quando se abre
quando se sabe
toca
quando se toca
sela
para o carnaval:
Lucia Murat: Quase dois irmãos
Eliane Caffé: Narradores de Javé
Cláudio Assis: Amarelo manga
Karin Ainouz: Madame Satã, Sob o céu de Suely
Toni Venturi: Cabra cega
Sérgio Machado: Cidade baixa
José Eduardo Belmonte: A concepção
Eduardo Coutinho: Edifício Máster
Luiz Fernando Carvalho: Lavoura arcaica
Rodrigues Gonzáles: Amores brutos; 46 gramas; Babel
Richard Limklater: Antes do pôr do sol; Antes do amanhecer; Waking Life
Michael Winterbottom: Songs; Código 46
Spike Lee: A última noite
Denys Arcand: As invasões bárbaras; O declínio do império americano
Kiéslowski: A liberdade é azul; A igualdade é branca; A fraternidade é vermelha
Zhang Yimou: Herói; O clã das adagas voadoras
Ki Kin Duk: Casa vazia; Primavera, verão, outono, inverno...e primavera
Se Hayao Myazak: O castelo animado
a mulher abriu os olhos assustada com o dia que até agora nada. o tempo pulava corda, esquecido do mundo e da tristeza presa na noite. dez vezes se levantou da cama para olhar pela janela algum rabisco de branco no céu, mas ainda as estrelas a dizerem que por ali somente havia madrugada. resolveu encarar o breu, pondo-se dentro de um xale. desceu a escada, seguiu pelo corredor, indo em direção à cozinha. abriu a porta e sentou-se no degrau que a levaria ao quintal. havia um grunhido de bichos noturnos e já o som de galos a marcar quatro horas. enlouqueceria antes que chegasse às seis se permanecesse à cama. impossível acreditar que tão pouco tempo havia se passado desde que se deitara. lembrava-se ainda do momento em que no entardecer. ele não deveria tê-lo feito. pensou em ir embora, mas não poderia com medo de ser percebida, de deixar perceberem o corpo teso, antes era preciso adoecer, sim, uma doença qualquer que a tirasse dali, uma febre, garganta, pé quebrado. permaneceu jogada no que restava da noite quando sentiu um vulto atrás de si. 'ouvi uns passos no corredor, imaginei que seria você.' ela se levantou, cruzando os braços como quem fecha o corpo, sentiu a maré de sangue vir desaguar no peito, olhou por um segundo para o homem, deu um passo desviando dele o corpo para ser retida adiante pela vontade de permanecer. não fugir, pensou. imobilizou o corpo num ímpeto, dando um passo para traz para voltar para ele novamente a face, ele estendeu os dedos, pousando-os na nuca da mulher enquanto olhava para o corpo procurando caminhos a ir ter com as mãos. Desceu pelos ombros com os dedos escalando as tiras do xale até ter lá embaixo a pele lisa e livre de panos. Dali desceu à palma da mão. A mulher permanecia à sua frente, agora de olhos voltados à mão, como quem quer ver, mais que sentir.
o dia seguirá lento pedindo cinema e praça. a cidade de sábado parece mais vagabunda, de perna aberta, querendo amar. tentar avistar na calçada o mendigo que distribui folhas na esquina da Liberdade, visionário mudo que espanta o padrão branco que por ali passa. recebo sua folha, busco seu olhar, que nada quer dizer senão mesmo sobre a folha, a entrega da folha, o ato verde da doação. os carros passam, passam, me enervam, sonho uma cidade sem carros, talvez somente jegues, bicicletas e no máximo trens. caminhar, caminhar, caminhar, avistar o mundo na velocidade dos pés. pé de chinelo, de sapatilha, pés descalços na terra vermelha, voltar ao mato e respirar o vento molhado do rio. Velho Chico que não me sai da cabeça. transpô-lo? penso que deveriam todos ir por lá nadar, ver se assim adquirem o espírito da preservação. enlouqueço no pensamento, esqueço e sigo. oxalá encontre em cartaz algo como Amantes Constantes, Volver ou O céu de Suely. o cinema é um gozo estético que me alivia, me alivia...
quando ele estiver longe talvez ela pense pense uma forma qualquer de sentir um toque um cheiro um som. numa rua olhará sua cor seu desenho sua rima na praça no cinema na esquina na padaria comprando suco de laranja para refrescar estes tempos de superaquecimentoglobal e depois, já em casa, que lá pode ousar mais na imaginação, deixar vir sua voz e sua mão até que a saudade se cale na sensação. na distância ainda a possibilidade.
e essa ânsia de fim de ano, de fim de mundo, de dissipação. o ano, como tudo o mais, o dia, o sono, o reencontro, o suspiro, a mão na nuca pousada. como tudo dentro do tempo. é preciso estar fora da percepção do esgotamento para permanecer. eu na noite e antes que ela se desfaça inteira em tudo, essa vontade de ir lá pousar meu corpo nas águas do francisco enquanto ainda há eu-corpo para flutuar porque depois é só ar e minha energia misturada a tudo o que eu já não mais serei.