domingo, 19 de março de 2006




"Infinito: Mais que a maior de todas as coisas e mais um pouco. Muito maior que isso, aliás, fantasticamente imenso, de um tamanho totalmente estonteante, um verdadeiro tamanho tipo “puxa, como é grande!”. O infinito é tão grande que em comparação a ele a própria grandeza parece uma titica. Gigantesco multiplicado por colossal multiplicado por exorbitantemente enorme é o tipo de conceito a que estamos tentando chegar.
População: Nenhuma. Sabe-se que há um número infinito de mundos, simplesmente porque há um espaço infinito para que os haja. Todavia, nem todos são habitados. Assim, deve haver um número finito de mundos habitados. Qualquer número finito dividido pelo infinito é tão perto de zero que não faz diferença, de forma que a população de todos os planetas do Universo pode ser considerada igual a zero. Daí segue que a população de todo o Universo também é zero, e que quaisquer pessoas que você possa encontrar de vez em quando são meramente produtos de uma imaginação perturbada."
(O restaurante do fim do universo - Douglas Adams)


domingo, 12 de março de 2006





Sei lá a qual dia pertence a noite... A noite não pertence a um dia de feira. A noite é um intervalo no tempo humano.




sexta-feira, 10 de março de 2006




Estou no centro de Guarapari. Na rua limite do oceano o carnaval passa pelos corpos. São muitos, coloridos e na mesma direção. Pulam e sorriem continuamente, num êxtase paradisíaco que terminará na quarta-feira de cinzas. Sem conseguir fixar esta felicidade com data e hora marcada, sigo mesmo com minhas sensações e reflexões cotidianas e atemporais, brandas e às vezes melancólicas que não se enquadram na orla carnavalesca.

Conhecer uma cidade... andar por suas ruas e ir aos poucos a re-conhecendo: pequeninos trechos, becos, vielas, casebres... a árvore que floriu, a outra que foi amputada, o horizonte de uma determinada perspectiva, a praia de um certo ângulo, o crespúsculo daquela pedra específica, o reflexo de luzes de uma certa janela num ponto do mar... Para conhecer é preciso reviver, criar história, perceber as mutações, saudar o reencontro. O que há de trágico no turismo é que ele não cria laços do ser com o espaço, que é usado numa relação de custo-benefício, de explorador e explorado. Não há retorno nem lembraça do mesmo cheiro, da mesma sombra, da mesma pedra. Somam-se lugares como colecionando figurinhas, deixando para a máquina fotográfica a memória que caberia a si.

Guarapari causou-me aquela sensação leve das paixões inesperadas... aquele torpor suave por não exigir dela nenhuma visão espetacular, por sabê-la equivocamente desinteressante. E assim, com a gratuidade exalando da nossa relação, ela entrou suave, amiga.

A Praia das Virtudes tem o aconchego do quintal de casa, tão minúscula e aglutinadora. Pequeno triângulo composto de prédios nas diagonais, com pracinha ao centro e mar na base. Enseada fechada por pedras que emolduram o azul que segue pequeno e vai se abrindo aos poucos até ser só azul, tudo azul, demais azul e é preciso dançar com olhos em busca de outras cores para que não seja diluída inteira num balde de tinta.

Da Praia das Virtudes seguir pela Rua da Prainha até o cemitério velho. Ali ao lado, as casinhas nostálgicas da rua Francisco de Almeida parecem saídas de livros de estórias infantis. Ao fundo, paredões de janelas causam um contraste futurista perturbador. Ao centro, perdido entre o passado e o futuro, aquele monte de túmulo colorido, com flores alegres e outras murchas, cruzes tortas, azulejos coloridos, cachorros vira-latas, terra vermelha, preta, mexida, piscina de mortos, jazigo dos 'fundadores' de Guara-pari.

Dali, subir a Ladeira Salvador Silva e se deparar com a pracinha da primeira igreja, datada de 1585, garantindo assim a temporalidade medieval e portuguesa tão caracteristica das cidades históricas do Brasil. A praça quase convida-nos a vir morar ali, numa daquelas casas com varandas largas, muros baixos, acesso quase irrestrito, sugerindo uma vida urbana menos murada e familiar, mais comunitária e ruaceira.

Depois de alguns dias ouvindo o mar dia e noite num som tal chuva de temporal, voltar para o dia-a-dia da Praça Sete, vigésimo primeiro andar. Trocar o horizonte em linha reta pelos contornos montanhosos da Serra do Curral, recebendo por sugestão o pôr do sol refletido nas janelas que sobem a Avenida Afonso Pena.
Hora de voltar às Minas Gerais...

Espírito Santo, amém!


quarta-feira, 8 de março de 2006


Da Praça da Liberdade à Praça Sete... De cara deparar-me com profetas esperneantes com bíblias quase engolidas ante o delírio da profecia, filas de aposentados nas portas dos bancos, pedintes com perdas estendidas nas calçadas, engraxates, artistas de rua fazendo-nos rir... gente, gente, gente, gente... multidão de anônimos, assim como eu.
De onde estou, é pular do 21º andar e ser fincada na ponta do obelisco! Vejo a Serra do Curral, a favela do Palmital, formigas no caos do trânsito, buzinas enlouquecedoras num constante pampampam de desmiolar o cérebro, prédios e, faça-se justiça, também um pouco de céu e de nuvens para aliviar a alma...
No final da tarde já não é mais possível ver diretamente o pôr do sol como era na Praça da Liberdade. Hoje, contudo, percebi uma vermelhidão sob a vidraça das dezenas de prédios que sobem a Avenida Afonso Pena. O sol se punha atrás do prédio e eu assistia de forma refletida nas vidraças. O bom de uma experiência é ser capaz de vivenciá-la posteriormente apenas por intuição e senti-la vigorosamente! Do caos urbano, a visão subentendida do horizonte solar...





Acho estúpida, às vezes, minha postura diante da realidade. Retraída, insegura. Faz-me lembrar Pessoa em Desassossego, mas quem me dera tão poética e genial... O cotidiano é alienante, irreal, ameaçador. É preciso poesia e loucura para sobreviver à bestialidade de cada dia.




E o que importa o número no espaço? No tempo? O número é sempre a tentativa de retenção da existência, a apropriação (vã ambição) da microcóspica e invisível percepção da passagem (qual passagem? por onde? em direção a quê?)




A linguagem nos molha com palavras. 
E depois, florir...





A angústia de saber-me pouca para as dores do mundo provoca-me um grito, de início mudo, mas que reclama palavra. “A angústia metafísica ou existencial é apenas um epifenômeno que traduz na esfera afetiva um problema lingüístico profundo”. (Wittgenstein) 


quarta-feira, 14 de dezembro de 2005



Geração Inde(x)pendente
(Leila Mícolis)

Em vez de me deitar na cama,
resolvi criar fama.
E aí comecei a fazer versos, a mendigar editores,
como se eles fizessem grandes favores
em nos publicar...
E de tanto batalhar, virei... poeta
— um grande passo em minha meta,
porque em poetisa todo mundo pisa.
E quando me consideraram menina prodígio,
consegui que um crítico de prestígio
analisasse minha papelada.
Ele deu uma boa folheada,
pensou, pesou e sentenciou:
— "Incrível... não tem nível..."
Juro que fiquei com muita mágoa
porque, afinal, quem precisa de nível é caixa d'água...

sábado, 3 de dezembro de 2005


"às vezes irrita não ser qualquer coisa que não ela mesma,
por ainda ser a mesma, por já não ter se tornado outra. seu maior desafio é deixar de ser Eu a cada dia. quer chegar ao fim tendo sido centenas, milhares. quer passar pelo mundo tendo percorrido o alfabeto inteiro de possibilidades. quer ter sido inteiramente múltipla, diversa, várias. e a irritação que arrepia é própria do seu cansaço de si. está na hora de além. estranho é poder ir se tornando diversa mantendo uma aparente unidade que possibilita ser reconhecida pelos outros. o Eu, no entanto, não fosse a imagem refletida no espelho e uma memória histórica que a integra, já não se reconheceria. quer aprofundar a queda. percorrer os limites até chegar do outro lado da linha enquanto não chega o momento da ‘perda total da percepção do inteligível’. o incomensurável disso tudo é o susto de ter sido capaz de romper e depois do susto ainda manter a percepção suave, doce, quase melosa de que a mudança não a desintegra, ao contrário, a mudança é o Eu. mas vai aos poucos, porque quer perceber-se transformar. quer reflexão e conhecimento no ato pensado de tornar-se.



Às vezes pensa que trocou as notas pelas letras por faltar-lhe mesmo um piano. E agora já nem sabe mais qual instrumento melhor sonoriza o agudo da sua dor... Tecla letras como quem toca teclas, agonizando pelas pontas dos dedos para dar vazão ao arrepio profundo de sentir a existência de forma tão visceral.

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005



Primeiro subverter,
mas os passos se firmam em linhas
e a rede abaixo suportará o peso?
Talvez não haja nem linhas, nem rede, nem peso
e seja possível voar,
Mas enfim, ficamos por aqui, presos como aranhas...