quarta-feira, 10 de maio de 2006




Nas escadas, fumaça
nos corredores, gestores

elevadores,
administradores

‘Elogio da Loucura’ – é preciso ler.





E ainda pensa algo bonito
para dizer

algo bonito,
algo bonito...

sua poesia
bonita, bonita, acaba de ler



as mãos passeiam na madrugada do corpo
algo bonito: o calor das mãos, melhor que o cobertor
no entanto, recusa




Há silêncio
espaço
distância

e tão juntos para tantos pontos
interferência

‘preciso ir’
quem diz, eu ou você?
Depende.
É terça ou quarta-feira?








é porque algo bonito
para ser dito
precisa ser sentido
e tem dia
que é só solidão




sexta-feira, 21 de abril de 2006


 

É sábado à noite. Eu numa melosa nostalgia do Rio, da bossa nova, sempre nova, mas também sempre velha, porque é preciso sentir saudade para sentir tristeza e compor melodia “deste rio de amor que se perdeu...”

Muitas sensações nestes dias santos no Rio de Janeiro. Urca e a maravilha da Praia Vermelha, perfeita, perfeita, a lembrar a sensação da praia dos Namorados de Guarapari, mas esta apenas como um borrão da perfeição que exala do urbano e natural daquela... nunca o humano em tamanha harmonia com o horizonte... suas ruas e casas e praças e lagoas e mares e gente e sotaque e Ipanema... o mundo que te puxa p’ra fora e é impossível ser introspectivo, há um choque com o belo a cada esquina, há um encontro com o mundo que te abraça e daí, veia que se abre e transborda batimento.

E agora, depois de assistir ‘Coisa mais linda’, ‘Maria Bethânia – música é perfume’ e ‘Vinícius’, aquela doce alegria do lindo que há na melodia e na poesia.

Mas também uma dor fina, aguda, lírica, sussurrada, sensação lacrimejante que se soma ao final de ‘Suíte Havana’ com uma pergunta clássica, mas tão contemporânea, ‘o quê fazer’? Não, não há diferença, é a música e a política... a arte e a vida, o que se quer transformar mas também o que já se é de belo e é preciso ser instantaneamente e para sempre... música... baixinha, rouca, batida, vivida, nascida das curvas do Rio, da arquitetura de Niemayer (museu de arte contemporânea em Niterói: é preciso conhecer!), das cores de Miró (coincidentemente para mim exposta no museu em Niterói), da poesia de Vinícius, do violão de João Gilberto, do feminino em Bethânia...

Rio, cinema, poesia, musicalidade: a emoção do segundo que irradia e extrapola e forma uma linha não-reta, curva, que pula de nota, que se arranha na corda do violão. E a vontade é de não formar uma frase lógica, mas um sentido sentido e não refletido. A reflexão aí já não em espelho plano, mas nas águas do mar: desconexa, navegante, embriagada, boiante, náufraga - assim vai o pensamento, já na terceira taça de vinho... flutuando pela noite e suas possibilidades... a noite em mim, mais do que no céu... as estrelas furando o breu e propondo, pondo além. E o que é possível enxergar para além do clarão do núcleo estrelar? E para viver um grande amor? Projeção, cenário e solidão... para além disso: o piano em suas primeiras notas em “rua Nascimento Silva Cento e Sete”...


segunda-feira, 10 de abril de 2006



BH pulsa frenética na rua e na minha cabeça, às vezes desce leve, faz até frio na barriga de alegria, como se o tobogã da Contorno de repente descesse guela à baixo dentro de mim, mas às vezes é uma melancoliiiia, uma vontade de subir e descer montanha correndo até chegar nas terras planas que de tão planas me confundem a vista num horizonte que vai lonnnnnge, que é também belo mas não mais belo-horizonte. É a minha Bahia...

 


terça-feira, 21 de março de 2006




Para algumas sensações falta mesmo o dizer, porque esta dimensão é própria da materialidade que há na existência e a existência quando na vivência daquela propriedade alienígena à qual chamamos amor não cabe na palavra dita. Daí é resignar-se ao beijo, ao toque, ao arrepio, à lágrima, ao vento... é deixar ser mesmo imaterial e seguir o fluxo rumo à deterioração dos limites. Ir, simplesmente, até chegar em chá de maçã com canela...




Ontem chovia e enquanto o chão escorria molhado, parecendo asfalto derretido, o céu do entardecer era de um amarelo-manga, dava vontade de chupar. Um dia assim, meio estranho, apocalíptico, preguiçoso, melancólico. Eu, dentro do ônibus, queria evitar descer para não molhar os pés, mas lá fora, na Praça da Liberdade, pés corriam no cotidiano do corpo que malha haja chuva haja sol. Meu olhar seguia distraído absorvendo relampejos de céu, de gente, de água fazendo caminhos tortos na janela e dispersando minha visão que estava para além da transparência do vidro que deixa de ser transparente na chuva – nada se vê, só pingo que vem de fora, mas que não nos molha e daí, do paredão que forma a chuva na janela, que resta senão pensar no nada, no caos do trânsito, no sinal vermelho que não quer esverdear, no homem que lá de fora de repente me enxerga e me intimida ante a possibilidade de ler meus pensamentos tortos - viro o olhar. Estou atrasada e que dia mais estúpido para se ter uma consulta de rotina! Este dia é para a poesia e não p’ra medicina. Dá vontade de entrar no Belas Artes, mas é preciso me torturar mais um pouco seguindo a seqüência desenhada – hoje estou menos anárquica – e às vezes é preciso se enquadrar para depois a queda ter gosto de gozo. Tá bom por hoje!




Não é tanto o espaço o culpado, o turbilhão, a multidão, este amontoado de sussurros e pedras e faróis, mas este tempo que não me enquadro. É noite e agora compreendo mais a feroz efervescência que pulsa do silêncio, da abstração, da solidão. A noite tornou-se um abrigo amigo, sempre piscando possibilidades múltiplas de ser mais eu, de deixar de ser eu, de desconstruir o eu, de humanizar a existência e ser algo melhor que isso. Nem sei mesmo qual a distância cruel e se é mesmo possível calcular com régua e metros e kilômetros ou somente pegando um atalho, o caminho da minhoca, para chegar ao que não-sou no espaço-tempo urbano, ao que sou para além do enquadramento social, possibilidade infinita que me desintegra, afunda, mas que re-funda, menos material e estática - ativação inovadora sobre a realidade.






percebo aos poucos esta angústia que toma o sangue, uma pancada no peito que não é própria do coração, mas da sensação, da madrugada mal dormida, da estrela acordada que eu via da janela da minha madrugada, este arrepio corporal da sombra da solidão, este estar presa ao corpo que dói porque quero estar além de mim, esta fixação à própria dor, à própria pele, sentindo lentamente a saliva que desce e engasga, porque não é possível entrar, nada, absolutamente nada, estou trancada e apenas a dor pulsa lá dentro e pior que a dor vai a certeza de ser tão pequena.





"Estou numa solidão que eu reconheço,
que dentre todas nós reconhecemos,
sem escapatória de agora em diante,
irremediável, a solidão política
."

Marguerite Duras