terça-feira, 21 de março de 2006



Ontem chovia e enquanto o chão escorria molhado, parecendo asfalto derretido, o céu do entardecer era de um amarelo-manga, dava vontade de chupar. Um dia assim, meio estranho, apocalíptico, preguiçoso, melancólico. Eu, dentro do ônibus, queria evitar descer para não molhar os pés, mas lá fora, na Praça da Liberdade, pés corriam no cotidiano do corpo que malha haja chuva haja sol. Meu olhar seguia distraído absorvendo relampejos de céu, de gente, de água fazendo caminhos tortos na janela e dispersando minha visão que estava para além da transparência do vidro que deixa de ser transparente na chuva – nada se vê, só pingo que vem de fora, mas que não nos molha e daí, do paredão que forma a chuva na janela, que resta senão pensar no nada, no caos do trânsito, no sinal vermelho que não quer esverdear, no homem que lá de fora de repente me enxerga e me intimida ante a possibilidade de ler meus pensamentos tortos - viro o olhar. Estou atrasada e que dia mais estúpido para se ter uma consulta de rotina! Este dia é para a poesia e não p’ra medicina. Dá vontade de entrar no Belas Artes, mas é preciso me torturar mais um pouco seguindo a seqüência desenhada – hoje estou menos anárquica – e às vezes é preciso se enquadrar para depois a queda ter gosto de gozo. Tá bom por hoje!


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