Aquela que não quis tomar assento e quase naufragou no mar e quase foi atropelada e quase morreu de dor de amor, passeia na solidão redonda da multidão e no eu florido de asfalto.
A sem-lugar nas ilhas desertas dos bares abarrotados, aquela que queria fugir em dia de jogo e não voltar nunca mais,
a descontente, a escorregadia, a introspectiva, a ensimesmada, aquela que foge sempre em busca de buracos, que se tranca no quarto no escuro, cortinas cerradas e música pra inundar o espaço da alma.
Aquela que não cabe na solidão e nem cabe na palavra, que não é um ser, mas um estado de desfazer-se contínuo, com leves sopros pra aliviar, como quando o olhar mudo de um andarilho lhe desmascara um conceito.
Aquela que sofre porque não entende e retorna sempre às mesmas questões complexas
"Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama."
(Saramago, Caim)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
a potência é muda, apesar do desejo por palavra. algo se cala, como se dizer, necessário não mais fosse. mas há o infinito de nós para ser dito, para ser composto, para ser descrito (mentira, não há nada!). todas as páginas a serem assinadas encontram-se indicadas com clipe. não aprendi outra forma de dizer – a palavra me exige. explique-se, diz o verbo. e eu acato o verbo. no princípio era o verbo e eu sou o princípio. as páginas em vermelho exigem rubrica autenticada. porque disse deus, faça-se a luz. e eu sou a luz. fui feita da costela de adão. sou a mulherzinha de deus. / Uma luz ofusca o verbo. ofusca deus. gosto de brincar de infinito e o infinito reside na palavra deus. esconde-esconde. páginas com clipe verde poderão receber assinatura digital. a luz ofusca a mulherzinha que compõe o verbo. no fim, terei fracassado. mas jamais me pari para sair vitoriosa. a vitória é um clarão de cegueira. a vitória é para os cegos. e eu, ensaio sobre a cegueira. / Não escrevo para entender, escrevo para esvaziar. palavras são ervas daninhas – precisam ser arrancadas de dentro, senão matam a flor. e a flor é silêncio e solidão. eu sou clarice, à disposição para esclarecimentos. só(,) escrevo sobre a palavra. tautologias. no final serei [só] (e) silêncio. eu (e/ou/sou deus?). / Palavra é uivo, gesto, busca. me canso de ser palavra, como me canso de ser gente. às vezes queria ser dispersa do corpo. mas isso acontecerá, necessariamente. pode ocorrer a qualquer suspiro. minhas palavras morrerão comigo. as de clarice não. olha p'ro céu meu amor. posso expressar a dor das relações? não sei se sei. não sei se posso. culpa cristã. auto-flagelo. o amor (nunca) preenche toda a dor. não sei porque agora este desejo repentino de captar imagens. talvez seja a saída encontrada para fazer cessar as palavras. mas se fecho os olhos, você está lá.
o acaso detona o caos, faz cismar o peito, faz do eterno etéreo. o acaso existe para (des)construir certezas, (des)afirmar o firmamento. o acaso, ele te pega, te sacode, te (des)estrutura. o olhar que olhava, (não) olha mais. o amor que amava amando segue, mas, porém... a certeza que afirmava, desconfia. o amor... você se cala. suspensão. você ri debaixo d'água. você realmente consegue rir debaixo d'água. olha ela aí de novo, a dialética! cuidado com a curva! desacelera! mas debaixo do despenhadeiro, o mar, o nada(r).
sábado, 15 de maio de 2010
o saber interpreta e isso indica a ausência da verdade - o evolucionismo, tanto quanto a teocracia justificaram o racismo, o colonialismo, o genocídio indígena, o tráfico dos africanos, o nazismo, o fascismo... o saber pode se fazer poder e o poder instrumentaliza. o poder se utiliza de "verdades" para criar e firmar realidades. realidade é linguagem. linguagem é ideologia. e ideologia é poder. cíclico assim.
"o nosso negativo, a assim chamada sombra, produz, como conteúdo consciencial inibido através da instância do superego, sentimentos de culpa inconscientes que procuram ser descarregados. Em todo homem existe a tendência a transferir esta sombra sobre uma terceria pessoa, objeto da projeção, ou seja, a transportá-la para o exterior e, com isso, a concebê-la como alguma coisa de externo, que pertence a um terceiro. Em lugar de voltar-se contra si próprio, insulta-se e pune-se o objeto desta transferência, o bode expiatório, para o qual é sobretudo característico o fato de que se encontra em condição indefesa". (Naegeli)
a cabeça dói, com frequência. pulsação forte do lado direito do cérebro, náusea, cegueira e sede. ir ao doutor, pedir exames, olhar aérea ao desenho da tv da cadeira fria do hospital sem cor. o hospital, corredor de nostalgia. a voz do pai se perdeu numa sala de cirurgia. o caroço da mãe sugado numa longa tarde de espera. de volta ao quarto, ainda dopada, solta desconjunturas de uma mente insana - a loucura deve ser assim. sentada na poltrona, inventar histórias aos personagens que aguardam a sua vez. uma moça vê figurinhas. seria a mulher ali, se não estivesse aqui, presa neste coração estranho. tentar fraudar o horário de visita e permanecer ao lado do leito da mãe. dormir retorcida num encosto de aço gelado ao lado direito do lençol branco que tem o corpo do pai. o irmão, quando de mandíbula quebrada, geme de dor e como um cão abandonado e frágil, insinua carência e medo. a doença cala. as projeções perdem o sentido e a falta de sentido consola e torna mais bonito o imenso breu que se vê da janela. um velho poeta de vestido longo e branco, empurrando um suporte de soro caminha na direção do casal, pára e puxa uma prosa. não parece doente. diz-se acostumado. trocou de coração, agora luta para que este aceite o novo lar. recusa, luta, estranha. o poeta faz poesia da dor. entende agora a importância do sus. traz pra rima palavras grandes e frias. e le tro car di o gra ma. viver é de uma magia estranha. quem sabe o que trouxe cada um aqui? o hospital deixa cicatrizes. é um espaço de supensão. fratura. um péssimo lugar que inventaram para curar a dor. chegar em casa, tirar a roupa, tomar um banho quente, deitar na cama com cobertor limpinho e cheiro da gente, dormir por longas horas. o corredor comprova a verdade contida nos pequenos prazeres. teve também a avó. como se esquecer da avó? seu beijo de despedida? seu corpo inchado querendo fazer xixi. sua vergonha de estar assim submetida ao outro, ela que durante toda a vida, até aos noventa anos fora independente e ativa. de todos que levaram a mulher ao imenso corredor, só a avó partiu. mas partirão todos. as dores e os momentos de náusea são intranferíveis, intransponíveis. incógnitas. a cabeça dói. a água ameniza. a amizade acalma. mãe e pai aquecem. irmão abriga. uma película suspende. o amor consola e deus também. um bom livro faz dormir e acordar. hoje. e quantos dias mais haverão p'ra frente e p'ra trás nesta tabuadanonsense∞
sábado, 1 de maio de 2010
sábado chegou. ele chega sempre ao sexto dia. sábado de música, sábado de letras. sábado passa, sábado entorna, sábado retorna. sábado xadrez, sábado planta, sábado sol. sábado poeira vassoura e pano-de-chão. sábado filme, sábado vinho, sábado pizza. sábado feira, sábado verdura, sábado carne. acordar-tarde-no-sábado, dormir-a-tarde-no-sábado, virar-a-noite-de-sábado. dia de pecado em véspera de missa. sábado caldo de cana com limão e sarapatéu no mercado. dia bom de se dar e guardar, de-não-ver-cara-de-rua-e-gente. sábado,