de mudar o destino.
era necessário sair do labirinto em que se enfiara e participar de algo além daquele olhar, que ele só aprofundava o caos. sabia o risco de faltar palavra, contudo faltava e sentindo-se alheia do mundo flutuava pelos dias beirando cair pelas pontas. andava pela corda bamba, perdida ante a possibilidade de se estender no outro. temia a sua desintegração, sorria tímida e virava o olhar, era melhor sobreviver no eu. temia, mas o olhar sempre escapulia, ia ter lá, onde mesmo se desconcentrava. e havia também o sorriso, sutil, quase talvez menos que um sorriso, um semi-sorriso, um estado ainda não definido de leve comunhão. um estado talvez onde a palavra delicadeza caiba. e era a soma então do silêncio, com o olhar, com o semi-sorriso de delicadeza e também o céu, que ele define a profundidade. era a noite, todas as noites e ele dentro do breu. e ela sem saber direito se ia, mas bastou seu gesto, simples gesto de sim para que ela fosse, gélida de medo, sem querer mudar de rumo, mas indo. houve um ligeiro toque de mãos, abertura das retinas, diálogo despretensioso com vozes mornas e o calor de nada ter acontecido. só a vontade. e o temor ante o desconhecido. a possibilidade de mudar o destino - se é que destino existe... (e é aqui que o sentimento se contorce e pula do rio, cançado da ilusão das águas paradas - mas quem pensou que tudo era igual, não leu cru)