Ipiranga com Avenida São João. Estou no cruzamento, final de tarde, já noite, carros para a esquerda, carros para a direita, gente em toda direção, Renata me puxando, não entende minha estaticidade, eu preciso parar, refletir aquelas avenidas em mim, a música em mim. Enfim eu no meio da melodia. Quatro esquinas, centenas de construções que lhes seguem, é preciso seguir, não se pode parar ali, assim, e pensar em poesia, melodia, nostalgia, é preciso seguir, deixar escoar o fluxo, eu hesito, fico ali, ainda, olhando as esquinas, tentando apreender o ritmo daquelas ruas, tentando ouvir o violão, a voz, o som, tentando cantar a poesia concreta das tuas esquinas, mas me foge a letra, me foge o ritmo, a cidade me atém além de mim, ela exige-me inteira, engole-me e muda observo o silêncio que me causa o estranhamento, o encontro concreto com o asfalto da canção. Um emaranhado de encontros, mas a exigência do momento não admite aliterações, a cidade dispondo-se de mim em sua deselegância discreta, proibindo divagações. No coração, alguma coisa acontece.
sexta-feira, 14 de julho de 2006
terça-feira, 11 de julho de 2006
sexta-feira, 7 de julho de 2006
Desejo de pele que ferve e abraça,
De boca oca que se enche de língua,
De ventre de pano que se desnuda,
De olhos de luzes, de cores e sombras,
De dedos que entram nos furos do outro,
De pernas pra baixo, pro lado, pra onde?
De suor que desce pela pele, pelos poros, pelos pêlos,
Enrolados, molhados, puxados,
De rosto careta pra depois sorriso,
De voz que grita e silencia,
De tempo e espaço... passo, passo, passo de dança,
No puf, na cama, no chão e teto
Akmê, oxalá, pai xangô que o trem é bom,
Caminho-da-minhoca...
Onde é que fui parar?
De boca oca que se enche de língua,
De ventre de pano que se desnuda,
De olhos de luzes, de cores e sombras,
De dedos que entram nos furos do outro,
De pernas pra baixo, pro lado, pra onde?
De suor que desce pela pele, pelos poros, pelos pêlos,
Enrolados, molhados, puxados,
De rosto careta pra depois sorriso,
De voz que grita e silencia,
De tempo e espaço... passo, passo, passo de dança,
No puf, na cama, no chão e teto
Akmê, oxalá, pai xangô que o trem é bom,
Caminho-da-minhoca...
Onde é que fui parar?
O silêncio assusta, mas outro dia me disseram que não há silêncio. “Pense nisso, não há silêncio”. Penso nisso desde então. Há silêncio ou sempre este turbilhão? O silêncio do outro, sim, o meu quase nunca não. Quando o há, tão raro, quase uma gota de milésimo de segundo. Um momento de desprendimento, um momento. E no seguinte o som. A mente quase sempre insana, querendo construir caminhos lógicos onde o caos predominantemente prevalece. E eu sempre com a mesma mania de escrever o mesmo mudando palavras e ordens. E o mesmo prevalece quando se mudam palavras e ordens? Quase sempre não, mas quase sempre é quase sempre quase nunca. E você tão calado que me assusta. Sempre escapando, evitando deixar sinais, querendo fazer-se presente unicamente pela ausência seca, que de tão silenciosa, gritante. Não, não há silêncio. Você sempre presente, com a sua sensibilidade afetada por um mundo que não te cabe. Demorei para apreender sua dor, mas ela chegou em mim. Não veio de você. Passou por você e seguiu seu rumo, atingindo-me tão depois... e agora, na ausência a sua presença se faz por este sentimento de completo alheamento com o mundo. Ou não. Nenhum alheamento, ao contrário, o mundo te afetando de forma tão visceral que mortal. Mas a morte só virá depois. E se a morte é certa, o depois nem tanto. Haverá morte? Sim. Depois? Nem tanto. Um pouquinho, talvez. E o que fazer com o resto do infinito que não me cabe? E com este grito? Não há silêncio, pense nisso. Não há silêncio, só grito.
domingo, 2 de julho de 2006
Literaturas na internet:
Alunos da UNICAMP fizeram um trabalho sobre.
Este blog foi escolhido.
Quem quiser conferir: http://www.geocities.com/antologiafavoritos
terça-feira, 27 de junho de 2006
"Tu, mulher olhando o seu corpo como coisa distinta, como seu próprio objeto erótico, e não como seu eu (porque toda a sobrevivência da cidade assenta nessa prática, do corpo se retirou a mulher para que aquele possa ser usado e explorado sem resistência pessoal).
As mulheres regressam da sua longa hibernação sexual, mas ainda não habitam seu corpo, olham-no, falam dele como dum animal de muita estimação."
As mulheres regressam da sua longa hibernação sexual, mas ainda não habitam seu corpo, olham-no, falam dele como dum animal de muita estimação."
Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa.
quinta-feira, 15 de junho de 2006
Meninas
Chuva late e Pedro olha pela janela do segundo andar. É Sofia que chega com Eleonora. Sofia vem à frente. É possível ficar ali filmando sua passagem pela existência. Acha-a linda e cheia de si, sempre. Queria mesmo tê-la, com todo aquele preenchimento, aquela vivacidade, aquela cor que lambuza o dia branco de chocolate. Ela está sempre de saias longas e camisetas sem sutiã e é admirável este seu desprendimento que vem mesmo da revolução feminista e está ali nela incorporada. Voz grave, mas cheia de aconchego que faz qualquer discussão filosófica parecer sempre uma conversa de bar. Eleonora entra como sempre, já cheia de intimidade e sem bater na porta. Ela o agarra pela cintura, gargalhando e balançando o quadril com uma música que exala inteira do seu corpo, dança com sua roupa e seus pés esparramados em sandálias de couro cru. Admira quase tudo nela: o jeito como se relaciona com o mundo, a sua disponibilidade para acontecimentos inusitados e a sua opção por estudar História.
Pedro anda para o quarto trocar de roupa e atrás lhe seguem as duas. Sente atrás de si a respiração de Eleonora, que vem trazendo o corpo quente para perto do seu, com sua pele eriçada. Sente que um sinal seria suficiente para uma brincadeira a três. Admira o desprendimento delas, a disponibilidade descompromissada, a abertura para as múltiplas possibilidades e a simplicidade com que tudo se resolve depois. Pensa que retém o pior peso, que é o do sentimento, esta mania de ter sempre o amor no meio, estragando tudo, mutilando o desejo, limitando o lúdico. O corpo santo, o corpo como território sagrado, o corpo como pecado original, está farto deste peso transcendental, quer mesmo estar disponível para o abismo. Sabe que nelas não existe esta carga, que elas realizam seus pequenos delírios sem peso, sem dor, então o travamento é seu e é possível romper. Ir além, sim, mas hoje está com preguiça de enfrentar seus fantasmas – prefere ficar do lado de cá, onde ainda é possível saber como agir. Entra no quarto e com ele seguem as meninas, cantarolantes.
quarta-feira, 14 de junho de 2006
Atravesso a rua pelo ar, em pensamento e assusta-me já ter chegado aqui. Como atravessei tantas ruas sem me dar conta? Lembro-me apenas de um olhar questionando-me na Afonso Pena e não sei o sentido da pergunta. Sou tão estranha assim? Estranho para mim é uma existência barulhenta. Apesar deste corpo que me belisca todos os dias. E há mesmo dias que preferia não ser, mas já não há esta possibilidade, então talvez por isso queira tanto derreter-me em leituras. Uma cadeira range no andar de baixo e me irrita profundamente, me irrita profundamente ser quebrada quando flutuo em ondas. Há dias uma náusea me entristece e sei que preciso parir este sentimento. Oscilo entre linhas tão contrárias que às vezes temo. Às vezes o medo da morte me assusta, não pela sua existência, mas pela minha não-existência. A morte é mais real, hoje. É preciso ser fundamental, creio, mas não sei mesmo o que é ser fundamento de qualquer coisa, então não há muita saída. Deixamos de ser fundamentais quando deus morre, para sermos uma florzinha que curte um banho de sol. E há mais responsabilidade agora, porque a solidão é cruel, mas deliciosa. Esta náusea existencial, ela sim é fundamental. Eu não. E onde está a responsabilidade? De qual ordem ela provém? Por que esta dor por toda dor que há no mundo? Não basta explodir com isso em mim? Ser, simplesmente um fluxo atemporal e imemorial... Aderir ao ‘movimento concepcionista’, talvez (risos)...
quarta-feira, 31 de maio de 2006
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