insônia na primeira noite. vizinhos trocam farpas rasgando o silêncio que se tenta reconhecer – o silêncio é a ausência de sons dos motores que ninam toda a trajetória da noite na rua da bahia. assusta de grande, a pausa de ruídos, vilipendiada aos berros, entre uma e outra nota, pelos gritos do casal histérico (como eu às vezes par?) pavor! sou capaz de me mudar para não ter que tolerá-lo (ao lado além e fora do corpo, no outro que grita; dentro do corpo o doentio e em mim amor). numa primeira noite isso apavora. quem já (con)viveu com desbotados rancores, entende... fora isso, um grilo engole o quase absoluto. consigo ouvir um eco de seu canto. e antes disso, no entardecer, pernilongos devoradores assaltam em dezenas, pelas janelas. mora num pomar, agora, ainda no Asfalto! laranjeiras, terceiro andar. em luto tanto quanto aliviada. o desejo de mudança, potente, exigiu um fresco lar. eleger um ponto: muitos cálculos. ponderações sobre o espaço. nostalgia antecipada pelo quarto-e-sala aonde foi perdido o medo de se ver só. cada casa oculta um trecho da travessia. um amor. ou muitas despedidas. centenas de solidões. certas opiniões. uma luz na varanda, um corpo novo estendido no lençol. fotografias embaladas em caixas velhas, sujeiras no canto da sala, geladeira vazia, miojo, banana quase podre. uma saudade do antigo lar.uma mulher de pouco caso.
dois bichos visitaram o mesmo dia. um ratinho miúdo que teve medo de ver e fugiu e um outro de linguagem, onomatopéia. um terceiro, além, na noite passada, chamado vulto, pode ser muitas coisas, mas crença é pros que projetam nascer de novo. não há lugar para as tímidas. prefere te ver nesta vida, mesmo ali na frente, na curva do sinal e do corpo já cansado. houve uma mensagem, mas todo signo já parece pequeno. o que fazer com a falta de sentido?
e agora compro mingau de milho verde, pamonhas fresquinhas, pamonhas!, pão e cebolinha na porta de casa. isso ainda existe em bh!. sou zona norte.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
sentimento de água. iemanjá
não consegue fazer-se desligar das palavras, mesmo aquelas que sequer querem se deixar entender, as mais banais, as mais chulas. lê um poeta novo e se entristece com a insegurança frente à austeridade do outro na forma do dizer. ou encontrou uma forma de fazê-lo tão sem defesa, tão sem nexo, tão sem verdades... pobres são os sentimentos, afronto à palavra.
de qualquer forma, rompeu com um método linear de narrativa, talvez por não querer evidenciar ou falsear um sentimento que é tanto quanto quer deixar transparecer: aberto, transitório, mutável, incompreensível. e no final pergunta-se: quem é este eu ou quem quer apresentar como sendo o eu a partir dos textos que mantém vivos, dos textos que compartilha, dos textos que relê compulsivamente num impulso eterno de reescrita, reanálise, reconstituição? no final sente o que resta: sentimentos que cria e falseia - mesmo os que geram olhar, mesmo os que geram toque, mesmo os que geram cafés, lábios e unhas -, nada fica, somente a escrita. a condição de escritora... e mesmo, como ousa dizer-se em condição de escritora? sente que o é mal, que é qualquer coisa exceto escritora, fixada no nada, como se somente o atingimento deste estado a salvasse do pavor de todo o resto. está enclausurada num quarto de espelho ou de vidro. e distante do verbo.
algo se quebrou.
e de novo relê o escrito. confirma: dá voltas em torno do rabo. deveria dialogar sobre política, sexo ou religião de forma objetiva, emitindo opiniões, citando especialistas. confessa: às vezes reproduz bem essas técnicas de escrita acadêmicas, mas mas mas. não é o caso agora.
sufoca o vazio, sufoca o não querer nada. no limite apenas ser uma andarilha com um notebook na mochila. permanecer 10 meses no mar, trabalhar uns bons anos na áfrica, praticar inglês, francês e espanhol na europa, escrever textos, grafar imagens num caderno, ler mais filósofos asiáticos. sonho pequeno burguês dos grandes!
agora está só em casa. seus amigos foram estudar possibilidades de intervenção. coletivo. esses sonhos, junto, a anima. nada resta a experimentar senão invenções de estórias, gosto inquietante do desejo.
a arte ardendo cruel,
mas redentora.
.......................................força bruta.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
conversa de bêbada
te pergunto por que me habita.
você diz não saber. i don't fuck know.
uma cachorrinha preta, que intitulo "pretinha" come do nosso churrasquinho.
você sorri da obviedade do nome que a batizo.
branca, então. digo.
hilda hist.
marguerite duras.
a magricela é arredia. feito eu, você atesta. e tem as orelhas de abano.
me embebedo. você não gosta.
pergunto como suporta alguém como eu, assim tão...
nem eu me suporto.
porque quando você me toca, sinto o mundo, sinto o que há de vida pra além de mim e me desespero. o toque me alucina.
sinto saudade de tudo o que deixei pra trás, sinto preguiça de tudo o que finjo querer fazer. you are free. pule. morra. - você soletra, sem paciência. mas vamos pra casa, pequena...
qual tamanho você me gosta, mostra aí pra mim? quantos números você me ama?
essa pergunta tola, solta antes de me fechar para o sono, de me trancar para o mundo, me torna feliz.
concluo: existem dois anjos apenas no mundo. você e marcos.
quero dormir bêbada. quero me misturar.
qualquer sobrenome vale mais do que leite.
a minha literatura é uma merda, tenho dito muito palavrão, mas me cansei do jeito manso de dizer ou fingir o que penso.
hugo.
se eu morasse numa casa traria pretinha pra viver comigo. triste o olhar dela. sim, feito o meu. já morremos há muitos séculos, você e eu.
há uma mulher espichada no meu tapete. e isso é bom. é bom.
amanhã chegou. tenho medo do amanhã.
mas o mundo é mundo...
não quero ser poeta.
você diz não saber. i don't fuck know.
uma cachorrinha preta, que intitulo "pretinha" come do nosso churrasquinho.
você sorri da obviedade do nome que a batizo.
branca, então. digo.
hilda hist.
marguerite duras.
a magricela é arredia. feito eu, você atesta. e tem as orelhas de abano.
me embebedo. você não gosta.
pergunto como suporta alguém como eu, assim tão...
nem eu me suporto.
porque quando você me toca, sinto o mundo, sinto o que há de vida pra além de mim e me desespero. o toque me alucina.
sinto saudade de tudo o que deixei pra trás, sinto preguiça de tudo o que finjo querer fazer. you are free. pule. morra. - você soletra, sem paciência. mas vamos pra casa, pequena...
qual tamanho você me gosta, mostra aí pra mim? quantos números você me ama?
essa pergunta tola, solta antes de me fechar para o sono, de me trancar para o mundo, me torna feliz.
concluo: existem dois anjos apenas no mundo. você e marcos.
quero dormir bêbada. quero me misturar.
qualquer sobrenome vale mais do que leite.
a minha literatura é uma merda, tenho dito muito palavrão, mas me cansei do jeito manso de dizer ou fingir o que penso.
hugo.
se eu morasse numa casa traria pretinha pra viver comigo. triste o olhar dela. sim, feito o meu. já morremos há muitos séculos, você e eu.
há uma mulher espichada no meu tapete. e isso é bom. é bom.
amanhã chegou. tenho medo do amanhã.
mas o mundo é mundo...
não quero ser poeta.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
augusta
clique aqui.
cansada de se deitar com outros corpos, hoje ela arrombou a porta com força, ciumenta, viceral, extravagante. bicho colérico e vingativo, parece não suportar os seus dias de alegria. vem com a língua dos becos, expulsa para fora toda a luz, esconde-a atrás das cortinas e escancara os diabos noturnos engavetados pela casa. primeiro ela se esfrega nos seus olhos, provocando cegueira. depois dá nó no cérebro, puxa com pinça uma veia e bebe seu sangue até deixar-te tonta, quase morta. e se espalha pelas carnes, despudorada. aperta seu peito com mãos possessivas, agarra seu ventre como se a ela pertencesse, a joga na cama e te bate com força, quer ver-te ferida. verme rastejante carente de sangue, nojenta, feiticeira. te deixa odiar o dia, bafo vindo do inferno. "tenho sede!", grita. "muita sede!" - mulher embriagada, imbecil, estérica. te ameaça. te faz mentir o sol de morte, refém do grito. capaz dos textos mais sujos, repletos de nada. com ela és capaz de ferir feito ela te fere, capaz de parir como ela te pari, capaz de sangrar como ela te sangra, capaz de morrer como ela te vive. te entorna! veneno. sede, sede, sede, sede.
nesses dias serás.................. ....dias de
Augusta................ ... enxaqueca
domingo, 16 de janeiro de 2011
o cheiro do mundo
quando uma palavra toma a rua, toma a boca e a carne de um coletivo, quando a expressão se expande até agregar um outro, aí, quando a palavra deixa de ser sua e torna-se vida, há sentido de ser no mundo. o sentido está na expressão. e a expressão só tem sentido quando compartilhada no afeto. sinto-me afetada. o tempo inteiro, integralmente. me afeta a luz, me afeta a música, me afeta a composição do grupo, me afeta pensar que a noite depois de amanhã chegará. e eu estarei presa a ela, inevitavelmente. e eu a terei criado. mas não sei nada sobre ela. não concebi a sua essência, apenas lancei um se no mundo. amanhã mudo de casa para dentro de um surto. e não quero retornar de lá. quero me expandir a partir dali para um outro nexo, que pode ser este mesmo aqui, reconfigurado. falo da primeira pessoa. sempre falo daí, mesmo quando me faço passar por ela. mesmo quando sou macho. ou deixo de querer estar. ainda não aprendi a me tornar pseudônimos. e enquanto moldamos um mundo à parte, concebemos as formas, as cores, os sons, enquanto concebemos o que há de ser a obra de todos, enquanto ela ainda está lá, no depois-de-amanhã, passo por aqui. porque este lugar me detona, mesmo no silêncio. porque este silêncio guarda as minhas passagens, me territorializa, manifesta o que sou, mesmo já tendo deixado de ser. torna-me mera ontologia. cemitério. embrulho de pão. mas há cheiro no mundo. e isso é o que importa agora.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
32 de dezembro.
esse número existe e será amanhã. 11.732 dias do nascimento da mulher que na ocasião estará sentada diante de um computador ainda divagando sobre os rituais de passagem, como aderir a uma coletividade, ter um filho, romper com um amor dilacerante, abandonar um caminho, instaurar outro... e uma chuva rala arrasta o que resta do trecentésimo sexagésimo quinto dia, ainda sonolento, para dentro do bUeiro. somente a artesã está acordada e o tece nublado, capaz de recompor a febre da humanidade, antes dela cair novamente na noite. firmado com a cristalidade de uma gota, o dia cai da árvore e embaça os óculos do homem melancólico que passa com as mãos para trás, embaça as luzes amarelas do poste, deixa demorar mais as casas em cuspir as suas veias para a rua. falas de desapego? não estás aqui por afeto, mas jogado à mercê do tempo e uma curva mal inclinada no asfalto é capaz de lançá-lo no fundo do vale, assim, como se não houvesse uma festa bonita preparada para você à beira do mar, então dirija devagar. mas ainda que esteja viva, o mar não terá o privilégio dos pés da mulher-que-escreve quando perceber o último fotão de luz do femtosegundo sobre o qual reside o fim do ano. nesse instante sagrado estará ela, a mulher-que-escreve o dia nublado, dando de comer ao cão do seu vizinho, no fundo do quintal, porque ele viajou e a deixou nesta obrigação, cumprida com gosto por quem não se importa, apenas se lembra, de ser este um dia sagrado para os de fora de si. ela olhará para o céu e ele terá algumas estrelas à vista, apesar das densas e possíveis chuventes nimbostratus. então ela abandonará o quintal, o cachorro, as estrelas e correrá para o computador. faça-se chuva! e a chuva será feita.
"eu escrevo a meia noite porque sou escuro"(c.l.)
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
janeiro
o mundo, um grão. gigante é o corpo e tudo o que cabe nele além dos seus cabelos. de repente tudo parou de doer e só ficou de você este olhar projetado sobre uma viagem que faça rodar o mundo e as pessoas num reordenamento de territórios e liguagem. é apenas simbólico, sim, é apenas simbólico o seu jeito de olhar, o seu jeito de tocar, o seu jeito de projetar o corpo enquanto pensa a próxima frase, mas por favor, respire antes, respire... você cuidou da dor, mas a carne mais se feriu. o que dói ainda agora é a certeza de mil sonhos e ainda a espera pelo trampolim. há circularidade no mundo e ela se manifesta dentro da sua cabeça, recorrência de desejo e vazio, como uma criança na montanha russa, como um erre sem fim. resta pouco tempo para tudo, mas ainda é suficiente o (tempo) que resta, então corra (lola) corra., todo o novo já está velho porque o que se busca não é o que se afirma não nascido, mas algo já sabido, simples e mil vezes pronunciado. chão rochoso. o céu desaba em azul na sua cabeça. você molhou a flor, mas ela nasceu morta. e o azul não a agrada, não significa nada, te prostra na espera por morfeu. pós tropicalismo. o que há depois de glauber, o que há depois de varda? o ciclo se fecha, o ciclo se abre. você se empenha em ser melhor, mas o melhor parece atrás, um sonho infantil esquecido na bolsa amarela, na ilha perdida, nos escravos de jó, na boneca de pano, no elefantinho amarelo. queria o mar, mas os de janeiro não, de bichos estranhos de branco, vaidades e transcendências. admirável mundo novo, laranja mecância, planeta dos macacos. tudo parece atulhado, atormento, som de acufeno. buscar o seu lugar no centro do que não, numa fenda. admitir o máximo de covardia e coragem para fazer parir o seu novo. janeiro disse que já chegou em mim.
domingo, 26 de dezembro de 2010
ode à menina do rio
amanheço
invadida com o pensar numa forma.
os seus escritos,
quase lidos por sua voz - silenciosa
depois de navegadas
as palavras
no leito do rio,
passam feito água em curso
derramadas em ser tão.
que bom seria se.
pequena visita -
compartilhar leituras,
textos íntimos,
chá de maça com canela,
banalidades...
guardo-a em mim.
amiga distante
de uma rara fidelidade
eleita na dimensão sacroprofana
da literatura.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
sinal dos tempos
dias de inferno. o calor parece com as sensações internas - queima, fere, maltrata ou torna os sentimentos mais passionais, quase fatais. nesses dias pode cometer loucuras como escrever nas paredes internas do quarto, inteiras do corredor, acabar com a caixa dágua (crime ecológico bárbaro - urbanidade seca sedenta de rio), quebrar o asfalto a machadadas pra deixar a terra absorver um pouco do sol ou assaltar um picoleiro pra mastigar gelo até a noite resolver fazer sumir o fogo. "me vê dez de coco queimado". ô vontade de oceano agora no corpo, com o olhar fixado num asteróide gordo... mas o mar em janeiro assusta de multidão. ficará em casa bem perto das macieiras, agregar amigos e oxalá criar uma sombra, colher uma brisa, molhar o terreiro, brotar uns sonhos. melancia, hum... de tanto andar, de tanto amar, a pele sua, a nuca se molha. os corpos nus que, raros, transpiram, agora se afogam no chuveiro. verão é tempo de amor de ducha. tira as panelas das grades, esvazia a geladeira e senta dentro. puxa e fecha a porta, encolhendo o joelho. posição de triste. só é possível pensar direito com a carne fresca.
sábado, 4 de dezembro de 2010
LAISSEZ-FAIRE
Enquanto isso, a retomada de território sacramenta o maniqueísmo e atesta o gozo coletivo alheio aos poréns que antes de serem pessimistas, problematizam o ego nefasto da violência. O problema não é apenas querer interromper uma ordem destoante e violenta presente nas favelas, mas impor uma falsa idéia de que uma ordem destoante e violenta será interrompida, quando se sabe que apenas recomposta, como peças num jogo de xadrez, porém dessa vez institucionalizada. Violência e injustiça social não se cura com a produção de uma guerra. Foram presos a irmã, o cunhado, o sobrinho, o bisavô e o papagaio. Nesse ritmo, rapidamente nos igualamos aos EUA, país que mais encarcera no mundo, hoje. Qual o problema, perguntarão alguns, "pois que seja!" O problema, cara pálida, é que a proporção do aumento do encarceramento no Brasil, a cada ano, nos leva a crer que teremos em 10, 20 anos mais da metade da população do país encarcerada, uma vez que a resposta que se busca para todos os problemas sociais passou a ser a criminalização e o encarceramento - tudo aquilo que um grupo considera inconcebível (mais pela suas fortes tendências de moralismo exarcebado e intolância do que por sentimento de justiça e busca real de solução), se propõe uma lei penal capaz de (falsa, burra, cega e hipocritamente) conter o infortúnio; o custo disso?: para abrir uma vaga de prisão o estado gasta cerca de 15 mil reais e para manter uma pessoa encarcerada, 1.500, 2.000 reais por mês (quando falamos de um menor infrator, esse valor chega a 5.000). Enquanto isso muitas vozes gritam ser um absurdo qualquer programa social de distribuição de renda, sob o argumento de que 200, 300 reais por mês para famílias em situação de miséria, são mecanismos assistencialistas incompatíveis com o laissez-faire (a velha máxima egoística e cínica do peixe versus anzol). Aqui não busco identificar o problema da violência urbana meramente como fenômeno a ser resolvido a partir de políticas de cunho assistencialistas. O erro primordial, relativamente a esta temática, foi de se ter desconsiderado o fenômeno da violência urbana como algo a ser pensado a partir de políticas de segurança pública de cunho emancipatório, inclusivo e participativo, deixando a construção de solução às forças mais sectárias da sociedade. O resultado foi e tem sido a perpetuação de respostas cada vez mais repressivas, violentas, estigmatizantes, enfurecidas, excludentes, numa circularidade sem fim. Sabemos que a causa da violência não é a índole para o mal, e sequer podemos impor esse sintoma como advindo do estado de pobreza dos grupos que a sofrem, mas sim, está relacionado ao grau de desigualdade social a que a população desse país sempre esteve exposto. É surreal depositarem todo o caos que se vê na tv ao tráfico de drogas. E afinal aonde está o mercado consumidor, que não se manifesta? Nessa hora somente a cara do noiado de crack, novamente o menino negro da favela, aparece estampado como vítima do mal. Também impossível é visitar um cárcere sem concluir que este se tornou o pelourinho pós Lei Áurea. Mas... de onde vem tanta arma encontrada nas favelas? Como chegaram ali? Quem as disponibilizou? Quem produz arma e quem ganha com uma guerra? Para nos convencer da salvação, testemunhas da violência do tráfico são apresentadas com lágrimas na sua primeira infância - agora, com a presença das forças de segurança na rua, é possível voltar a sorrir. Enfim um paraíso se apresenta. É o fim do medo, é o sinal dos (bons) tempos. E os ecos já se fazem sentir em outras cidades, o clamor pela solução total, como se uma vacina houvesse sido milagrosamente criada para nos salvar dos "marginais". E você está preso à tv. Dessa vez vai! Só restam dois anos para a Copa. O espetáculo deve ser bonito, com direito ao turimo no morro, à vista privilegiada do cristo redentor.
"Segundo a investigadora Vera Malaguti,
o inimigo público número um está sendo
esculpido tendo por modelo o rapaz bisneto de escravos,
que vive nas favelas, não sabe ler,
adora música funk, consome drogas ou vive delas,
é arrogante e agressivo,
e não mostra o menor sinal de resignação"
(Eduardo Galeano, De pernas para o ar:
a escola do mundo ao avesso).
o inimigo público número um está sendo
esculpido tendo por modelo o rapaz bisneto de escravos,
que vive nas favelas, não sabe ler,
adora música funk, consome drogas ou vive delas,
é arrogante e agressivo,
e não mostra o menor sinal de resignação"
(Eduardo Galeano, De pernas para o ar:
a escola do mundo ao avesso).
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