quarta-feira, 18 de outubro de 2006

omundo giragiragiraroda
e eu não me caibo neste copo de vodka

há um som tocando, um gemido,

e a pimenta-parmesão é boa demais com queijo gorgonzola

sexta-feira, 13 de outubro de 2006


Tem um ovni no meu banheiro

O dia arranha. Passa lento e resmungão, como um disco velho na vitrola. os dias todos, inteiros prostrado no sofá. faz pensar que não há vida, não há mundo além da parede. da janela o céu às vezes cinza, às vezes azul e quando se cansa de céu, cortina. as garrafas secas, era preciso sair para comprar bebida, vontade de encontrar alguém, talvez uma mulher, quem? um livro. acabar o restaurante do fim do universo. no restaurante, as coisas se aproximam cada vez mais do momento após o qual não haveria mais momentos. Sede. um copo de leite, o leite tão branco. aquela vaca. Começa a chover. vai pro chuveiro, liga a torneira, deixa a banheira encher, coisa boa desta casa, sonho de burguês satisfeito. shampoo na água, espuma, deita, fecha os olhos, Ford Prefect e Arthur Dent sorriem de uma mesa, ao lado estão Gabi e um ser cheio de patas e dedos que passa a língua em um dos olhos quando o vê, oi amigos, bom encontrá-los, bate a mão e sente os dedos dormentes, amassados, deformarem-se. abre os olhos, dormiu na banheira, quanto tempo? a água já fria, o corpo já frio, pula da água. uma mosca voa diante de si. voltou com ele do fim do universo. adora corpos nus. Deve ser uma fêmea, uma bela mosca fêmea. devia tomar a forma humana, transmutar-se, faça isso por favor, bela mosca, preciso de gente!, um cigarro, um cigarro, deixa a mosca ali e sai, um cigarro, um cigarro, vai à sala, acende e aspira, paraíso satisfeito, 


quinta-feira, 12 de outubro de 2006




o homem caminha com dificuldade, retendo a corda que contém seus três cachorros. são todos vira-latas pretos, grandes, com latido firme e dentes à mostra. do outro lado da rua um jovem anda apressado e assusta a moça. medo de estupro, medo de bandido, medo de homem. ela atravessa a rua. no bar uma música provoca náusea na moça, ao olhar tanta gente besta junto. que o chão se abra para ela cair. a pedra na frente rasga seu dedo, droga!, sangue, o médico sentado come um hamburguer e sorri, sim, deve ser médico com aquela cara e roupa branca de classe média, sorri e mostra os dentes como os cães, seus dentes de homem feliz. o enjõo agora desce da cabeça e estremece as pernas, ela corre até a esquina, o homem do cachorro continua ali com seus cachorros, ela hesita em continuar. pode vir, meus cachorros são seletivos. atravessa a rua, abre o portão num impulso e o vômito é despejado antes de tomar a casa, ali, no corredor. os gemidos do vômito são pavorosos, ressonantes, parecem de monstros que fogem do estômago, eco seco. não pode ser nela aquilo tudo, aquele cheiro podre, as lágrimas saem sem que perceba o choro, são gotas que pulam independentes. a luz se acende, Miguel vem ao seu encontro, anda reto, não se afeta com o estado da mulher, segura-lhe o braço, a suspende sem palavra, sem expressão. arrasta o corpo feminino para dentro da casa e fecha a porta. da rua se ouve ainda gemidos e pancadas.


quarta-feira, 11 de outubro de 2006

domingo, 1 de outubro de 2006












terça-feira, 26 de setembro de 2006

A primavera chegou.
Talvez por isso eu esteja desfolhando.
Dor da folha que secou, dor de botão. A fulô ainda nada


sexta-feira, 15 de setembro de 2006









sexta-feira, 8 de setembro de 2006




Houve de repente o desprendimento e o corpo inteiro se dilatando, para fazer correr por si todo o sangue num só segundo. O organismo transformado em veia, se abrindo como um rio às portas do oceano. A descoberta tão abrupta que temerosa. E aquela dor no peito, porque era muito oxigênio de uma só vez, quase um pulo no abismo, o peito podia estourar. Lembrou-se do pulo na cachoeira, seu corpo entregue à queda, a tensão de se jogar, de ver-se livre do chão, livre da visão, vazia de pensamento, o embate com a água, o estrondo da colisão, descer, descer e depois ressurgir, perceber o sol e segui-lo em busca de ar, sabendo-se viva ainda. Depois aquele sorriso infantil pelos seus limites ainda tão pueris. O choro na cama, o fim do dia num ócio absoluto, observando a luz fazer-se e desfazer-se através da cortina. Assumir o cansaço que dá descobrir-se, a loucura quase sem retorno. Deixar a febre ferir até que surja a palavra que desvende a dor, a espessura da dor, o peso da dor, o sabor da dor, para então degustá-la. Daí experimentar o silêncio do mundo, a ruptura com o mundo. A moral trancada do lado de fora da casa, da cama, do corpo. E o corpo num canto da cama, eufórico, mas ainda encolhido. 


sexta-feira, 1 de setembro de 2006




Uma falta, uma falta de tudo o que ainda não foi e poderia vir a ser... mas já lhe foi dito sobre a impossibilidade do sentimento de falta em relação àquilo que não se conhece. Como assim? Eu continuo sentindo, uma falta profunda do que poderia ter sido e não foi, do que será e ainda não foi, do que poderá ser, mas nunca será... e são justamente a primeira e a terceira alternativas as que mais angustiam... tudo o que nunca e jamais será.


terça-feira, 29 de agosto de 2006




dia desses, numa tarde de feira, andante perdida procurando ângulos para enquadrar a primavera em Niemeyer, Niemeyer em mim e eu na primavera









domingo, 13 de agosto de 2006




o poeta morreu na virada da noite, era quarta ou quinta feira, a notícia foi dada na feira dos livros, o coração da ouvinte acelera e bate nervoso com a notícia, não devia bater assim, ela pensa, em respeito ao do poeta que parou, rejeitando o corpo novo, ele morreu, isso lhe soa melancólico, não devia morrer assim, devia escrever mais, o poeta, foi pouco, foi muito pouco, e sempre seria pouco tudo o que escrevesse, o poeta não lhe sai da cabeça, o encontro no corredor do hospital, ela presa com a atual experiência da dor e ele de repente à sua frente, o sus, dizia ele, o sus, a cti, o coração, o verso, o quarto, a cama, a enfermeira, titanic, tudo podia afundar, mas ainda ali navegando, era impossível sentir algo que não poesia, envergonhou-se da própria dor, pequena dor e levou dias com aquela imagem em si, até hoje em si, a imagem do poeta, José Maria Cançado.


quinta-feira, 10 de agosto de 2006