sexta-feira, 9 de outubro de 2009
PRIMEIRA POESIA – XOTE DA PALAVRA
Um bom tempo se perdeu
até que retornasse aqui,
como se houvesse rompido cosigo
negando o que pode existir de bom em si.
Um bom tempo
um bom tempo se perdeu
agora uma salsa preenche de musica o que escreve
mariposa de lindos colores
e uma tela de luz branca – olho de frente aos seus olhos
se estende como um tapete persa às suas mãos.
Enquanto seus pés dançam salsa
suas mãos desfilam com o vermelho estendido aos dedos
sangrando de negro a folha branca.
Enquanto seus pés dançam e desfilam
pés que não são pés
são mãos
são mãos,
como são dedos,
como são palavras
caminando por las calles
poesia 2. DO ENTENDIMENTO
Entendo
que a poesia,
poesia poesia poesia
POESIA 3. DO DESENTENDIMENTO
- ele te deixou.
o mundo passou rodopiando, quase estrebuchou. é preciso que não o habitemos para que ele sobreviva? o mundo ou nós, nós em parte dele, o fim de nós ou fim do mundo. e daniela do edifício máster? me pergunto o mundo, o mundo, o que faz d’ela, em seu quarto em copacabana? copacabana, bacana, mas nós do edifício máster... copacabana dos corredores escuros.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
“Donne dizia que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere ao patíbulo, e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: depertar o homem que viaja rumo ao patíbulo.” (Ernesto Sábato)
“Seja qual for a coisa que se quer dizer, não há senão uma palavra para expressa-la, um verbo para anima-la e um adjetivo para qualifica-la. É preciso, então, buscar até descobri-los, essa palavra, esse verbo e esse adjetivo, e jamais se contentar com o aproximativo, nem jamais recorrer a fraudes, mesmo felizes, a palhaçadas de linguagem para evitar a dificuldade.”
(Maupassant)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009

morre mercedes. e um pedaço de mim chora. e outra parte canta. desde quando sua voz pela primeira vez me arrebatou, ela vive em mim. me acompanha desde a adolescência, expressando em melodia minhas angústias de militante em movimentos políticos e sociais. ouvi-la, desde sempre, já era vivenciar a utopia, como se sua voz não cantasse um lugar no futuro - ouvir sua voz já é vivenciar o horizonte. quando estive com os pés em Machu Picchu, la cigarra tocou em meus ouvidos com o olhar perdido no vale de montanhas, e ouvi-la dentro de mim, ali, fez-me reviver o massacre dos incas, mas além, um canto oníssono de toda latinidade, de forma atemporal. tornei-me um pouco niilista com a militância, mas um pouquinho mais sensível à música - minha paixão pela luta que ela convoca, cantando a poesia de poetas e poetisas espalhados pelas terras deste lado de cá das américas, segue sempre como um batismo novo. nunca me canso de ouvi-la, mercedes. você é parte de mim. abaixo, cancion con todos, letra de Tejada Gomes, que me faz chorar muitas vezes, ao vê-la cantar. salve, salve, salve, querida mercedes, amada mercedes, companheira mercedes... um soluço no mundo, em saudação à sua partida. não acredito em paraíso, mas no fato de ter você contribuído de forma viceral para fazer-nos um pouco melhores, mais próximos ao projeto de humanidade. então é aqui, entre nós, que viverá para sempre, entre os imortais.
Salgo a caminar
por la cintura cósmica del sur,
piso en la región,
mas vegetal del viento y de la luz;
siento al caminar
toda la piel de América en mi piel
y anda en mi sangre un río
que libera en mi voz su caudal.
Sol de Alto Perú,
rostro, Bolivia, estaño y soledad,
un verde Brasil,
besa mi Chile, cobre y mineral;
subo desde el sur
hacia la entraña América y total,
pura raíz de un grito
destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces todas,
todas las manos todas,
toda la sangre puede
ser canción en el viento;
canta conmigo canta,
hermano americano,
libera tu esperanza
con un grito en la voz.
por la cintura cósmica del sur,
piso en la región,
mas vegetal del viento y de la luz;
siento al caminar
toda la piel de América en mi piel
y anda en mi sangre un río
que libera en mi voz su caudal.
Sol de Alto Perú,
rostro, Bolivia, estaño y soledad,
un verde Brasil,
besa mi Chile, cobre y mineral;
subo desde el sur
hacia la entraña América y total,
pura raíz de un grito
destinado a crecer y a estallar.
Todas las voces todas,
todas las manos todas,
toda la sangre puede
ser canción en el viento;
canta conmigo canta,
hermano americano,
libera tu esperanza
con un grito en la voz.
(Letra: A. Tejada Gomez - Música: Cesar Isella)
domingo, 4 de outubro de 2009
sábado, 3 de outubro de 2009
ver se vê nos poros
não nos olhos
que os poros são mais postos
a sentidos
um corpo vazio
ocupa um lugar
o lugar do ar
o lugar do ar
o lugar da água
o lugar do horizonte
a dor é um lugar
o lugar do horizonte
a dor é um lugar
sombrio
vazio
e cheio de ar
dá para respirar
o ar vazio de um corpo
está cheio de horizonte
aquilo que no ar ocupa um lugar,
aquilo,
a dor,
está cheio de vazio
o vazio ocupa o lugar do ar.
dá para respirar
o ar vazio de um corpo
está cheio de horizonte
aquilo que no ar ocupa um lugar,
aquilo,
a dor,
está cheio de vazio
o vazio ocupa o lugar do ar.
o rio leva
o galho, o rio leva
a folha, o rio leva
o bicho, o rio leva
tudo que é leve, leva, leva
a nuvem, o rio leva?
a água - da chuva, da fonte, do balde, do cuspe, da lágrima, do gozo
o rio leva ou já é rio a água que não era e lá caiu?
chia brando um chhhiado de chuva
chama o sono, chama o canto
chama chanchã, chama, chama
o rio que chama e que leva, quando passa, passa?
o rio que passa, se é que passa
embora sempre sempre
leve a nuvem, leve o galho, leve a folha, leve o cuspe, leve o leve,
o rio doce até à foz,
quando fica salgado, deixa de ser rio?
E em qual gota terá deixado de ser doce, o rio?
o rio que se foi deixando,
se deitando
se deitando
se deixando a(o) mar
domingo, 27 de setembro de 2009
o sonho de ser literatura, de viver literatura, de respirar literatura e de a partir da literatura criar um novo mundo, de amores e utopias, faz refletir o que há de humano no cosmo, as frustrações sentidas e dissipadas no ar e no outro [uma camada de gazes circunda a existência e aos poucos dissipa todo o oxigênio das marés] enquanto ainda essas palavras tocam uma meia dúzia de eus, divago só, ou em forma de dois, desta pequena montanha de tijolos disposta como habitat para alguns quilos de idéias e projetos que são arquitetatos, rabiscados e compartilhados a partir de fios imaginários que cruzam os ares, para ir te encontrar aí, em outro qualquer ponto da circunferência enquanto o silêncio persiste em ser a nossa forma máxima de comunicação. tudo o que é escrito é ponte e deste percurso, um rio cruza em octogonal. mas há lembrança para além do silêncio. a memória finda cada átomo de ser e difine o corpo, o gesto, o suspiro e este olhar lacrimejado com gosto de mar. amar é bom, mas dói. viver é bom, mas dói. morrer dói. mas é bom? o que melhor define o momento em que seu peito se descobriu nu e só? paronomásia? eu que passo, penso e peço? ordenamento de estética? edificação de um novo eu? paisagismo eletromagnético? não: só o estado das cousas. ou um cão que ama trens. você é um ser que acredita no amor na justiça e no inferno? você consegue se ver sem deus? você se dispõe à solidão? está exausto ou ama muito tudo isso? mas não há com que se preocupar: cavaleiros teutônicos virão te salvar! não há velho, não há novo, a mesma repetição de sistemas. mas existe a literatura. todas as paredes estão em branco, para serem escritas. a tinta secou, mas há sangue em todas as extremidades dos membros dos mamíferos! não somos equídeos nem rinocerontes - temos cinco dedos, então avante! faça sangrar seu poema em vermelho. ou não.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Lagoinha: um corpo em chamas.
“Adeus Lagoinha adeus
Estão levando o que resta de mim
Dizem que é força do progresso
Um minuto eu peço
Para ver seu fim”
(Gervásio Horta e Milton Rodrigues Horta)
"Governar é povoar;
mas, não se povoa sem se abrir estradas,
e de todas as espécies;
Governar é pois, fazer estradas".
(Washington Luiz)
Já em 1980 sambistas da Lagoinha cantavam com nostalgia as agruras sofridas por um bairro que década após década é dissolvido em asfalto, mas vive! Na memória dos seus moradores e na arquitetura das casas, muitas delas com bocas e olhos carcomidos por traças e cupins, mas ainda de pé e resistindo bravamente, mantendo viva a história deste, que pode ser considerado um dos mais antigos bairros da jovem Belo Horizonte. A Lagoinha foi citada em documento de 1711 na Carta de Sesmaria ao bandeirante João Leyte da Sylva Ortiz, quando essas montanhas ainda eram conhecidas por Curral D'el Rey.
As casas que compõem o conjunto arquitetônico e que dia após dia deixam tombar para não cair as suas camadas de pele, foram listadas pelo Departamento de Patrimônio Urbano e Cultural da cidade como sendo mais de 600 (isso mesmo, seiscentos!) “monumentos de grande importância” para a cidade. Onde estão esses “monumentos”, amigo leitor? Em qual estado de preservação se encontram? Foram tombados? Revitalizados? Conservados? Ainda existem?
Já digo logo: não estou aqui fazendo defesa contra o progresso, longe de mim! Devo confessar sentir certa saudade de bondes sobre trilhos cortando a Lagoinha, mas fora isso acredito ser possível conciliar as necessidades da cidade de hoje com a preservação de patrimônios que têm incrustados em si a história da cidade. Basta um pouquinho só mais de zelo por parte do poder público...
A Lagoinha sofre o desmazelo da Lei porque é mãe desafortunada que tem, na madrugada, os seus filhos queimados. Pararam um carro ali no Bonfim e tocaram fogo em seu Osvaldo, igual fizeram com o índio Galdino em Brasília, lembra? Ele teve o corpo setenta por cento atingido por chamas mas sobreviveu e continua morador de nossas ruas, de volta ao nosso convívio. Mas tem cravada no corpo a marca de uma humanidade que queima gente.
Com a duplicação da Antönio Carlos, centenas de seus osvaldos habitam agora a Rua Itapecirica, marginais aos proclames de uma cidade que expande seus asfaltos. Toda vez que olho para eles ali, quando subo a Itapecirica, vejo refletido em seus olhos a história da Lagoinha, um bairro histórico transformando-se em ruínas. Sendo derretido. Um bairro com o corpo em chamas, como o de seu osvaldo. Quem vem apagar esse fogo?
domingo, 16 de agosto de 2009
os cabos estão proibidos para escaladas. tome as trilhas de pedras laterais. saiam daqui agora, vou ligar para a polícia. este trabalho é estressante, não? sim, muito, estou aqui desde ontem. ninguém vem tomar o seu posto? sim, mas ainda não chegaram, sigam pelo parque e retornem por aqui. inverno, mas amarelos os ipês apontam a primavera do alto. há vozes. elas fazem com que você se faça muitas perguntas. quem é você, o que faz, o que é, como se sente, o que pensa do mundo? parlatórios, idéias gerais, conceitos, a morte dilui tudo. h1n1 torna mais esdrúxula a existência. menos poético do que morrer de amor. mais crua e visceral do que morrer de fome? h1n1 não tem classe nem cor e por isso repercute um poquito más. quem propaga a gripe, los mexicanos, el viento, el medios de comunicación o los laboratórios? em saramago a catástrofe é mais palatável: literária. quisera fosse apenas. não esperam que você responda, não esperam respostas, apenas a sua adesão. e nem somos capazes de romper, embora quiséssemos somente fingir pertencimento, participação. preciso fazer xixi. um sol? um peso? um real? um dólar. donde vives? lhe dirão que o lago é cinematográfico [mas nenhuma palavra para revelar o efeito perverso da mineração] a bandeira está posta no chão, feita assento. eles podem se zangar! eles querem que fique tal qual foi educada para sê-lo, mecanicamente. não queira se ver de fora, não queira... estão agora com seus rostos sorridentes. mas atentos! lhe seguram pelas mãos e te conduzem (rumo a?) que mãos quentes eles têm... leito branco de hospital, cama macia, oxigênio farto. - mas não quero morrer aqui! eles o tomam pelos braços. - não quero morrer aqui. eles ouvem o rugir da morte e a alastram em rede nacional. (- não quero morrer aqui....) à sua esquerda seus entes queridos usam máscaras e sentem o hálito da morte. [não quero morrer aqui], em túmulos coletivos tal qual na idade média. a pós-modernidade há de ter servido para alguma merda, não? nem para livrarmos-nos das tumbas sem nomes? e ali está seu amigo, e ali está seu amado, do outro lado. estão apoiados em você, escorados em sua miséria, temendo o absurdo tamanho do nada. - mas eu não quero morrer aqui... espere! como a cidade é linda vista desta serra... deixe-me senti-la, deixe-me respirá-la pela última vez. qual era mesmo o nome da cidade antes de se tornar belo horizonte? serra do curral. ha ha ha. acho graça, acho poético. daqui de cima estamos livres da gripe(?) e quem sabe qual caminho faz o microscópico ser? espero não ser um fardo muito muito doloroso para todos... há um poço abissal, azul anil, cheio de larvas, explodindo em seu peito. um homem surge sujo de minério, sinistro. se eu tivesse seis quilos a menos, diz, teria morrido hoje. havia a dor, o cheiro da morte exalando dos seus poros. silêncio, reverência ao seu quase-fim. depois, depois o trágico faz-se cômico: gargalhada. escapa (ele) da linha transparente. ainda pensa, ainda existe. logos. respira um ar viciado de bactérias. grita quando se distancia. júbilo por ter superado as pedras. júbilo. você acredita em deus? - espero para ver se ele existe. terá que descer a serra e beijará com afeto o vidro do aquário do peixinho de estimação. está subindo, ainda. ascensão laboriosa. mas está livre da escalada, agora a montanha fora desvendada. ele a escalou. e o peixinho jamais saberá de nada. nem deus. passou tanto tempo olhando para cima, e agora pode olhar para baixo, para a cidade, deste lugar alto. é o maior dos seres do mundo. maior do que deus, que não sabe nem de perto o que é estar com a pele grudada no corredor da morte. grande panorama Dela, cá do alto. minhoca grudada na casca dura da Terra. Terra: tudo o que existe. e o dasein: trepadeira (parasita ou simbiótica?) do alto de montanhas, colado à gravidade, mais perto da lua, o Ser. e do sol, que já queima a pele [cuidado com a exposição abusiva! há também o câncer!] tudo é poeira, mas 2010 é ano de politiké tecnhé. então,
domingo, 9 de agosto de 2009
ilha grande me remete a ramos, em memórias do cárcere. um paradoxo. estão lá os escombros marcados na areia, lembrando-nos o terror da nossa história...
"Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem: fala um sujeito mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar um pronomezinho irritante, embora se façam malabarismos para evitá-lo. Desculpo-me alegando que ele me facilita a narração. Além disso, não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário. Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei as discussões, esconder-me-ei prudente por detrás dos que merecem patentear-se" (graciliano ramos).
mas há de ser possível.
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