o homem caminha com dificuldade, retendo a corda que contém seus três cachorros. são todos vira-latas pretos, grandes, com latido firme e dentes à mostra. do outro lado da rua um jovem anda apressado e assusta a moça. medo de estupro, medo de bandido, medo de homem. ela atravessa a rua. no bar uma música provoca náusea na moça, ao olhar tanta gente besta junto. que o chão se abra para ela cair. a pedra na frente rasga seu dedo, droga!, sangue, o médico sentado come um hamburguer e sorri, sim, deve ser médico com aquela cara e roupa branca de classe média, sorri e mostra os dentes como os cães, seus dentes de homem feliz. o enjõo agora desce da cabeça e estremece as pernas, ela corre até a esquina, o homem do cachorro continua ali com seus cachorros, ela hesita em continuar. pode vir, meus cachorros são seletivos. atravessa a rua, abre o portão num impulso e o vômito é despejado antes de tomar a casa, ali, no corredor. os gemidos do vômito são pavorosos, ressonantes, parecem de monstros que fogem do estômago, eco seco. não pode ser nela aquilo tudo, aquele cheiro podre, as lágrimas saem sem que perceba o choro, são gotas que pulam independentes. a luz se acende, Miguel vem ao seu encontro, anda reto, não se afeta com o estado da mulher, segura-lhe o braço, a suspende sem palavra, sem expressão. arrasta o corpo feminino para dentro da casa e fecha a porta. da rua se ouve ainda gemidos e pancadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário