segunda-feira, 21 de março de 2011

areia areia areia e mar


ela pode se perder achando que está tudo certo,

pode morrer de mar, no deserto,
pode até querer mudar achando encontrar
o que sabe ter perdido ao ter.

ela pode se perder
ela pode se perder

sábado, 19 de março de 2011

extravio da razão ocidental


Atar as mãos ao mastro,

deixando livres os ouvidos.

Ah, minha cara,
erro grotesco!

Quando toma os ouvidos,
o som desata nós.


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tédio de Khayyam, por Pessoa:

"O amor agita e cansa,
a ação dispersa e falha,
ninguém sabe saber
e pensar embacia tudo."

segunda-feira, 14 de março de 2011

Que yo cambie no es extraño



"Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana"

(Mercedes Sosa)

sábado, 12 de março de 2011

meu nome é tumulto


queria ter forças para um pôr de sol no guaíba,
mas não cabe nada mais de bonito sobre
- a luz pode ofuscar a ínfima gota de lucidez.

quando se percebe haver possibilidades,
o que dita a escolha?

sim, prefiro um chá
em quarto escuro
e sua pele quente dentro.

uma escadaria separa o corpo do poço,
tudo o que precisa é se levantar e marchar
- adia a noite, sabendo-a sem fundo.

a utopia inda navega calma
nos olhos de quem silencia.

agora a noite chegou
- mergulhar.

em porto alegre algumas palavras
sobrevivem coletivas
- escritas em pedras

até parece que foi ontem


"meu corpo inteiro
engolido por meu coração aflito
prepara-se para o encontro:
iminente"


sexta-feira, 11 de março de 2011



belezas são coisas acesas por dentro. mas o dentro é triste, é imenso, é sem fundo, como esse céu que percorro agora, à caminho de mim, com destino quase certo para um pouso sem sol, chuvoso, em porto alegre. a busca, não cessa ela jamais de buscar. um fado de liberdade. me cansa o beco, o oco, o sem fim. e lá vai o corpo de novo. reminiscências de outros encontros, de uma mesma busca. o que espera que haja lá, que não pode encontrar só e dentro? o que espera que haja no outro, que somente no outro pode parecer em si? no outro distante, avesso, inverso, reverso, longínquo? é por que se cansa de si? como se cansa de tudo o mais? esse mundo não é seu. vai voltar a procurar. sabe não haver descanso. a batalha é de enquanto durar a pele. se entristece consigo. a culpa não é sua, amor, o buraco está nela. vai só, pra não te importunar com as andanças, porque a plenitude nele engana, oprime, esgota. se sente menor, pior, mera parte sem fundamento jogada num labirinto de corredores sem cores. enquanto você dorme o sono perfeito dos seres que flutuam, os olhos da moça, acesos na madrugada, já pesam. há um céu azul ali fora do avião, há um mar de nuvens brancas que a cegam. de novo suspensa da terra. não teme sair do chão, mas ainda não aprendeu a voar. sempre há dor quando se arranca de si, sempre há dor quando arranca o afeto para sentir a pele crua, mas não aprendeu a ser diferente. ainda acha que pode haver algo melhor no desconhecido, lá aonde ainda não ousou tocar, não ousou pisar, aonde não está. o que há de melhor estará sempre além, porque no fundo o que há é a certeza do aprisionamento – precisa se livrar de si porque a única certeza que existe é a da clausura. a própria mediocridade a oprime – qualquer visão ou sensação nova já é melhor do que o que a retém. o sentimento de culpa sufoca. tenta fugir. e foge. mas quando chega no espelho novo, nunca antes refletido, depara-se com as mesmas rugas se formando no canto dos olhos. um certo cansaço, um sono que somente os quartos de hotéis ou uma barraca velha de lona são capazes de curar. há um mar lá fora. e quem acha que perder é ser menor na vida? pretendo voltar melhor e poder te abraçar mais leve. mas já não quer mais ser uma vencedora. Permite-se viver bem pequena. o bonito é ser pequena, baby. prometo tentar me acalmar até a próxima vez... mas jamais me verás íntegra. vivo o turbilhão, todo o turbilhão dos espíritos presos à terra.
saí do sol. agora percorro uma zona de instabilidade, nuvens cinzas. chuva. adentrei em mim. bem que você me avisou. mas eu não quis escutar – sempre opto pelo caos. todos me condenarão.
hoje é aniversário do meu-bem-querer. o amor sempre é um refúgio. eu estou longe, mas o longe é um belo lugar para se sentir perto.


 

terça-feira, 8 de março de 2011

8 DE MARÇO


, que saía às sexta-feiras e só retornava às segundas e eu precisava educar a menina porque se eu não der jeito quem mais vai dar, e eu também acho que mais vale você que é a mãe bater do que depois apanhar de policia, minha filha falou para a polícia que eu bati nela de pau e eu não bati porque eu tenho três filhos e eu nunca encostei a mão neles só nela que dá muito trabalho porque muito pior é o que eu passava com o pai dessa menina porque eu sou separada, mas meus três filhos são filhos de um homem só e eu até quis voltar para ele, mas ninguém agüenta porque aquilo é que era apanhar ficar amarrada na cama enquanto ele ia trabalhar e eu dei um tapinha ó um tapa de mãe e a menina começou a gritar e os vizinhos chamaram a polícia

é porque eu sou muito é besta porque não coloco minha filha para fora mas tem o meu netinho que eu amo sou louca por ele e se ela for me leva o menino então eu deixo ela ficar mas o que eu queria era um pouco de sossego porque ela me bate eu sou fraca das pernas e ela tem 41 anos. E a senhora veio como vítima ou agressora? Como que é minha filha? A senhora veio como vítima ou agressora? Eu vim porque me mandaram, mas ela não veio não ela disse que não vem

eu deveria estar cuidando do meu filho porque é um absurdo eu estar aqui é por isso que eu não acredito na justiça

eu fiz e assumo porque eu calculei bem e não me arrependo porque eu não gosto de quem maltrata os meus bichos porque os bichos são a minha companhia eu gosto dos meus bichos eu alimento os meus bichos eu molho as minhas plantas e a minha casa é minha desde antes de eu nascer e é por isso que eu moro lá e meu pai não agüentou e foi embora mas eu fiquei por causa dos meus bichos e as pessoas precisam arrumar alguma coisa para fazer e eu sou uma guerreira porque ontem assinei minha primeira carteira de trabalho eu esqueci de dizer uma coisa importante sobre mim eu sou do candomblé e eu acho importante falar isso eu gosto de falar isso cada um com a sua religião

ele me deixava amarrada na cama todos os dias e eu sei que ele não fez isso com mais ninguém porque ele sofreu demais quando eu o deixei e mais de dez anos ele ficou atrás de mim e eu sei que ele não bateu em mais ninguém porque ele sofreu e se arrependeu e teve outras relações e não bateu em mais ninguém


narrativa de um sentimento no pretérito mais que perfeito. multiplicado, porque mesmo o rio não pisa duas vezes no mesmo sentimento...

era necessário sair do labirinto em que se enfiara e participar de algo além daquele olhar, que ele só aprofundava o caos. sabia o risco de faltar palavra, contudo faltava e sentindo-se alheia do mundo flutuava pelos dias beirando cair pelas pontas. andava pela corda bamba, perdida ante a possibilidade de se estender no outro. temia a sua desintegração, sorria tímida e virava o olhar, era melhor sobreviver no eu. temia, mas o olhar sempre escapulia, ia ter lá, onde mesmo se desconcentrava. e havia também o sorriso, sutil, quase talvez menos que um sorriso, um semi-sorriso, um estado ainda não definido de leve comunhão. um estado talvez onde a palavra delicadeza caiba. e era a soma então do silêncio, com o olhar, com o semi-sorriso de delicadeza e também o céu que ele define a profundidade, era a noite todas as noites e ele dentro do breu. e ela sem saber direito se ia, mas bastou seu gesto, simples gesto de sim para que ela fosse, gélida de medo, sem querer mudar de rumo, mas indo. houve um ligeiro toque de mãos, abertura das retinas, diálogo despretensioso com vozes mornas e o calor de nada ter acontecido. só a vontade. e o temor ante o desconhecido, a possibilidade de mudar o destino.

era necessário sair do labirinto em que se enfiara e participar de algo além daquele olhar, que ele só aprofundava o caos. sabia o risco de faltar palavra, contudo faltava e sentindo-se alheia do mundo flutuava pelos dias beirando cair pelas pontas. andava pela corda bamba, perdida ante a possibilidade de se estender no outro. temia a sua desintegração, sorria tímida e virava o olhar, era melhor sobreviver no eu. temia, mas o olhar sempre escapulia, ia ter lá, onde mesmo se desconcentrava. e havia também o sorriso, sutil, quase talvez menos que um sorriso, um semi-sorriso, um estado ainda não definido de leve comunhão. um estado talvez onde a palavra delicadeza caiba. e era a soma então do silêncio, com o olhar, com o semi-sorriso de delicadeza e também o céu, que ele define a profundidade. era a noite, todas as noites e ele dentro do breu. e ela sem saber direito se ia, mas bastou seu gesto, simples gesto de sim para que ela fosse, gélida de medo, sem querer mudar de rumo, mas indo. houve um ligeiro toque de mãos, abertura das retinas, diálogo despretensioso com vozes mornas e o calor de nada ter acontecido. só a vontade. e o temor ante o desconhecido. a possibilidade de mudar o destino - se é que destino existe... (e é aqui que o sentimento se contorce e pula do rio, cançado da ilusão das águas paradas - mas quem pensou que tudo era igual, não leu cru)


CONTO FEITO A DUAS MÃOS.


- Dê-me o tom – pediu ele, estirado no sofá.

Era já tarde, mas ainda sequer o almoço. Café com pizza de noite anterior, alguns livros folheados, conversas e sofá.

- Não, dê você, o início é sempre mais complicado.

Ele tomou o violão, dedilhou as primeiras notas: blam, blam. Assobiou. Cantarolou uma espécie de samba-canção, desafinado, enfadado...

- Pronto. Agora é com você. Isso tem tudo haver com você. Acho que isso tem tudo haver com você, mesmo. Acho mesmo.

- Sim, mas queria um outro ritmo, mais lento, meio bossa-nova, vá, diminua um pouco este batimento, e sua voz, põe ela mais suave.

- Ah, a minha voz não tem jeito.

Outros três blans, blans, blans. E a canção solfejada começou. Enquanto ele tocava, Clara já compunha na cabeça uma estória de moça na janela e rapazes na madrugada. Nada que evocasse o barquinho-vai do velho Rio, mas, no fundo com a mesma atmosfera de noite quente, disponibilidade e desaviso daqueles tempos. Clara vagava numa vaga idéia de felicidade fresca, como só se sabe na infância e no começo de quando se namora.

- O quê você acha? – Clara sussurrou o texto.

- Acho que não estamos no mesmo espírito, talvez... Ele lhe passou o violão. – Toca um pouco, põe aí uma melodia, está bonita a letra, acho mesmo que dá música, mas faz aí, vou pegar uma bebida. Ele saiu da sala, deixando Clara sentada no tapete.

- Ei, volta, vai, eu quero a sua voz, não a minha.

A canção ficou pronta em minutos. Quando ele voltou, depois de longo itinerário entre a cozinha e o quintal, o quintal dos cachorros e o quarto, o quarto e a cozinha, encontrou folhas de papel com a letra miúda de Clara sobre o tapete, Clara com um riso bobo e as pernas cruzadas, o vestido entre as coxas, a dizer:

- Sente-se, grandão, escute.

Ela mudou num segundo a voz, indo buscar um tom quase sussurrado, lento, arrastado, quase mudo. Ele se aproximou, se sentou também no tapete para ouvir a voz e vê-la entre dedilhados, sorriu, sempre achava engraçado como aquela pequena mão percorria as linhas, meio desengonçada, esticando os dedos para tocar um sol.

- Uma bela canção – disse – bela canção – o olhar dele perdeu-se num ponto imediatamente anterior às flores do vestido de Clara e ali ficou uns instantes – Penso que quando a gente se perde na música é porque ela deu certo. A música, acho, tem esta função de nos tirar daqui. Não sei, não sei se é assim, mas que ela nos atira para algum lugar que não é aqui, isso sim, acho que sim, eu sei.

Clara pousou o violão ao lado da sua perna esquerda, deixando escapar, sem querer deixar perceber, um sorriso feliz, enquanto sua cabeça tendia para o chão onde ia abrigar-se o instrumento. Levantou-se repentinamente. Ele também. Os dois seguiram pelo corredor extenso, ele cantarolando a canção nova enquanto ela arrancava as flores que lhe cobriam a pele.


segunda-feira, 7 de março de 2011

GRAFISMOS


enquanto tenta se concentrar nos estudos,
um ser híbrido pula do lápis. na folha.
quando as palavras não servem.
linhas há. um olhar também. perdido.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

03 de julho

Ele apagou a luz, às seis da manhã e fechou a porta, despedindo-se da sua vida. Sobre a mesa, um recadinho. “Presente! Beijo.” Um caderno de anotações dos mais belos que ela já teve. Quais palavras o preencherão? Poderia começar por estas, mas não ousa, ainda, rabiscá-lo. O quer virgem, por uns tempos, distante do inevitável texto.

Ela chegou de Fortaleza depois de uma viagem bela e cansativa, de cinco dias. Por ter viajado por toda a noite, estava sonolenta e no momento em que ele também chegou, à noite, vindo de um trabalho em São Paulo, a encontrou deitada. O beijo foi frio, como já o era por tantas vezes neste último ano. Estava distante e preocupado, por ter que no próximo dia cedo, seguir para nova viagem. Imediatamente, pôs-se a arrumar a mala, enquanto ela, deitada na cama, acompanhava-o com os olhos. Ele falou do sucesso da reunião daquele dia. Ela discorreu rapidamente sobre o congresso e expôs o que era para si a grande novidade, uma nova proposta de trabalho. Ele ouviu sem reação, mas ela sentiu pelos suspiros que ele balbuciou, seu incômodo com a possível confirmação deste fantasma que os assombravam. A reação dele a fez dizer num tom suave, do egoísmo nele por não demonstrar contentamento com o caminho que poderia se abrir para ela. Apenas já não é novidade tal possibilidade, uma vez que já conversamos sobre isso inúmeras vezes, disse ele e se deitou ao lado dela.

- Raiva não. Estou pensativa e reticente.

- O mundo inteiro sabe que esta será a última noite que dormiremos juntos.

Esta frase instaurou a certeza e o silêncio. Neles, um misto de cansaço e dor. O fim, já tão evidente e discutido, tomava assento.

- É difícil acabar sem culpar o outro. Findar com acusações é mais fácil, torna mais confortável e compreensível o rompimento - Falava isso enquanto tentava compreender quem deles era o responsável, segurando um ímpeto de culpabilizá-lo.

- De fato, eu não te culpo. É o que é. Insisti até aqui por ser você. Estiquei a corda até onde era possível. Já não é mais. Uma pena, porque você é muito para mim.

O sexo foi lento e doce. Ela chorava enquanto ele lhe percorria a pele. Cada ato era sentido como último e isso os faziam perder, por vezes, o ritmo. No gozo, ela soluçou entre lágrimas. Ele a abraçou.

Ela agradecia, em silêncio, o fim, pelo formato que assumia. Poder encontrar o mesmo amante do início, ao final, era uma sensação rara, poucas vezes degustada. Dormiram abraçados.

- Sentirei falta de muitos momentos, disse ele. Mas sei do que mais sentirei falta. Das suas mãos.

Ela sorriu, ainda em lágrimas e manteve seus dedos nos olhos dele.

O despertador tocou às cinco. Antes dele sair para nova viagem, veio até a cama, abraçando e beijando-a.

- Eu não quero me despedir de você.

Ele saiu do quarto, caminhou em direção à porta, apagou a luz da sala e, antes de fechá-la, deixou sobre a mesa um recadinho. “Presente! Beijo.” Um caderno de anotações dos mais belos que ela já teve - ainda virgem, como se a história a ser escrita já tivesse perdido o sentido ou não houvesse palavra capaz de pronunciá-la.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

egolatrias

há falta do outro dialético, do pólo que intermedeia, da voz silenciosa que atiça. o movimento é circular, em rede, não se conforma na solidão, busca um ponto ativo, uma voz no outro, do outro, para o outro. e há um mundo já constituído, em ti, que me chega com a complexidade necessária para que o tumulto se firme produtor de frases. há o desenho de um cenário que te tem por personagem, que me chegou vagamente até confirmar-se ao te conhecer. o cenário tem minha cidade, minha solidão nela, a música na solidão da cidade carregada de afetos, amores perdidos, refeitos, esticados, revividos. você é uma representação, um ser único e milenar. o reflexo de muitas buscas, encontros e desencontros. não haverá encontro e ponto. não haverá. minha palavra cessará, a sua também, permaneceremos, nem sei se meu olhar terá o seu, nem sei. não será em vão o que foi provocado. o sentimento mantém a energia ativa, mantém a pele viva, mantém, no cotidiano, a perspectiva e a perplexidade com tudo o que não inspire arte... começo a entender... "um pensamento desejante, movido por uma atenção plural e proliferante; uma estratégia do espanto; finalmente, algo propriamente corrosivo." percebo mutações ao ler, mas ainda não as apreendo, preciso de mais tempo para captar a forma, sutilmente, como quem diferencia pontos luminosos na noite. é preciso reconhecer o brilho, diferenciar a intensidade dos tons, a distância da luz... diz da liberdade, do desapego, do vácuo... serão sinônimos? a grande questão existencial, para mim essencialmente literária, é aprender a desprender-se, um desprendimento que requer reconstrução, refundação, renascimento. não sei o porquê da existência, às vezes me parece um equívoco, às vezes uma embriaguês, noutras se enche de sentido,... a carência de sentido como uma das mais belas descobertas, porque firmada em lápis de cor, pronta a constituir vida. a filosofia ensinando a desmantelar castelos. sobra uma praia cheia de areia. isso pode ser tudo, isso pode ser nada. parir significado a tudo, o tempo todo, dói. dói ser inteiramente responsável pela existência inteira, pelo mundo inteiro, por tudo que vejo, por tudo que toco, por tudo que falo, dói perceber a pulsação da vida em cada poro, em cada átomo, sentir o coração bater, a língua salivar, o olho lacrimejar, o amor nascer, o ruído da cidade, a intensidade da luz, a dor do outro, minhas limitações infinitas, minhas múltiplas possibilidades, minha finitude, tudo o que não serei, o quanto me iludo com minha frágil experiência... o movimento exige minha postura, minha palavra, meu ato, minha disposição, e eu quero parar, deitar-me na areia e contemplar o céu azul estático, a montanha que aparentemente não se move, a nuvem que segue vagarosa, eu quero menos barulho, mais delicadeza. uma música, elomar, uma música.

entrelinhas

- trabalhando muito.
- imagino.
- era uma pergunta.
- então a resposta poderia ser: imagine. muito, sim. mas também outras coisa bacanas. espero que estejas bem.
- com uma gripe aqui. vim tocar e acabei por pegar essa coisa nesse frio daqui...
- bonito aí?
- sim, muito. mas o frio determina mais que o desejado...
-
líquidos quentes para aquecer o corpo.
- já bem chá-qualhado, de tanto que aqui consomem...
- não te interrompo, mas dizer pouco não será mais que o silêncio?
- temo deixar-me conduzir por essas linhas... você sempre prefere uma xícara de chá às nossas conversas. (isso também foi uma provocação!)
- para não ter que engolir tantas verdades.
- posso ser qualquer coisa de fogo, agora. menos cabelos...
- ...
- verdades com chá descem melhor!
- se passar uma geléia e manteiga nelas, acredito que sim.
- qual estação é aí, agora?
- aqui chove. início do inverno... mas ninguém me falou de outono.
- somente as folhas dum parque que passei com meu amigo.
- sobre quais verdades diz?
- as de que são mentira.
- enigmas...
- de que prefiro as xícaras de chá a uma boa conversa com uma certa pessoa.
- e porque posso me dar o direito de sentir-me magoada contigo? por que separado: trata-se de uma pergunta. mas sem intenção de resposta. a pergunta é para mim mesma.
- as pessoas são como espelhos... às vezes...
- então por que senti aquilo que nunca provoquei em ti?
- espelhos às vezes concavos, às vezes convexos...
- sim...
- nem sempre me vejo nele... as vezes minha imagem some, quando te olho.
- por encontrares algo além de mim...
- por não me encontrar aí no olhar do outro.
- talvez estejas além, muito além...
- muito além...
- o além existe, caro amigo?
- não percebemos quando lá estamos...