domingo, 21 de maio de 2006



São Paulo bem ali no centro, com o medo pulsando
e ecoando e escorrendo pelas veias do país
tempo propício para o bem contra o mal
para o matar clandestino
e o enterrar indigente

e somos todos do bem e estes bandidos tirando-nos a paz
e um viva à unidade nacional
à repetição de todas as bocas
de todos os especialistas
é preciso ainda mais trancafiar,
isolar,
de preferência explodir esta população enclausurada
380 mil,
muito pouco, muito pouco

Indulto? Absurdo
Progressão? Proteção
Direitos humanos? Bahh...
380 mil,
muito pouco, muito pouco

Um viva mais ao proibicionismo
ao controle penal
à vigilância liberal
380 mil,
muito pouco, muito pouco

o crime é mesmo uma realidade ontológica,
a raiz do problema é no máximo o Marcola
e vem desde Lênin, que também lia na prisão (????)

ocaosecoa
buuhhh!!!
e se Foucault fosse vivo veria enfim a cidade prisão




A realidade é quase sempre uma seqüência de pontos tão rígidos que sequer dimensionamos e vivenciamos adequadamente o movimento entre eles. A realidade é enganadora pela estaticidade com a qual aparece. O mundo real, material, objetivo é falso (não por ser irreal, mas por iludir ser exclusivamente o real.) E como pode o mundo material abarcar toda a realidade que está para além dele mesmo? E como se pode conceber a existência sem qualquer concatenação com a fluidez do imaterial que há em nós? Insistimos em querer ver e manter e reter o mundo como um plano estático. Ficamos presos a conexões totalmente unidimensionais. E num segundo momento, ao nos depararmos com a infinidade de planos presentes, parece-nos verdadeiramente trágico que tenhamos vivenciado um grau de realidade anteriormente tão pobre.

A vida se abre em formas e dimensões infinitas e é preciso não se assustar com ela, mas com a estabilidade de morte que sempre buscamos. Vontade de reter... Por que se prender a um ponto da rede? Por que buscar a ilusão cômoda do estável e imutável? A vontade de reter a vida e desvendá-la inteira? De entupi-la de objetividade?
É difícil nos libertarmos do peso aparente de verdade com que um ponto de conectividade nos lança. É preciso se lembrar da infinidade de pontos invisíveis e reafirmar a cada instante a ilusão do ponto estático. Não há certeza. É só fluxo.
E enquanto isso, num canto da sala, uma aranha bordadeira...


sexta-feira, 19 de maio de 2006





É muito, muito. Impossível reter e refletir tudo - reter, refletir, sentir e esquecer. Ficam os cacos de experiências flutuando aleatoriamente na mente, apenas por lembranças parciais e desconexas. Esta inapropriação de cada acontecimento, a sucessão de novos fatos sem que seja possível vivenciar até o fim cada um deles, sem poder pensá-los, pari-los, criá-los e extingui-los... então eles vêm e vão por suas próprias patas, restando-me um conhecimento superficial e quase abstrato, absurdamente frustrante e mesmo inexistente.





desexistir
queria
mas a palavra não
desexistir
ou não
eis a
desexistir
profunda mente
no corpo, no espaço,
no vocabulário?
morrer, é só querer
desexistir - impossível mesmo para aurélio


quarta-feira, 10 de maio de 2006



 

O amor calado
e eu, caos

O corpo quer
silêncio e mão

Meu tempo
um desperdício

Um atlas de poesia
Salva o meu dia




Nas escadas, fumaça
nos corredores, gestores

elevadores,
administradores

‘Elogio da Loucura’ – é preciso ler.





E ainda pensa algo bonito
para dizer

algo bonito,
algo bonito...

sua poesia
bonita, bonita, acaba de ler



as mãos passeiam na madrugada do corpo
algo bonito: o calor das mãos, melhor que o cobertor
no entanto, recusa




Há silêncio
espaço
distância

e tão juntos para tantos pontos
interferência

‘preciso ir’
quem diz, eu ou você?
Depende.
É terça ou quarta-feira?








é porque algo bonito
para ser dito
precisa ser sentido
e tem dia
que é só solidão




sexta-feira, 21 de abril de 2006


 

É sábado à noite. Eu numa melosa nostalgia do Rio, da bossa nova, sempre nova, mas também sempre velha, porque é preciso sentir saudade para sentir tristeza e compor melodia “deste rio de amor que se perdeu...”

Muitas sensações nestes dias santos no Rio de Janeiro. Urca e a maravilha da Praia Vermelha, perfeita, perfeita, a lembrar a sensação da praia dos Namorados de Guarapari, mas esta apenas como um borrão da perfeição que exala do urbano e natural daquela... nunca o humano em tamanha harmonia com o horizonte... suas ruas e casas e praças e lagoas e mares e gente e sotaque e Ipanema... o mundo que te puxa p’ra fora e é impossível ser introspectivo, há um choque com o belo a cada esquina, há um encontro com o mundo que te abraça e daí, veia que se abre e transborda batimento.

E agora, depois de assistir ‘Coisa mais linda’, ‘Maria Bethânia – música é perfume’ e ‘Vinícius’, aquela doce alegria do lindo que há na melodia e na poesia.

Mas também uma dor fina, aguda, lírica, sussurrada, sensação lacrimejante que se soma ao final de ‘Suíte Havana’ com uma pergunta clássica, mas tão contemporânea, ‘o quê fazer’? Não, não há diferença, é a música e a política... a arte e a vida, o que se quer transformar mas também o que já se é de belo e é preciso ser instantaneamente e para sempre... música... baixinha, rouca, batida, vivida, nascida das curvas do Rio, da arquitetura de Niemayer (museu de arte contemporânea em Niterói: é preciso conhecer!), das cores de Miró (coincidentemente para mim exposta no museu em Niterói), da poesia de Vinícius, do violão de João Gilberto, do feminino em Bethânia...

Rio, cinema, poesia, musicalidade: a emoção do segundo que irradia e extrapola e forma uma linha não-reta, curva, que pula de nota, que se arranha na corda do violão. E a vontade é de não formar uma frase lógica, mas um sentido sentido e não refletido. A reflexão aí já não em espelho plano, mas nas águas do mar: desconexa, navegante, embriagada, boiante, náufraga - assim vai o pensamento, já na terceira taça de vinho... flutuando pela noite e suas possibilidades... a noite em mim, mais do que no céu... as estrelas furando o breu e propondo, pondo além. E o que é possível enxergar para além do clarão do núcleo estrelar? E para viver um grande amor? Projeção, cenário e solidão... para além disso: o piano em suas primeiras notas em “rua Nascimento Silva Cento e Sete”...


segunda-feira, 10 de abril de 2006



BH pulsa frenética na rua e na minha cabeça, às vezes desce leve, faz até frio na barriga de alegria, como se o tobogã da Contorno de repente descesse guela à baixo dentro de mim, mas às vezes é uma melancoliiiia, uma vontade de subir e descer montanha correndo até chegar nas terras planas que de tão planas me confundem a vista num horizonte que vai lonnnnnge, que é também belo mas não mais belo-horizonte. É a minha Bahia...