sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

a mulher abriu os olhos assustada com o dia que até agora nada. o tempo pulava corda, esquecido do mundo e da tristeza presa na noite. dez vezes se levantou da cama para olhar pela janela algum rabisco de branco no céu, mas ainda as estrelas a dizerem que por ali somente havia madrugada. resolveu encarar o breu, pondo-se dentro de um xale. desceu a escada, seguiu pelo corredor, indo em direção à cozinha. abriu a porta e sentou-se no degrau que a levaria ao quintal. havia um grunhido de bichos noturnos e já o som de galos a marcar quatro horas. enlouqueceria antes que chegasse às seis se permanecesse à cama. impossível acreditar que tão pouco tempo havia se passado desde que se deitara. lembrava-se ainda do momento em que no entardecer. ele não deveria tê-lo feito. pensou em ir embora, mas não poderia com medo de ser percebida, de deixar perceberem o corpo teso, antes era preciso adoecer, sim, uma doença qualquer que a tirasse dali, uma febre, garganta, pé quebrado. permaneceu jogada no que restava da noite quando sentiu um vulto atrás de si. 'ouvi uns passos no corredor, imaginei que seria você.' ela se levantou, cruzando os braços como quem fecha o corpo, sentiu a maré de sangue vir desaguar no peito, olhou por um segundo para o homem, deu um passo desviando dele o corpo para ser retida adiante pela vontade de permanecer. não fugir, pensou. imobilizou o corpo num ímpeto, dando um passo para traz para voltar para ele novamente a face, ele estendeu os dedos, pousando-os na nuca da mulher enquanto olhava para o corpo procurando caminhos a ir ter com as mãos. Desceu pelos ombros com os dedos escalando as tiras do xale até ter lá embaixo a pele lisa e livre de panos. Dali desceu à palma da mão. A mulher permanecia à sua frente, agora de olhos voltados à mão, como quem quer ver, mais que sentir.


"Onde é a terra do nunca, Peter? É longe?

Logo ali em cima, Wendy."

domingo, 21 de janeiro de 2007

Se o cuidado está ferido,
o amor também.

sábado, 20 de janeiro de 2007

o dia seguirá lento pedindo cinema e praça. a cidade de sábado parece mais vagabunda, de perna aberta, querendo amar. tentar avistar na calçada o mendigo que distribui folhas na esquina da Liberdade, visionário mudo que espanta o padrão branco que por ali passa. recebo sua folha, busco seu olhar, que nada quer dizer senão mesmo sobre a folha, a entrega da folha, o ato verde da doação. os carros passam, passam, me enervam, sonho uma cidade sem carros, talvez somente jegues, bicicletas e no máximo trens. caminhar, caminhar, caminhar, avistar o mundo na velocidade dos pés. pé de chinelo, de sapatilha, pés descalços na terra vermelha, voltar ao mato e respirar o vento molhado do rio. Velho Chico que não me sai da cabeça. transpô-lo? penso que deveriam todos ir por lá nadar, ver se assim adquirem o espírito da preservação. enlouqueço no pensamento, esqueço e sigo. oxalá encontre em cartaz algo como Amantes Constantes, Volver ou O céu de Suely. o cinema é um gozo estético que me alivia, me alivia...







sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

quando ele estiver longe talvez ela pense pense uma forma qualquer de sentir um toque um cheiro um som. numa rua olhará sua cor seu desenho sua rima na praça no cinema na esquina na padaria comprando suco de laranja para refrescar estes tempos de superaquecimentoglobal e depois, já em casa, que lá pode ousar mais na imaginação, deixar vir sua voz e sua mão até que a saudade se cale na sensação. na distância ainda a possibilidade.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007







domingo, 17 de dezembro de 2006

e essa ânsia de fim de ano, de fim de mundo, de dissipação. o ano, como tudo o mais, o dia, o sono, o reencontro, o suspiro, a mão na nuca pousada. como tudo dentro do tempo. é preciso estar fora da percepção do esgotamento para permanecer. eu na noite e antes que ela se desfaça inteira em tudo, essa vontade de ir lá pousar meu corpo nas águas do francisco enquanto ainda há eu-corpo para flutuar porque depois é só ar e minha energia misturada a tudo o que eu já não mais serei.


segunda-feira, 27 de novembro de 2006


às vezes a vontade de morrer num segundo,
de me desfazer inteira no mundo e depois a dor de não. ele assim, o mundo, sem início nem meio nem fim e o eu como único limite de tempo nele, ponderando os segundo para não enlouquecer, contabilizando os mares e rios e amores e sorrisos e amizades... há ainda quem contabilize papel. eu ali na praia, pensando quantas gotas há mesmo compondo o mar e quantos pingos de gotas de tinta deus usou para pintar tanto céu e não me cabe tanto número e essa impossibilidade de fechar a conta num cálculo exato me oprime, eu cá na minha sensatez positivista, eu cá na minha integridade científica, eu cá na minha lógica filosófica, e de pensar que eu, tão eu, tão tão tão cheia de mim, nada... mas também o que me resta senão eu mesma? eu no meu vazio cheio de esperanças e utopias, eu cheia de negação e angústias mas ainda cheia, cheia, cheia de tudo para transbordar, eu, eu, eu, eu, mas sempre no outro, sempre, sempre, sempre na busca do humano, do que há de calor na pele, do que há de poesia no toque, do que há de integridade nas coletividades, e cada vez mais tentativas e desencontros e no entanto, pudesse você me ler e veria, veria enfim que há alguma coisa de boa dentro de tudo o que enfim não somos. mas tudo o que não é pode um dia vir a ser e esta loucura da possibilidade é ela, é ela, exclusivamente ela tudo o que somos e chegar nela é o único possível. chegar na possibilidade da possibilidade.


quarta-feira, 15 de novembro de 2006


Lagoinha,
Em vez de tombá-la,
destruí-la.









"Pouco importa se não dormia nunca, com sua população de bêbados, prostitutas, trabalhadores em trânsito, profissionais do rebuceteio, outros profissionais. Gente, gente, gente." *

"Adeus, Lagoinha, adeus.
Estão levando o que resta de mim.
Dizem que é a força do progresso.
Um minuto eu peço
Para ver seu fim."*





*Textos de Wander Piroli

terça-feira, 7 de novembro de 2006

o adiamento sem fim de qualquer mudança substancial, a espera do momento ideal, das condições objetivas perfeitas, o medo do desconhecido, a satisfação com um estado de equilíbrio e controle, a não desestruturação, a conformação com o que há porque antes isso que qualquer desconhecido. e daí? o corpo quer cair, quer se lançar num impulso dentro da possibilidade, quer ser, quer dar-se à dialética, a dialética como encarnação do outro, o outro como fundamento, o outro dor e o outro ponte, o outro como caos e o caos como única possibilidade.

sábado, 28 de outubro de 2006

, enchentes

o corpo jogado na cama,
diluindo-se em águas claras
pulsão
de linguagem e vazio