domingo, 16 de janeiro de 2011

o cheiro do mundo





(koukla e geo by me)

quando uma palavra toma a rua, toma a boca e a carne de um coletivo, quando a expressão se expande até agregar um outro, aí, quando a palavra deixa de ser sua e torna-se vida, há sentido de ser no mundo. o sentido está na expressão. e a expressão só tem sentido quando compartilhada no afeto. sinto-me afetada. o tempo inteiro, integralmente. me afeta a luz, me afeta a música, me afeta a composição do grupo, me afeta pensar que a noite depois de amanhã chegará. e eu estarei presa a ela, inevitavelmente. e eu a terei criado. mas não sei nada sobre ela. não concebi a sua essência, apenas lancei um se no mundo. amanhã mudo de casa para dentro de um surto. e não quero retornar de lá. quero me expandir a partir dali para um outro nexo, que pode ser este mesmo aqui, reconfigurado. falo da primeira pessoa. sempre falo daí, mesmo quando me faço passar por ela. mesmo quando sou macho. ou deixo de querer estar. ainda não aprendi a me tornar pseudônimos. e enquanto moldamos um mundo à parte, concebemos as formas, as cores, os sons, enquanto concebemos o que há de ser a obra de todos, enquanto ela ainda está lá, no depois-de-amanhã, passo por aqui. porque este lugar me detona, mesmo no silêncio. porque este silêncio guarda as minhas passagens, me territorializa, manifesta o que sou, mesmo já tendo deixado de ser. torna-me mera ontologia. cemitério. embrulho de pão. mas há cheiro no mundo. e isso é o que importa agora.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

01:53



breu absoluto e cuchicho da chuva.

dias de ócio: o cheiro do mundo.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

o grito


acabo de encontrar esta foto
.............................. nu-sol.


não sei quem a produziu
mas me sei nela.

uns mais iguais
- personas cabeças,

estado de mundo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

32 de dezembro.


esse número existe e será amanhã. 11.732 dias do nascimento da mulher que na ocasião estará sentada diante de um computador ainda divagando sobre os rituais de passagem, como aderir a uma coletividade, ter um filho, romper com um amor dilacerante, abandonar um caminho, instaurar outro... e uma chuva rala arrasta o que resta do trecentésimo sexagésimo quinto dia, ainda sonolento, para dentro do bUeiro. somente a artesã está acordada e o tece nublado, capaz de recompor a febre da humanidade, antes dela cair novamente na noite. firmado com a cristalidade de uma gota, o dia cai da árvore e embaça os óculos do homem melancólico que passa com as mãos para trás, embaça as luzes amarelas do poste, deixa demorar mais as casas em cuspir as suas veias para a rua. falas de desapego? não estás aqui por afeto, mas jogado à mercê do tempo e uma curva mal inclinada no asfalto é capaz de lançá-lo no fundo do vale, assim, como se não houvesse uma festa bonita preparada para você à beira do mar, então dirija devagar. mas ainda que esteja viva, o mar não terá o privilégio dos pés da mulher-que-escreve quando perceber o último fotão de luz do femtosegundo sobre o qual reside o fim do ano. nesse instante sagrado estará ela, a mulher-que-escreve o dia nublado, dando de comer ao cão do seu vizinho, no fundo do quintal, porque ele viajou e a deixou nesta obrigação, cumprida com gosto por quem não se importa, apenas se lembra, de ser este um dia sagrado para os de fora de si. ela olhará para o céu e ele terá algumas estrelas à vista, apesar das densas e possíveis chuventes nimbostratus. então ela abandonará o quintal, o cachorro, as estrelas e correrá para o computador. faça-se chuva! e a chuva será feita.

"eu escrevo a meia noite porque sou escuro"(c.l.)


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

janeiro


o mundo, um grão. gigante é o corpo e tudo o que cabe nele além dos seus cabelos. de repente tudo parou de doer e só ficou de você este olhar projetado sobre uma viagem que faça rodar o mundo e as pessoas num reordenamento de territórios e liguagem. é apenas simbólico, sim, é apenas simbólico o seu jeito de olhar, o seu jeito de tocar, o seu jeito de projetar o corpo enquanto pensa a próxima frase, mas por favor, respire antes, respire...
você cuidou da dor, mas a carne mais se feriu. o que dói ainda agora é a certeza de mil sonhos e ainda a espera pelo trampolim. há circularidade no mundo e ela se manifesta dentro da sua cabeça, recorrência de desejo e vazio, como uma criança na montanha russa, como um erre sem fim. resta pouco tempo para tudo, mas ainda é suficiente o (tempo) que resta, então corra (lola) corra., todo o novo já está velho porque o que se busca não é o que se afirma não nascido, mas algo já sabido, simples e mil vezes pronunciado. chão rochoso. o céu desaba em azul na sua cabeça. você molhou a flor, mas ela nasceu morta. e o azul não a agrada, não significa nada, te prostra na espera por morfeu. pós tropicalismo. o que há depois de glauber, o que há depois de varda? o ciclo se fecha, o ciclo se abre. você se empenha em ser melhor, mas o melhor parece atrás, um sonho infantil esquecido na bolsa amarela, na ilha perdida, nos escravos de jó, na boneca de pano, no elefantinho amarelo. queria o mar, mas os de janeiro não, de bichos estranhos de branco, vaidades e transcendências. admirável mundo novo, laranja mecância, planeta dos macacos. tudo parece atulhado, atormento, som de acufeno. buscar o seu lugar no centro do que não, numa fenda. admitir o máximo de covardia e coragem para fazer parir o seu novo. janeiro disse que já chegou em mim.

domingo, 26 de dezembro de 2010

ode à menina do rio


amanheço

invadida com o pensar numa forma.
os seus escritos,
quase lidos por sua voz - silenciosa
depois de navegadas
as palavras
no leito do rio,
passam feito água em curso
derramadas em ser tão.


que bom seria se.
pequena visita -
compartilhar leituras,
textos íntimos,
chá de maça com canela,
banalidades...

guardo-a em mim.
amiga distante
de uma rara fidelidade
eleita na dimensão sacroprofana
da literatura.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sinal dos tempos

(foto por tcheus)

dias de inferno. o calor parece com as sensações internas - queima, fere, maltrata ou torna os sentimentos mais passionais, quase fatais. nesses dias pode cometer loucuras como escrever nas paredes internas do quarto, inteiras do corredor, acabar com a caixa dágua (crime ecológico bárbaro - urbanidade seca sedenta de rio), quebrar o asfalto a machadadas pra deixar a terra absorver um pouco do sol ou assaltar um picoleiro pra mastigar gelo até a noite resolver fazer sumir o fogo. "me vê dez de coco queimado". ô vontade de
oceano agora no corpo, com o olhar fixado num asteróide gordo... mas o mar em janeiro assusta de multidão. ficará em casa bem perto das macieiras, agregar amigos e oxalá criar uma sombra, colher uma brisa, molhar o terreiro, brotar uns sonhos. melancia, hum... de tanto andar, de tanto amar, a pele sua, a nuca se molha. os corpos nus que, raros, transpiram, agora se afogam no chuveiro. verão é tempo de amor de ducha. tira as panelas das grades, esvazia a geladeira e senta dentro. puxa e fecha a porta, encolhendo o joelho. posição de triste. só é possível pensar direito com a carne fresca.


sábado, 4 de dezembro de 2010

LAISSEZ-FAIRE



Enquanto isso, a retomada de território sacramenta o maniqueísmo e atesta o gozo coletivo alheio aos poréns que antes de serem pessimistas, problematizam o ego nefasto da violência. O problema não é apenas querer interromper uma ordem destoante e violenta presente nas favelas, mas impor uma falsa idéia de que uma ordem destoante e violenta será interrompida, quando se sabe que apenas recomposta, como peças num jogo de xadrez, porém dessa vez institucionalizada. Violência e injustiça social não se cura com a produção de uma guerra. Foram presos a irmã, o cunhado, o sobrinho, o bisavô e o papagaio. Nesse ritmo, rapidamente nos igualamos aos EUA, país que mais encarcera no mundo, hoje. Qual o problema, perguntarão alguns, "pois que seja!" O problema, cara pálida, é que a proporção do aumento do encarceramento no Brasil, a cada ano, nos leva a crer que teremos em 10, 20 anos mais da metade da população do país encarcerada, uma vez que a resposta que se busca para todos os problemas sociais passou a ser a criminalização e o encarceramento - tudo aquilo que um grupo considera inconcebível (mais pela suas fortes tendências de moralismo exarcebado e intolância do que por sentimento de justiça e busca real de solução), se propõe uma lei penal capaz de (falsa, burra, cega e hipocritamente) conter o infortúnio; o custo disso?: para abrir uma vaga de prisão o estado gasta cerca de 15 mil reais e para manter uma pessoa encarcerada, 1.500, 2.000 reais por mês (quando falamos de um menor infrator, esse valor chega a 5.000). Enquanto isso muitas vozes gritam ser um absurdo qualquer programa social de distribuição de renda, sob o argumento de que 200, 300 reais por mês para famílias em situação de miséria, são mecanismos assistencialistas incompatíveis com o laissez-faire (a velha máxima egoística e cínica do peixe versus anzol). Aqui não busco identificar o problema da violência urbana meramente como fenômeno a ser resolvido a partir de políticas de cunho assistencialistas. O erro primordial, relativamente a esta temática, foi de se ter desconsiderado o fenômeno da violência urbana como algo a ser pensado a partir de políticas de segurança pública de cunho emancipatório, inclusivo e participativo, deixando a construção de solução às forças mais sectárias da sociedade. O resultado foi e tem sido a perpetuação de respostas cada vez mais repressivas, violentas, estigmatizantes, enfurecidas, excludentes, numa circularidade sem fim. Sabemos que a causa da violência não é a índole para o mal, e sequer podemos impor esse sintoma como advindo do estado de pobreza dos grupos que a sofrem, mas sim, está relacionado ao grau de desigualdade social a que a população desse país sempre esteve exposto. É surreal depositarem todo o caos que se vê na tv ao tráfico de drogas. E afinal aonde está o mercado consumidor, que não se manifesta? Nessa hora somente a cara do noiado de crack, novamente o menino negro da favela, aparece estampado como vítima do mal. Também impossível é visitar um cárcere sem concluir que este se tornou o pelourinho pós Lei Áurea. Mas... de onde vem tanta arma encontrada nas favelas? Como chegaram ali? Quem as disponibilizou? Quem produz arma e quem ganha com uma guerra? Para nos convencer da salvação, testemunhas da violência do tráfico são apresentadas com lágrimas na sua primeira infância - agora, com a presença das forças de segurança na rua, é possível voltar a sorrir. Enfim um paraíso se apresenta. É o fim do medo, é o sinal dos (bons) tempos. E os ecos já se fazem sentir em outras cidades, o clamor pela solução total, como se uma vacina houvesse sido milagrosamente criada para nos salvar dos "marginais".
E você está preso à tv. Dessa vez vai! Só restam dois anos para a Copa. O espetáculo deve ser bonito, com direito ao turimo no morro, à vista privilegiada do cristo redentor.


"Segundo a investigadora Vera Malaguti,
o inimigo público número um está sendo
esculpido tendo por modelo o rapaz bisneto de escravos,
que vive nas favelas, não sabe ler,
adora música funk, consome drogas ou vive delas,
é arrogante e agressivo,
e não mostra o menor sinal de resignação"
(Eduardo Galeano, De pernas para o ar:
a escola do mundo ao avesso).



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

passagem, com 5 letras


o avião arremete pela primeira vez. enquanto você preenche palavras cruzadas de dentro da nuvem, um executivo tosco imprime vantagens a partir de gazes que deixa vazar por entre os dentes. a noite anterior à viagem a brindou com insônia longa, então desta última poltrona que não reclina e dispersa pelo barulho das bandejas ao fundo, há um imenso cansaço de se despedaçar: deixem-na viver para repousar. turbulência no peito. é você quem sacode as asas desse pequeno avião? as pessoas se apavoram. desculpem-na: promete ser menos intensa no próximo trecho. uma mensagem chega enquanto ainda o piloto tenta fixar-se no chão pela segunda vez. arremeter número 2. o seu amigo tem mania de a descobrir no céu. talvez seja o seu celular o causador de tudo
ou o ato de pensar em ti, do seu amigo. - você nunca acreditou nisso. Atenção: desliguem os celulares! você será presa e torturada e há de penar no purgatório por isso. responde à msg e desliga o aparelho - a desconexão com os que estão colados à superfície pode melhorar as coisas para aqueles que navegam paralelos à circunferência. responde com a palavra harmonia, 8 letras. deste não lugar. um barulho. você aperta o cinto e olha p'ros lados. há um branco terrível que te devora com suas linguas do lado de fora. você atravessa um espaço descontínuo, se dilui no vazio, diz sim ao despreendimento - um dia irá mais longe ainda. quando pousar, estará em outra dimensão, envolta em seres que não conhece e sem resquício de memória ou compreensão de um si. mas a mensagem do celular te faz sentir em casa. você chega a sentir o amargo do café nos lábios, e um calor acolhedor atravessar todo o seu corpo. como você pensa sobreviver à sua própria ausência? firmeza com 13 letras. longanimidade. a tentativa do terceiro pouso parece adiada. o piloto erra a pista, ela agora está distante - vão pousar numa montanha, ou numa sub-estação lunar até as tempestades abandorarem as minas. você pensa em patentear um aspirador de nuvens. tenta dormir. cochila. "minha filha, como consegue dormir com tudo isso à sua volta?", pergunta uma senhora apavorada - do seu olho é possível subtrair o pavor estrondoso da morte, quoeficiente de divisão de seres. você ouve liga sigur ros, com ele a passagem parece calma. o seio metálico que a acolhe luta bravamente com as águas que como rajadas tentam furar a minúscula janela que detém seu olhar. se as máscaras caírem não saberá usá-las, nunca se concentrou nas explicações dos seres de júpiter à frente, sempre soube que numa queda as máscaras só serviriam para a tornar mais deplorável. concentra-se nas imensas massas de ar, elas são mais acolhedoras, de qualquer jeito, do que aqueles que contigo concluem a uniformidade dessa mosca voadora. você tenta se concentrar na inconsciência, fecha os olhos, aumenta o volume do fone. alergia nasal com 6 letras. reles, ordinários, com 3. afinal o pouso foi consentido. solo não eleito. o território é outro, mas você confirma: continua no planeta marte. há tempo de um dedo de prosa com Arthur Dent e Ford Prefect? uma reunião a aguarda há 100 kilômetros de ano-luz dali. avante!

viver é muito muito perigoso.


segunda-feira, 15 de novembro de 2010

romance telúrico primordial ou apocalíptico alegórico


(narrativa já por vezes percorrida)
um quarto de hotel. a leitora toma banho pra batizar o espaço, caminha do banheiro à janela, espia e fecha as cortinas, abre e fecha a porta do guarda roupa vazio, futuca as bebidas do frigobar, tira livros e netbook da mochila, desarruma a cama e se joga dentro, pronta para o vazio que a espera, há um tempo
para se desterritorializar infinitamente menor que a menor das unidades de medida do tempo. percorreu a distância da terra à lua cinco bilhões de vezes para fazer de casa este ponto: cançasso da vasta existência infinita de todas as galáxias. fechada ao corredor do mundo, dentro de si, não sabe o que a aguarda - terror como se toda a verdade sobre o universo houvesse reservado esta ínfima gota de segundo para revelar-se. isso pode significar certa fobia a quartos de hotéis ou o medo da morte, mas nunca teve aptidão para análises técnico-subjetivas de si - consegue expulsar os seus desvarios antes de sucumbir de todo à loucura. (consegue?). alguns quartos de hotéis são banais, como para provar que sua tese primeira, do território neutro e transcendente é falsa. alguns guardam delírios filosóficos. os que parecem insanos lhe reserva horas de leitura e lucidez. outros, moradia compartilhada de dionísio. os mais ousados acordam pessoas mortas. os nostálgicos retumbam amores antigos. templo frio de uma agnóstica viajante. silêncio. mantra. o hotel é o chaveiro de memórias e sensações. você está dentro dele, agora. e o que vê diante de si?


I. é possível substituir hotel por qualquer lugar, o hotel como significado ou materialização da idéia-espaço.
II. aqui se estuda território-e-corpo.

espaço-vácuo
corpo-pensamento

romance da experiência densa


Quando dobra a rua, um odor ocre paira, de onde é possível extrair um certo adocicado típico das madeiras. O homem inspira mais demoradamente o ar, tentando reconhecer a essência antes de abrir os olhos, e confirma a presença de um baú todo talhado à mão, exposto às primeiras gotas de uma tempestade anunciada. O cheiro, ele o reconhece sempre quando da evaporação das primeiras gotas do suor de uma árvore seca queimada de sol. Ele detém a caminhada e mais uma vez se permite o sentido, prolongando o êxtase. Segue adiante, mas recua o passo, procurando o dono do objeto esquecido. É uma rua residencial, deserta. Ele se posiciona perto do móvel, esperando que alguém venha cobrar propriedade. O céu ameaça com uma rajada de trovão, o personagem abre o guarda chuva preto e tenta proteger, mais ao bem encontrado do que ao próprio corpo. Ninguém aparece. Ele se senta no baú, já defendendo a descoberta. Se permanecer por um tempo razoável poderá requerer o direito à posse, segundo as leis canônicas. Um cachorro vira lata o encara de dentro de uma casa, com o focinho espremido no portão de ferro. Seu ódio aos cachorros tornou-se compaixão desde que ouvira as sábias ponderações de Deleuse sobre tais bichos domáveis. Talvez tenha permanecido assim uns vinte minutos, recebendo as poças de chuva dos raros carros que por ali fizeram percurso em velocidade, depois se convence dos seus direitos e tenta levantar a caixa para conduzi-la consigo, porém o peso acusa existir algo dentro, trancado por um cadeado. Tenta levantá-lo mais uma vez, com alguma dificuldade suspende o retângulo e o dispõe sobre os ombros com a testemunha latindo do outro lado. A chuva já molhou todo o corpo e ele tenta avançar mais apressadamente, a pensão não está longe, basta caminhar até o fim da rua, seguir a primeira à direita por dois quarteirões e atravessar a praça. Com alguma dificuldade ele consegue conduzir o objeto pelo fino corredor repleto de portas aonde uma mulher desconhecida, certamente hóspede nova, fuma encostada no caixonete do único acesso aberto, encarando-o quando a transpõe. O homem a cumprimenta com um silencioso aceno de pescoço, ela responde com um sussurro, ele abaixa a cabeça e continua, causando um barulho estrondoso ao deixar o conteúdo das mãos cair. Ele acaba de conduzir o baú ao quardo arrastando-o e imediatamente após deixá-lo num canto, sai à procura de algo para abrir o cadeado, de maneira a não ferir o bem mais precioso - o sândalo bordado. A moça desconhecida o detém, pede uma informação, é nova na cidade. Ele não resiste e a conduz ao Hospital Geral. A pensão sempre guarda familiares de doentes devido à proximidade com a região hospitalar e ele sempre se rende às histórias que ouve, talvez por ser sozinho nesse mundo. Ela precisa visitar o noivo que sofreu uma cirurgia complicada nessa mesma tarde. Ambos tentam se respeitar debaixo do guarda-chuva estreito, porque ela não possui um, mas é possivel sentir um do outro a pele eriçada do frio. O baú pode esperar.

domingo, 7 de novembro de 2010

stonehenge (ou em volta de pedras e prosas)


(Stonehenge, do inglês arcaico "stan
", pedra, e "hencg", eixo,
monumento megalítico da Idade do Bronze)
foto capturada na net




(churrasqueira de fundo-de-quintal,
ao redor da qual uma prosa se consolida e desfaz
em ritual eterno de um baco já cansado)

foto produzida há anos-luz por um tcheus inspirado





hilorojo é o pseudônimo de uma artista que conheci vendendo suas pequenas criações inscritas em cartões de metrô em buenos aires. de toda a multiplicidade de objetos na fera de la antiguedad, aquela menina pequenina, com sua gravuras de tinta guache me atraiu, me reconheci nela, apesar de sentir que ela estava já numa forma de vivência e expressão
iluminada - talvez eu ainda percorra algumas galaxias para alcançar seus traços silenciosos e cheios de expressividade, verdades que me custam centenas de letras pra traduzir. escolhi um.

ela moveu um pouco os lábios, quase pensei que iria sorrir, mas a linha apenas esboçou uma meia lua minguante. abaixou os olhos e confessou: es un autorretrato. es por eso que elegí, respondi. fiquei ali um pouco com ela, sabia que jamais a teria ao meu lado de novo nessa nossa travessia, queria trazê-la comigo e desde sua vinda para essas bandas de cá, ela compõe minha estante de livro, misturada com um pouco de mim. ela abaixo de fantasmas que a rodeiam, como me sinto com os meus. sua obra é linda. visite-a, clique aqui


......................................................................................................


pra fotografar a menina-que-habita-minha-estante, fui até a minha fotográfica e acabei por descobrir algumas imagens feitas por tcheus, ali esquecidas. remete a uns pés de encontros, despedidas, nostalgias.











coincidência também porque geo passou por aqui, descortinando horizontes. compartilhamos a exposição de ronaldo fraga, no palácio das artes, sobre o são francisco, clique aqui.


"só navega em suas verdadeiras águas

quem tiver no sonho
um barco de plenitudes
e na proa o céu do imaginário"


bethânia declamando as águas, inscrições diversas que me levaram de novo em pão de açucar, penedo... memória, saudade, quase dor.





no mais, dias de água. o metrô agora tem, dia-sim dia-não, meu corpo dentro. corto meia cidade, desço na estação central e o chafariz está ligado, água nascida do chão molha água despencada do céu. o que é meta-linguagem? a praça sete, sábado à noite, quase-deserta. o antigo prédio, vigésimo primeiro andar, me encara do alto, eu o saúdo com um aceno de cabeça, ele me acusa abandono, envergonho-me de tê-lo esquecido e sigo a afonso pena, debaixo da sombrinha que guarda a chuva de mim. vermelho, só uso guarda-chuvas vermelhos - stendhal, promessa pra deuses líquidos. e botas marrons: meus pés restam secos enquanto minhas mãos úmidas brincam com gotas que escorrem do tafetá de nylon. mês de aniversário. 33 em 22. idade de cristo [espero viver mais um pouco] mas e se eu for feita pra não? leio um livro presenteado. se um viajante numa noite de inverno, de calvino. invejinha de (não) escrever (bem) assim. não resisti: compulsividade - entrei num sebo e comprei dois volumes de simone de beauvoir. mas tudo bem, já li (quase) tudo de literatura que ainda resta na minha minúscula biblioteca. estou em ciclo de leituras. como livros mais vezes ao dia do que pães e grãos. o cheiro de livro velho exala um aroma que reconheço, moradia das menores partículas que soma(tiza)m um antes. sigur rós frui no frio de um quase verão sudeste. o ano já se cansa de existir...










(fotos do são francisco feitas por mim, em viagem com c.)