domingo, 6 de maio de 2007


Michel Houellebecq, Partículas Elementares.

"posso disfarçar-me de executivo respeitável, e ser aceito", gostava de dizer Bruno. "Basta, para isso, que eu compre um terno, uma gravata e uma camisa - tudo por 800 francos na C&A, em época de liquidação; basta, na verdade, que eu aprenda a fazer um nó de gravata; há, claro, o problema do carro - no fundo a única dificuldade na vida de um funcionário médio; mas se pode chegar lá; toma-se um empréstimo, trabalha-se durante alguns anos e chega-se lá. De nada me adiantaria, ao contrário, disfarçar-me de marginal: não sou suficientemente jovem, nem suficientemente belo, nem bastante cool. Meus cabelos estão caindo, tenho tendência a engordar; quanto mais envelheço, mais me torno angustiado e sensível e mais os sinais de rejeição e de desprezo me fazem sofrer. Em resumo, não sou suficientemente natural, ou seja, não bastante animal, o que é uma tara irremediável: diga o que eu disser, faça o que eu fizer, compre o que eu comprar, nunca conseguirei superar a deficiência que possui toda a violência de uma deficiência natural"



quarta-feira, 2 de maio de 2007

e eu sem saber para onde olhar
que também a boca
.
e o que dizer
que também o canto
.
e se choro ou rio
que também o mar


vendaval no corpo
eu que pensava que não
que a solidão

que pensava que não

brotou da pele a flor
fez pedra no rim no peito no reto
de tão reta de tão ereta a dor



quinta-feira, 26 de abril de 2007



a palavra não vem
meia noite e cinco
vou dormir sem ela
- pervertida

e com a pedra (no meio do caminho)

então, pequena, coma chocolate
que não há metafísica maior que isso



segunda-feira, 16 de abril de 2007



nenhuma vontade senão deixar o tempo ir construindo os espaços, com suas cores, seu lento sopro sobre as folhas do quintal enquanto tia sônia reparte uma romã e propõe uma degustação coletiva das sementes num pequeno círculo de pequenas bruxas debaixo da romanzeira, a rede dança com o corpo de paulo num ir e vir como vai a tarde, morna, morgana, dali o dia passa ou não passa, o céu uma redoma ampla de teto baixo, que quase nos cospe no espaço repleto de grãos e mais um pouco de existência para ser pintada num quadro cinza cheio de garoa, água de alfinete na pele que arrepia mas quer noite e seguimos em bando pelo asfalto, pequeno sopro coletivo de vida, encontrar pessoas, abraçar pessoas, beijar pessoas, a busca por elas e por mãos que se tocam, olhares que se cruzam, corpos que se encostam, sentidos que se cruzam na música que sai de omar, as noites, as tardes, os desejos se misturam, há já um aroma reconhecido, o regresso da afetividade, o reencontro com a afetividade, a memória da afetividade, a afetividade que surge da disponibilidade, deixar-se tocar num movimento lento, quase um torpor, um passo suave igual iam lá em cima as folhas do quintal


domingo, 1 de abril de 2007



um calor que não vinha do sol, era da pele, de dentro, do pé queimando dentro da sapatilha, agonia o suor ir-lhe tomando o pescoço, sente uma gota descer pelo seio, faz um caminho torto e vai se abrigar dentro do umbigo, é preciso ligar o ventilador, deita de frente, toma o ar na cara, as mãos percorrem o corpo para conter a umidade, um alívio aquela hélice fazendo vento para si, corre à cozinha, pega uma vasilha de gelo, traz para frente do ventilador, um vai para a boca, mastiga-o como quem tritura pedras, outro pega e vai pousar atrás na nuca, dali para a frente no pescoço, sobe pela bochecha até a testa, desce de volta pelo outro lado, leva-o até a gola da camisa, ela atrapalha, volta com o gelo para o copo, tira a camisa, tira o short, tira o sutiã, fica de calcinha, o gelo novamente em sua mão livre para refrescar-lhe.




O nome dela era Maria, eu sorri e falei o meu. João. João? Ela perguntou. Sim, João, respondi. Ela não acreditou, deu as costas e foi embora, como quem abomina o óbvio.



terça-feira, 20 de março de 2007



repensar o jeito de viver, o quanto se consome de calça, calcinha, cueca, camiseta, meia, sapato, batom, sandália, pente, perfume, tinta de cabelo, esmalte, barbeador, lápis, prato, copo, pneu, sofá, mesa, cadeira, brinquedo de natal de ano novo de páscoa de são joão de são judas de santo antônio de são josé, o quanto se compra, o quanto se vende, o quanto se liquida produzindo saco plástico, latinha de refrigerante, de cerveja, de doce, de sorvete, de picolé, de atum, de suco, de leite, de manteiga, de chocolate, de queijo, de carne, geladeira cheia de árvores mortas e o que se pode fazer afinal quando se mora em centros urbanos com multidões de gentes e carros e litros de gasolina emitindo gases e gases e gases e gases e gases e gases e gases que retêm um calor que queima o cérebro ao meio dia ao pisar em petróleo respirando petróleo, sim, mas e daí quando se pensa que apesar de todo o desperdício ainda há má distribuição e então isso justifica meu pobre e desenfreado consumo de bugigangas, produtos descartáveis para produzirem mais consumo, mais dinheiro, mais concentração, mais desmatamento e há sempre a bela verdade consoladora de que o meu consumo é batatinha perto dos e.u.a e enquanto eles não derem o exemplo que não me venham cobrar também qualquer mudança porque a minha mudança não afeta em nada o mundo e nem quero pensar sobre isso agora porque me deu uma vontade imensa de comer no McDonalds. argh! odeio-muito-tudo-isso.


terça-feira, 6 de março de 2007

Calor que provoca arrepio

querem matar o menino do Rio,
o menino vadio

sábado, 3 de março de 2007

“Alguém que se perdeu completamente ao caminhar pela floresta, mas que, com energia invulgar, se esforça por achar uma saída, descobre às vezes um caminho que ninguém conhece. É um centauro, meio bicho, meio homem, e, além disso, tem asas de anjo na cabeça”.
(Nietzsche, 'Humano demasiado humano')

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007



a literatura é o que alimenta
porque nela vibra a possibilidade

ainda um tempo nublado, igual ia ela mesma. a noite parecia querer chover, mas apenas aquela umidade das nuvens carregadas desciam do céu, esfriando e molhando o corpo, a terra, o vidro da janela e a retina dos olhos. os dias pareciam irreais, havia uma sensação de não-participação, de não-integração, de escorregamento, como se as atividades cotidianas fossem arrastadas de um mecanicismo que sequer sabia de onde provinha. quem produzia aquela comunicação que estabelecia com o mundo? quem acordava e se punha integrada em cada movimento? quem ia empurrando os anos com tanta determinação, permitindo mesmo a estúpida sensação de estabilidade em tudo? quem, se na madrugada um profundo desprendimento a possuía? quem, se sentia de forma mais acentuada uma solidão harmônica, que lhe preenchia de força para mexer-se na ordem fútil das cousas, como se a certeza da falta de valor de tudo a fizesse mais íntegra para poder constituir cada gota da ínfima existência com o conteúdo que ela mesma quisesse dar.